Quanto tempo pode durar um zagueiro que aprendeu a ler o jogo antes de aprender a correr mais rápido que o atacante? A pergunta circula nos bastidores do Estudiantes L.P. desde que Dante Bonfim da Costa Santos, nascido em 18 de outubro de 1983, se tornou peça regular da equipe na Copa Libertadores. Quarenta e dois anos. Cento e oitenta e oito centímetros de história.

Para entender o que Dante representa hoje, é preciso primeiro entender o que significa manter regularidade nessa posição nessa idade. Na Europa dos anos 90, Paolo Maldini jogou até os 40 anos pelo Milan — e virou exceção tão citada que quase perdeu o sentido de referência. No futebol sul-americano, onde o ritmo físico da Copa Libertadores impõe altitude, viagens intercontinentais e gramados irregulares, a longevidade de um zagueiro de área é ainda mais rara. Dante não está apenas sobrevivendo a esse ambiente — está acumulando 32 jogos nesta temporada de 2026, com 1 gol e 1 assistência.

Esse número, 32 partidas, não é detalhe. É argumento. É a diferença entre um veterano que aparece quando o técnico não tem opção e um jogador que faz parte do plano.

Se ele for transferido neste mercado

O mercado de zagueiros experientes na América do Sul tem lógica própria. Clubes que disputam torneios continentais buscam, cada vez mais, o perfil do defensor que organiza o bloco defensivo sem depender de velocidade — o tipo de jogador que já entendeu que a melhor marcação começa três segundos antes da bola chegar. Dante, com 188 cm e 87 kg, encarna esse perfil com naturalidade quase didática.

Se uma transferência acontecer nos próximos meses, o destino mais plausível seria outro clube sul-americano com ambição continental, ou até uma equipe de liga nacional que precise de estabilidade defensiva e liderança de vestiário. O que o mercado não pagaria mais é velocidade. O que pagaria — e bem — é leitura de jogo e presença nas bolas aéreas. A temporada 2023/2024 foi o pico estatístico disponível da carreira de Dante: 32 jogos, 1 gol, 1 assistência. O fato de ele replicar exatamente esse volume de partidas na temporada atual de 2026 sugere que o nível de comprometimento físico não caiu.

Transferências nessa faixa etária raramente são sobre dinheiro. São sobre projeto. E um zagueiro que ainda joga 32 partidas por temporada aos 42 anos tem projeto para vender.

Se permanecer no clube atual

A permanência no Estudiantes L.P. é o cenário que mais faz sentido quando se olha para os números com calma. O SportNavo rastreou a regularidade de Dante nas últimas temporadas: após um período de aparições pontuais entre 2017 e 2020, o zagueiro voltou a acumular minutagem expressiva a partir de 2023/2024, com 32 jogos, e manteve a consistência em 2024/2025, com 25 partidas. Em 2026, já soma 11 jogos na temporada europeia mais 1 em outra competição — ritmo que, projetado, aponta para mais uma temporada completa.

Permanecer significa continuar sendo aquele defensor que move o bloco como uma placa tectônica — lento na superfície, mas com força suficiente para reorganizar tudo ao redor. É uma imagem que soa exagerada até você ver um zagueiro de 42 anos posicionado no lugar certo enquanto o atacante ainda está decidindo para onde vai. Dante faz isso. Não com explosão, mas com antecipação — o recurso que a experiência fabrica quando a velocidade começa a se despedir.

Para o Estudiantes, mantê-lo é também uma escolha de identidade. Clubes argentinos com tradição defensiva — e o Estudiantes tem essa tradição escrita em décadas de futebol pragmático — valorizam o zagueiro que não improvisa. Que sabe onde se posicionar antes do apito.

Se mudar de função tática

Aqui mora o cenário mais interessante do ponto de vista analítico. No futebol moderno, zagueiros veteranos com leitura de jogo apurada têm migrado para funções híbridas: o terceiro zagueiro em linha de três, o líbero em sistemas com dois volantes de marcação, ou até o papel de organizador da saída de bola — função que, nos anos 90, era exclusividade dos meias construtores e que hoje recai cada vez mais sobre o defensor central com boa técnica de passe.

Dante, aos 42 anos, já não precisa ser o zagueiro que ganha na corrida. Pode ser o zagueiro que ganha na leitura. A assistência registrada nesta temporada de 2025/2026 — discreta no papel, mas sintomática — indica que ele ainda participa ativamente da construção ofensiva. Isso é dado, não especulação.

Se o técnico do Estudiantes decidir explorar essa característica de forma mais sistemática, posicionando Dante como o vértice de trás numa linha de três, o jogador ganharia proteção física dos parceiros e entregaria em troca o que tem de mais valioso: a visão panorâmica de quem já viu tudo que o futebol pode apresentar dentro de uma área.

O cenário mais provável dos três

A permanência no Estudiantes L.P., com adaptação tática gradual, é o caminho que os números sugerem com mais clareza. Não porque os outros dois sejam impossíveis — mas porque a consistência de 32 jogos em duas temporadas separadas por dois anos indica um jogador que encontrou estabilidade, não um que está em trânsito.

Historicamente, quando um zagueiro chega a essa faixa de idade com esse volume de partidas, o clube costuma ser parte da equação. O Estudiantes, com sua cultura defensiva e sua presença na Libertadores, oferece o ambiente onde as qualidades remanescentes de Dante têm mais valor de mercado interno. Não é romantismo — é lógica de encaixe.

O que os próximos 12 meses vão exigir de Dante é simples de enunciar e difícil de executar: manter a consistência física para disputar mais 25 a 30 partidas, evitar lesões musculares que nessa idade têm recuperação mais longa, e continuar sendo o tipo de jogador que o técnico escala sem hesitar quando o jogo é grande.

Nos anos 80, o zagueiro era o homem que cabeceava e chutava para a arquibancada quando a dúvida batia. Nos anos 90, começou a aprender a jogar com os pés. Nos anos 2000, virou peça de construção. Hoje, em 2026, o zagueiro completo é aquele que faz tudo isso — e Dante, com 42 anos e a camisa 4 do Estudiantes, ainda está nessa conversa.

A última imagem que fica: um zagueiro de cabelos grisalhos posicionado no centro da área adversária num escanteio, 188 cm de concentração pura, esperando a bola que pode ser a última ou a próxima de muitas. O jogo ainda não decidiu.