Não foi um retorno de gala, com dribles desconcertantes e gols de placa. Quando Neymar entrou em campo no Hard Rock Stadium, em Miami, aos 27 minutos do segundo tempo da vitória do Brasil por 3 a 0 sobre a Escócia, na quarta-feira (24), o que o estádio recebeu foi algo mais raro: a imagem de um atleta de 34 anos que sobreviveu a um trauma físico e emocional grave o suficiente para afastá-lo de uma Copa inteira. Quatro anos depois de Doha, o camisa 10 voltou — e o impacto foi desproporcional aos 18 minutos que passou em campo.
Dos bastidores de uma lesão que parou o Brasil ao gramado de Miami
Em novembro de 2022, no Qatar, Neymar saiu de campo na estreia contra a Sérvia com o tornozelo direito destruído. A imagem dele chorando no banco enquanto o Brasil avançava nas fases seguintes virou símbolo de uma Copa que terminou com eliminação nos pênaltis para a Croácia — e sem o seu principal jogador em condições plenas. O processo de recuperação que se seguiu foi longo e marcado por recaídas: uma lesão no ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo, diagnosticada em outubro de 2023 enquanto atuava pelo Al-Hilal, o tirou por mais dez meses de competições. Ao todo, foram quase três anos de ausência intermitente antes de Ancelotti conseguir reintegrá-lo ao grupo da Seleção para esta Copa do Mundo de 2026.
Nos dois primeiros jogos do Grupo C, o técnico italiano optou por preservá-lo. Com a classificação já garantida diante da Escócia, e o Brasil vencendo por 2 a 0 desde antes dos 15 minutos do segundo tempo — Matheus Cunha marcou o terceiro aos 14 minutos —, a torcida brasileira presente em Miami começou a pedir sua entrada já aos 6 minutos da etapa final. Os gritos de "Neymar, Neymar" voltaram com força aos 14, e Ancelotti finalmente cedeu treze minutos depois. Foi a estreia dele em sua quarta Copa do Mundo.
O desempenho em campo e a cena com Davi Lucca que parou as redes
Dentro das quatro linhas, o retorno foi funcional, não espetacular. Neymar recuou para ajudar na marcação no meio-campo, assumiu as cobranças de bola parada — foram dois escanteios e uma falta pela meia-esquerda — e teve apenas uma finalização a gol, um chute a meia altura defendido sem dificuldade pelo goleiro escocês Angus Gunn. Nenhum drible que parasse o coração, nenhum gol. Mas a leitura do jogo e a disposição tática mostraram um jogador que entendeu seu papel naquele momento específico da partida.
O episódio mais comentado, porém, aconteceu depois do apito final. Davi Lucca, filho de Neymar, tentou entrar no gramado para encontrar o pai e comemorar a classificação ao lado dele. Dois seguranças que controlavam o acesso ao campo o interceptaram brevemente — o menino precisou explicar quem era antes de ser liberado. A cena viralizou nas redes sociais, com torcedores comentando tanto a situação inusitada quanto o comportamento tranquilo do garoto diante do constrangimento. Pouco depois, pai e filho se abraçaram em campo, em meio à festa da classificação brasileira para a próxima fase.
Em matéria do SportNavo publicada nesta quinta-feira (25), a repercussão do episódio foi analisada dentro do contexto emocional mais amplo do retorno de Neymar à Copa — um reencontro que envolveu família, torcida e quatro anos de espera comprimidos em dezoito minutos de jogo.

Pedro Neto e o peso geracional de um jogador que atravessa décadas
A dimensão do retorno de Neymar não passou despercebida nem para os adversários. Em coletiva realizada nesta quinta-feira (25), Pedro Neto, atacante do Chelsea e um dos principais nomes ofensivos de Portugal nesta Copa, foi questionado sobre a estreia do brasileiro. A resposta foi direta.
"O Neymar é um jogador que marcou muito a minha geração, pela alegria e pelo que faz em campo. O fato de ele ter entrado e ter sido celebrado dessa maneira é a prova disso. Ele merece, por tudo o que passou. Marcou muito a minha infância pela sua maneira de jogar e de vivenciar o futebol. É algo que sempre ficou marcado em mim", disse o atacante português de 26 anos.
A declaração de Pedro Neto tem peso estatístico além do sentimental: ele tem oito anos a menos que Neymar, o que significa que cresceu assistindo ao brasileiro nas Copas de 2010, 2014 e 2018. Portugal, com seis pontos no Grupo K após duas rodadas, pode cruzar o caminho do Brasil no mata-mata — o que tornaria esse elogio um prólogo de um confronto concreto nas fases decisivas.
A trajetória de Neymar nesta Copa segue com o Brasil já classificado para as oitavas de final. A questão agora é de dosagem: Ancelotti precisará decidir quanto tempo de jogo o camisa 10 suporta fisicamente em sequências de partidas eliminatórias, considerando que sua última temporada completa em alto nível remonta a 2022. Se o técnico optar por escalá-lo como titular já nas oitavas, Neymar terá jogado mais minutos consecutivos do que em qualquer período desde a cirurgia no joelho. Conseguirá manter o padrão físico necessário para ser decisivo caso o Brasil chegue às quartas ou às semifinais?










