— Mas como o Brasil vai jogar sem o Neymar no meio?
— Com dois volantes e muita fé.
— Dois volantes contra Marrocos? Boa sorte.

Essa conversa, ouvida em boteco de Caxias do Sul a Salvador neste fim de semana, resume o dilema real de Carlo Ancelotti às vésperas da Copa do Mundo. Neste domingo, 31 de maio, no Maracanã, o técnico escalou o Brasil com Alisson; Wesley, Bremer, Léo Pereira e Alex Sandro; Casemiro e Bruno Guimarães; Luiz Henrique, Matheus Cunha, Vini Jr e Raphinha — sem Neymar, que sequer treinou com o grupo, apenas observou a sessão de sexta-feira às margens do campo na Granja Comary.

A lesão que Ancelotti chama de pequena e o regulamento que não perdoa

O prazo é o nó da questão. O regulamento da Copa do Mundo permite a substituição de um convocado até 24 horas antes da estreia — o que equivale a 19h do dia 12 de junho, véspera do duelo contra Marrocos no MetLife Stadium. A CBF programou uma nova ressonância magnética para o dia 12, o que significa que a decisão sobre Neymar será tomada na última hora possível.

"Pensamos que ele vai recuperar e estar pronto o mais rápido possível. Para ser claro, ele vai estar conosco até o dia que se recuperar e estiver disponível. Pensamos que pode se recuperar para o primeiro jogo. Ou então no segundo. Não temos nenhuma dúvida de que não vamos trocar ninguém." — Carlo Ancelotti, em entrevista neste sábado, 30 de maio.

Ancelotti admitiu que o Santos enviou à CBF um comunicado antes da convocação informando um edema muscular — o que o técnico chamou de "pequeno problema" — e que o clube cuidou do caso até o dia 27 de maio, quando a seleção assumiu o protocolo de recuperação. A comissão médica acompanhará o atacante também nos Estados Unidos, para onde o grupo embarca na segunda-feira, 1º de junho, em voo fretado do Rio direto para Nova Jersey. Militão e Estêvão, convocados inicialmente, já estão fora da Copa; Neymar ainda não.

Dois volantes não sustentam — e Casagrande tem os números para provar

A dupla Casemiro e Bruno Guimarães é tecnicamente sólida, mas a análise tática dos últimos amistosos revela um padrão preocupante: o Brasil fica "espaçado", como definiu Walter Casagrande, com espaços abertos entre as linhas que adversários organizados exploram em transição. Não é intuição — é dado mensurável pelo PPDA (passes permitidos por ação defensiva), métrica que indica o quão bem uma equipe pressiona o adversário: quanto menor o índice, mais intensa a marcação. Com apenas dois homens no meio, o Brasil eleva esse número e entrega metros de campo para o rival construir jogo.

"Você não pode jogar só com dois caras ali. Você tem que ter um terceiro cara. Um terceiro cara que marque e saia para o jogo. Que também faça com que o adversário corra para trás. Porque o nosso meio-campo não faz o adversário correr para trás." — Casagrande, no programa Fim de Papo, do Canal UOL.

O comentarista foi além e indicou o nome: Danilo. Para Casagrande, o volante é imprescindível para a Copa porque reúne as duas funções que a dupla titular não cobre simultaneamente — pressionar na fase defensiva e sair em progressão na fase ofensiva. Essa mobilidade bidirecional, característica dos meias-box-to-box modernos, é exatamente o que falta quando Casemiro e Bruno Guimarães se posicionam lado a lado sem um terceiro elemento de cobertura.

A síntese que Ancelotti precisa fechar antes de 13 de junho

A interpretação dominante nos bastidores é que Neymar, mesmo limitado, é insubstituível como criador — e que o Brasil deve preservar a vaga e esperar sua recuperação. Há uma contra-leitura igualmente razoável: a de que depender de um atleta em protocolo de recuperação às vésperas de um Mundial é um risco tático desnecessário, especialmente quando o meio-campo já demonstra fragilidade estrutural. A Copa do Mundo de 1998 oferece um paralelo incômodo — o Brasil entrou em campo na final contra a França com Ronaldo em condição física duvidosa e perdeu por 3 a 0 em Paris, com o camisa 9 em versão visivelmente abaixo do seu nível.

A síntese possível é a que o próprio Ancelotti já desenhou em entrevista no SportNavo: Neymar permanece na lista dos 26 até o limite regulamentar, mas o sistema tático não pode ser refém dessa espera. Com ou sem o camisa 10, o Brasil precisa de um terceiro homem no meio. Danilo, pela intensidade e pela capacidade de cumprir papel defensivo e ofensivo no mesmo turno de jogo, é o candidato mais lógico a ocupar essa função — seja como titular, seja como peça de rotação que entra quando o placar exige compactação ou quando Ancelotti quer recuperar posse sem sacrificar o ataque.

O próximo teste é dia 6 de junho, em Cleveland, contra o Egito, no Huntington Bank Field — o último amistoso antes da estreia contra Marrocos, em 13 de junho. Será a última oportunidade real de Ancelotti calibrar o meio-campo com tempo de resposta.