22 de maio de 2026. O Datafolha divulgou naquela sexta-feira os primeiros números coletados inteiramente após a revelação dos áudios do caso Dark Horse — e os dados enterraram o empate técnico que travava a disputa presidencial desde o início do ano. No campo político, o movimento foi comparável a uma virada de placar no segundo tempo: Lula passou de 38% para 40% no primeiro turno, enquanto Flávio Bolsonaro recuou de 35% para 31%. A vantagem, que era de três pontos, saltou para nove.
O que aconteceu antes dos áudios chegarem ao público
Até o início de maio, Flávio Bolsonaro vinha em trajetória de crescimento. O Datafolha de 16 de maio — realizado entre os dias 12 e 13, quando a maior parte das entrevistas ocorreu antes da publicação do Intercept Brasil — registrou empate no segundo turno: 45% a 45%. O filho do ex-presidente havia herdado o eleitorado bolsonarista com rapidez e chegou a superar Lula em alguns cenários específicos de segundo turno nos primeiros meses de 2026.
A AtlasIntel de abril confirmava esse movimento: Flávio marcava 39,7% no primeiro turno, contra 46,6% de Lula — diferença de apenas 6,9 pontos. O campo da oposição interpretava os números como sinal de viabilidade para outubro.
O escândalo que mudou esse quadro envolve repasses de Daniel Vorcaro — ex-dono do Banco Master, hoje preso — para o financiamento do filme Dark Horse, produção que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. Nos áudios, Flávio chama Vorcaro de "irmão" e cobra parcelas atrasadas. O valor combinado entre as partes seria de R$ 134 milhões, dos quais R$ 61 milhões foram efetivamente pagos. A Polícia Federal investiga se parte desse dinheiro foi usado para sustentar o deputado Eduardo Bolsonaro no exterior.
Os números que a AtlasIntel captou primeiro
A AtlasIntel/Bloomberg — realizada entre 13 e 18 de maio, já com as revelações públicas — foi o primeiro grande instituto a medir o impacto integral do escândalo. Com 5.032 entrevistados, o levantamento mostrou Lula com 47% e Flávio com 34,3% no primeiro turno: vantagem de 12,7 pontos percentuais. No segundo turno, Lula atingiu 48,9% contra 41,8% do senador — diferença de 7,1 pontos, ante empate técnico registrado em abril, quando Flávio tinha 47,8% e Lula, 47,5%.
A queda de Flávio entre as duas pesquisas da AtlasIntel foi de 5,4 pontos percentuais — movimento proporcional ao que o próprio Lula levou quatro meses para construir no início de 2026. Em termos de velocidade de variação, é como perder em duas semanas o equivalente a um semestre de crescimento.
O levantamento trouxe ainda um dado sobre percepção pública difícil de ignorar: 95,6% dos entrevistados afirmaram ter ficado sabendo do vazamento, e 93,9% disseram ter ouvido o áudio envolvendo Flávio. Para 45,1%, a divulgação enfraqueceu muito a candidatura do senador. O percentual de eleitores que associam o caso Banco Master ao entorno de Jair Bolsonaro saltou de 28,3% em março para 43,3% em maio.
O PL reagiu pedindo a impugnação da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral, alegando que o questionário induzia respostas negativas contra Flávio. O TSE ainda não se pronunciou sobre o pedido.
O panorama após a virada nos levantamentos
O Datafolha de 22 de maio — registrado no TSE sob o número BR-07489/2026, com 2.004 entrevistados e margem de erro de dois pontos percentuais — consolidou o movimento captado pela AtlasIntel. No segundo turno, Lula chegou a 47% contra 43% de Flávio: quatro pontos de diferença, fora da margem de erro do instituto. Semanas antes, os dois estavam numericamente empatados com 45% cada.

No campo aliado ao presidente, o deputado Jilmar Tatto, coordenador do grupo de trabalho eleitoral do PT, avaliou que a pesquisa de 16 de maio já indicava "fadiga" da campanha de Flávio — antes mesmo dos áudios chegarem ao público.
"Nós estamos na ofensiva. Eles, na defensiva. Vamos observar o que vai acontecer com o Flávio, o risco de ele se desidratar tanto e ter de retirar a candidatura", afirmou Tatto, que trabalha com o cenário de que Flávio pode não ser o candidato da oposição em outubro.
Flávio Bolsonaro — que publicou o resultado da pesquisa nas redes sociais — respondeu com uma declaração de resistência.
"Não vou desistir do Brasil, não importa a farsa e as mentiras que armem contra mim", escreveu o senador.
A terceira via segue distante dos dois polos. No Datafolha, Ronaldo Caiado (PSD) aparece com 4% no primeiro turno; Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) marcam 3% cada. Na AtlasIntel, Renan Santos soma 6,9% e Zema, 5,2% — cenário que, sem Flávio na disputa, elevaria Zema para 17%, com Lula mantendo 46,7%. A próxima rodada de pesquisas, esperada para a primeira quinzena de junho, medirá se o desgaste de Flávio é estrutural ou conjuntural.










