"Eu tô muito feliz. Muito feliz que tudo deu certo, que ele não desistiu." Quem disse isso não foi nenhum dirigente da CBF nem um comentarista de televisão — foi Davi Lucca, 14 anos, filho de Neymar, sentado nas arquibancadas do Hard Rock Stadium em Miami na noite de quarta-feira, 24 de junho de 2026.

A cena sintetiza o que foi o retorno do camisa 10 à Copa do Mundo: uma narrativa de superação construída ao longo de 981 dias de ausência — incluindo uma lesão na panturrilha que o tirou das duas primeiras partidas do Brasil no torneio — recebida com comoção genuína por uma torcida verde-amarela que lotou o estádio da Flórida e transformou o jogo contra a Escócia em algo que transcendeu o placar de 3 a 0.

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A fênix que entrou pelo banco de reservas

Quando Neymar deixou o banco e pisou no gramado do Hard Rock Stadium, o coro da torcida brasileira presente nas arquibancadas foi imediato. Faixas erguidas, gritos com o nome do camisa 10 e uma onda de celulares iluminando as tribunas marcaram o momento que o próprio jogador descreveu como carregado de simbolismo pessoal. Nos pés, uma chuteira amarela exclusiva da Puma — modelo "Future", desenvolvido em parceria com o designer KidSuper — com uma fênix estampada no cabedal.

"Esta é uma chuteira especial para mim. A fênix representa a minha história. Sempre que duvidaram de mim, eu dei a volta por cima. O amarelo, os detalhes no solado, os símbolos: tudo isso é pessoal. Eu queria que as pessoas olhassem para esta chuteira e sentissem o que eu sinto toda vez que a calço e entro em campo pelo Brasil", declarou o atacante em material de divulgação da Puma.

A escolha estética não foi casual. Enquanto a maioria dos jogadores em campo — e até Lionel Messi, que usou um modelo branco e azul da Adidas batizado de "Último Tango" — apostou em chuteiras dentro da febre rosa que dominou as coleções das grandes marcas para este Mundial, Neymar foi na direção oposta: o amarelo-ouro funcionou como declaração de intenção antes mesmo de a bola rolar. O modelo, produzido em peça única, não está à venda.

O que a torcida viu dentro do campo divergiu do que esperava

A narrativa de superação, porém, encontrou resistência nos dados do jogo. A atuação de Neymar foi discreta — participação limitada nas jogadas de ataque, pouca influência no desempenho coletivo segundo a percepção da torcida virtual — e as redes sociais rapidamente transformaram o retorno em material para memes. O contraste entre a expectativa gerada por 981 dias de ausência e a contribuição efetiva dentro dos 90 minutos foi o principal combustível das ironias que circularam na internet após o apito final.

Esse gap entre o que a torcida projetou e o que o campo entregou é, historicamente, um fenômeno recorrente em retornos de grandes jogadores após longas lesões. O músculo pode estar recuperado; o ritmo de jogo, a leitura de espaços em alta velocidade — esse é o caminho mais lento. Na zona mista, Neymar falou sobre Messi com naturalidade, como quem prefere desviar do tema mais espinhoso da noite.

"Messi é uma pessoa muito melhor fora de campo. Ele é bom em campo, certo? Imagine fora dele. Estou muito feliz por tê-lo conhecido, por ter jogado com ele, ele é um grande amigo", disse o atacante ao canal DSports.

No estádio, a atmosfera era de festa mista. A vitória por 3 a 0 garantiu a classificação do Brasil para a segunda fase do torneio, e isso abafou parte da frustração com o desempenho individual do camisa 10. Nas arquibancadas, a torcida brasileira — numerosa em Miami, cidade com forte presença de imigrantes do país — vibrou com o resultado e aplaudiu Neymar na saída de campo, ainda que sem o entusiasmo esfuziante da entrada.

Davi Lucca, bastidores e o que vem pela frente

Entre os detalhes dos bastidores que a transmissão captou, um chamou atenção: o ator americano Matthew Broderick, de "Curtindo a Vida Adoidado" (1986), apareceu em um camarote com uma camisa do São Paulo estendida em sua poltrona. A explicação, apurada em matéria do SportNavo, passa pelo empresário Diego Fernandes — torcedor são-paulino que tem recebido personalidades mundiais em sua suíte durante os jogos do Brasil e que foi um dos responsáveis pelas negociações que trouxeram Carlo Ancelotti ao comando da Seleção.

Mas a imagem mais potente da noite foi outra. Davi Lucca, que acompanhou a quarta Copa do Mundo do pai — depois de 2014, 2018 e 2022 — concedeu entrevista ao Itatiaia Esporte com uma mistura de orgulho e fé que desarmou qualquer cinismo. "Para mim está sendo espetacular. A última vez que eu vi a Copa eu tinha uns 11 anos. Relembrar esse momento é muito sensacional", afirmou o adolescente. Questionado sobre quando o gol do pai vai sair, foi direto: "Esse gol vai sair no próximo jogo, se Deus quiser."

A previsão de Davi Lucca será testada na próxima segunda-feira, 29 de junho, quando o Brasil enfrenta o segundo colocado do Grupo F — posição disputada por Holanda, Japão e Suécia, ainda indefinida — às 14h (horário de Brasília). Se Neymar sair do banco novamente ou ganhar a titularidade, o que o campo dirá sobre o retorno será mais definitivo do que qualquer receção de arquibancada: o mata-mata tem a característica de um corredor estreito como pulmão de tatu — sem espaço para imprecisão, sem margem para atuação apagada.

A pergunta que fica não é se a torcida vai continuar apoiando Neymar — Miami já respondeu isso com gritos e celulares erguidos. A questão concreta é outra: se Ancelotti decidir escalá-lo como titular nas oitavas de final, Neymar terá condições físicas de sustentar os 90 minutos contra uma equipe europeia de alto nível, ou o Brasil precisará construir seu caminho ao hexacampeonato independentemente do camisa 10?