Diz-se que treinadores com passagens longas num mesmo clube terminam reféns da própria história, incapazes de impor qualquer novidade ao grupo. Na verdade, essa máxima raramente resiste a uma análise mais fria — e David Moyes, o escocês de 63 anos que comanda o Everton na temporada 2025/2026 da Premier League, é um dos casos mais eloquentes de como a suposta repetição pode esconder uma adaptação constante e deliberada.

O esquema que ele sempre busca rodar

Moyes tem uma âncora tática clara: o 4-2-3-1 compacto, com dois médios defensivos posicionados numa linha baixa que serve de barreira entre a linha de quatro defensores e o meia-atacante criativo. Não é gegenpressing à la Klopp, nem tiki-taka com construção elaborada desde o goleiro. O que Moyes pratica é algo mais próximo do que os analistas ingleses chamam de structured pressing — uma pressão organizada por zonas, ativada em momentos específicos de transição, e não como comportamento permanente. Quando o adversário ultrapassa a linha do meio-campo sem resistência, o bloco recua rapidamente para um 4-4-2 defensivo. A fluidez entre esses dois estados — pressionar e recuar — é o núcleo do método.

Há algo de Rinus Michels nessa ideia de que o time deve funcionar como um organismo coletivo com reações pré-programadas, mas sem a utopia do futebol total. Moyes é menos idealista do que isso: ele constrói sistemas para o elenco que tem, não para o elenco que sonha ter.

Como ele monta o time dentro desse esquema

A montagem do time reflete uma hierarquia de funções muito clara. Os dois médios defensivos não são intercambiáveis — Moyes costuma escalar um perfil mais destruidor, responsável pela marcação direta sobre o pivô adversário, e um segundo com mais capacidade de distribuição, que inicia as transições ofensivas. Essa distinção de papéis dentro de uma mesma linha é um dos seus traços mais reconhecíveis e algo que ele já aplicou em diferentes contextos ao longo da carreira.

No setor ofensivo, o meia-atacante central — o chamado number ten — tem liberdade para flutuar entre linhas, mas com uma condição implícita: ao perder a bola, é o primeiro a pressionar o portador adversário. Moyes não tolera criativos que se eximem do trabalho defensivo. Essa exigência é, em certo sentido, o que limita seu repertório de jogadores, mas também o que garante a coesão defensiva do sistema.

O SportNavo já mapeou como esse modelo bidirecional — ofensivo na posse, defensivo na perda — é cada vez mais raro na Premier League atual, dominada por propostas de alta intensidade contínua. Moyes nada contra essa maré com uma convicção que beira o dogma.

Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)

O sistema de Moyes prospera contra equipes que dependem de triangulações rápidas no terço médio, porque o bloco compacto elimina os espaços entre linhas onde esse tipo de combinação se desenvolve. Contra times com pressing alto agressivo, porém, a saída de bola curta desde o goleiro — que Moyes insiste em manter — torna-se um risco calculado que nem sempre sai como planejado.

Há uma cena no filme Moneyball em que Billy Beane, confrontado com as limitações do seu roster, responde que o problema não é o método, é a execução. Moyes poderia assinar embaixo. Quando o Everton perde duelos individuais nas laterais — e isso acontece com regularidade contra os grandes da liga —, o 4-2-3-1 se transforma num 4-6-0 involuntário, com os atacantes recuados demais para criar perigo real. Esse é o ponto de ruptura mais frequente e mais difícil de corrigir sem mudanças de elenco.

A gestão de vestiário nos momentos de crise é outro elemento que define o treinador. Moyes não é o tipo que reinventa o discurso a cada semana — ele mantém a mensagem consistente, algo que pode parecer teimosia de fora, mas que cria um ambiente de previsibilidade que muitos jogadores valorizam. Treinadores que mudam de ideia a cada derrota perdem a confiança do grupo antes de perder o emprego.

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar

A preferência de Moyes recai sobre perfis específicos que raramente ganham manchetes, mas que são estruturais para o funcionamento do sistema. Laterais com capacidade de cobertura defensiva antes de qualquer vocação ofensiva, médios com alto volume de recuperações de bola por jogo, e um centroavante que saiba segurar a bola de costas para o gol — o chamado target man — são os arquétipos que ele busca. Quando tem esses perfis disponíveis e saudáveis, o time funciona com uma regularidade que surpreende quem não acompanha de perto.

O problema, na temporada vigente, é que o mercado de transferências raramente entrega exatamente esses perfis ao Everton. A janela de contratações do clube tem sido historicamente limitada por questões financeiras, e Moyes aprendeu — ao longo de uma carreira construída longe dos grandes orçamentos — a extrair o máximo de elencos imperfeitos. É uma habilidade subestimada numa era em que técnicos de clubes ricos são celebrados por resultados que o dinheiro compra antes mesmo do apito inicial.

O esquema que ele sempre busca rodar David Moyes e o pragmatismo que o Everto
O esquema que ele sempre busca rodar David Moyes e o pragmatismo que o Everto

É o mesmo cenário que o West Ham viveu em 2022, quando Moyes conduziu o clube a uma campanha europeia consistente com recursos modestos — só que agora a aposta é diferente: o Everton de 2026 precisa mais do que estabilidade, precisa de uma identidade que sobreviva ao novo estádio, ao novo contexto financeiro e à pressão de uma torcida que nunca foi de esperar com paciência.