Quantas vezes você já acreditou que Conor McGregor estava de volta para valer? Eu mesma perdi a conta. A primeira vez que me fizeram essa pergunta foi em 2022, numa academia no Recreio, enquanto assistia a um compilado de treinos dele numa tela improvisada na parede. Meu joelho ainda doía da última cirurgia, e eu entendia muito bem o que é olhar para o espelho e não reconhecer o atleta que está ali. McGregor, naquele momento, parecia um cara tentando reconquistar o próprio corpo. O problema é que 'parecia' virou um verbo perigoso quando o assunto é o irlandês.
A diferença agora — e preciso ser honesta sobre isso — é que os sinais concretos se acumularam de um jeito que não tinha acontecido antes. Dana White, que raramente joga com palavras por acidente, afirmou no programa de Jim Rome que está "extremamente confiante" no retorno ainda neste verão do Hemisfério Norte, ou seja, entre junho e agosto de 2026. Não foi uma frase solta: White repetiu a confiança mais de uma vez na mesma entrevista, detalhou que há movimentações nos bastidores e confirmou que McGregor está treinando — com imagens circulando para provar. E tem mais: até o fim de março, o irlandês já havia passado por sete testes antidoping em 2026, uma média de 2,3 por mês, tornando-o o atleta mais testado de todo o plantel do UFC no ano. Isso não é coincidência burocrática. É alguém se preparando para não ter nenhuma desculpa quando o nome aparecer no cartaz.
O peso de quase cinco anos sem lutar e o que os números revelam
A última vez que McGregor pisou no octógono foi em julho de 2021, quando Dustin Poirier o nocauteou no primeiro round em Las Vegas — uma noite que ficou marcada pela fratura na tíbia, pela imagem grotesca da perna cedendo, e por um silêncio no T-Mobile Arena que eu nunca esqueci de assistir. Quem luta ou já lutou sabe o que aquele tipo de lesão representa: não é só osso. É o sistema nervoso que precisa reaprender a confiar no próprio membro. Eu tive uma ruptura de ligamento em 2018 e levei quase 14 meses para parar de hesitar na hora de plantar o pé no chão. McGregor ficou afastado por praticamente cinco anos.

Existe uma métrica usada em esportes de combate chamada striking efficiency rate — basicamente a proporção entre golpes significativos acertados e tentativas totais, uma espécie de 'rendimento real' do arsenal ofensivo. No auge de McGregor, entre 2014 e 2016, esse índice beirava 52% em lutas de pé, um número que poucos pesos-leves da história conseguiram sustentar. Depois da derrota para Khabib em 2018 e das sequências irregulares que se seguiram, o dado caiu. A questão que ninguém consegue responder ainda é: depois de quase cinco anos parado, qual é a eficiência real de um atleta de 37 anos que sofreu fratura exposta? O SportNavo acompanhou as análises de performance disponíveis e a resposta honesta é: não há dados suficientes para cravar nada. Os vídeos de treino mostram movimentação, mostram o jab, mas treino não é luta.
White reconheceu o histórico de promessas não cumpridas:
"Eu achava que o Conor iria voltar no ano passado, mas não deu. Agora, estou muito confiante de que ele voltará agora. Ele parece motivado, ele está treinando. Há muita coisa acontecendo nos bastidores que me fazem ter confiança de que ele vai voltar a lutar"A admissão do erro passado, curiosamente, é o que torna a declaração atual mais crível. Dana não costuma se expor assim sem ter algo sólido na mão.
A contra-leitura que o entusiasmo tende a apagar
Mas existe uma leitura menos otimista que merece espaço aqui. McGregor esteve suspenso por 18 meses após violar as regras antidoping da organização — em 2024, testou positivo em três exames e não se apresentou para controle na véspera da luta contra Michael Chandler, que nunca aconteceu. A punição poderia ter chegado a dois anos; foi reduzida para um ano e meio. Esse histórico não desaparece porque White está confiante. Ele cria um contexto em que qualquer deslize técnico ou lesão de treino pode reabrir a discussão sobre se o retorno é viável ou apenas desejável para o caixa do UFC.
O possível adversário mais cotado nos bastidores é Max Holloway — uma escolha que faz sentido narrativo mas que exige de McGregor uma versão muito próxima do melhor que ele já foi. Holloway tem um dos melhores volumes de golpes por minuto da divisão e uma resistência que beira o absurdo. Enfrentá-lo depois de quase cinco anos parado não é apenas uma luta: é um exame de realidade.
Durinho fecha um ciclo que McGregor ainda tenta deixar aberto
Enquanto McGregor tenta convencer o mundo de que ainda tem capítulos pela frente, Gilbert Durinho fechou o dele com uma lucidez que poucos atletas conseguem ter no momento mais duro. No UFC Canadá, em 18 de abril, Durinho foi nocauteado no terceiro round por Mike Malott — um lutador fora do ranking — e anunciou a aposentadoria ainda em cima do octógono. Dezoito dias depois, em entrevista à ESPN, ele manteve a decisão e explicou com uma clareza cirúrgica:
"Foi uma decisão que foi meio que em cima da hora. Porque eu achava que eu ia ganhar. E, quando eu perdi, eu falei: 'Ah, meu irmão, chega'. Tive aquela sensação de que eu deixei tudo ali."
Eu reconheço esse momento. Tem uma hora no quinto round — ou no tie-break do quinto set, dependendo do esporte — em que o corpo não mente mais. Ele para de fingir que tem mais um gás reservado. Durinho descreveu exatamente isso: a certeza de que deu o máximo, e o máximo não foi suficiente contra um adversário que, em tese, deveria ser superável. Essa percepção, mais do que qualquer derrota pontual, é o sinal mais honesto de que chegou a hora.
"Eu não tenho vontade nenhuma de lutar no MMA, zero", disse ele, já com planos de abrir academia e dedicar tempo à família. Uma aposentadoria com paz interior, algo que McGregor ainda não encontrou — ou não quer encontrar.
Os dois casos juntos formam um retrato do que significa envelhecer dentro do esporte de combate: um que sabe a hora de sair, outro que ainda precisa provar algo — para o mundo ou para si mesmo. Se as negociações seguirem o ritmo que Dana White descreveu, saberemos qual versão de McGregor aparece no octógono até o fim de agosto de 2026.








