Três coisas: 33 anos, goleiro e camisa 13 do Getafe. Tudo se explica daí.

David Soria é o tipo de jogador que a La Liga conhece bem — experiente o suficiente para não ser surpreendido, jovem o suficiente para ainda ser solução. Mas há uma lacuna que persiste na trajetória do goleiro espanhol, e ela não cabe numa ficha técnica. Cabe numa pergunta: o que fazer com um título europeu conquistado há dez anos quando o presente parece menor do que o passado?

O que ele ainda não resolveu

Há uma ironia silenciosa na carreira de David Soria. Em 2016, ele fazia parte do elenco do Sevilla que conquistou a UEFA Europa League — e foi tão relevante naquela campanha que figurou no Squad of the Season da competição. Aos 23 anos, estava no topo. A trajetória apontava para cima, para os grandes estádios da Europa, para a briga por convocações e manchetes.

O problema é que a carreira raramente segue o roteiro que a gente escreve depois de uma noite de glória. Dez anos depois, Soria defende o Getafe, clube de solidez modesta na primeira divisão espanhola, e enfrenta uma temporada 2025/2026 que mal começou para ele — apenas 1 jogo disputado até aqui. Não é irrelevância. É algo mais difícil de nomear: a sensação de um jogador que já provou que pode ser grande, mas que ainda não encontrou o espaço definitivo para ser insubstituível…

E aí vem o problema.

Onde está hoje em relação a esse buraco

Com 192 cm e 85 kg, Soria tem o físico que qualquer comissão técnica deseja numa baliza. A estatura imponente favorece os cruzamentos, o posicionamento nas bolas aéreas, a presença que intimida atacantes em situações de um a um. São atributos que não somem com a idade — se bem trabalhados, amadurecem.

Mas a temporada atual conta uma história de parcimônia. Um único jogo registrado até agora, sem gols sofridos contabilizados nas estatísticas disponíveis, sem assistências — o que, no caso de um goleiro moderno, também é um dado relevante, já que a saída de bola com os pés se tornou moeda de troca no futebol contemporâneo. Não dá para saber, com os dados em mãos, se Soria está disputando posição no elenco, se enfrentou algum revés físico ou simplesmente aguarda sua vez no calendário. O que é certo: o relógio corre.

Pense num músico de jazz que gravou um álbum clássico aos 23 anos e passou a década seguinte tocando em clubes menores. O talento não foi embora. A visibilidade, sim. É esse o dilema de Soria — não a competência, mas o palco…

O caminho técnico para tapá-lo

Para um goleiro de 33 anos que carrega no currículo um título europeu e um prêmio individual da UEFA, o caminho de volta à protagonismo passa menos por estatísticas e mais por constância. Sequência de jogos. Presença. A confiança que só se constrói quando o treinador não hesita antes de escrever o nome na escalação.

No Getafe, clube que historicamente valoriza organização defensiva e pragmatismo tático, um goleiro com a leitura de jogo que Soria demonstrou em momentos anteriores da carreira pode ser exatamente o que o sistema precisa — desde que a comissão técnica lhe dê o espaço para provar. O problema de jogadores nessa faixa etária não costuma ser técnico. É de oportunidade. De tempo de jogo. De confiança institucional.

A temporada 2025/2026 ainda está em curso, e uma sequência de partidas pode mudar radicalmente a leitura sobre seu momento. Um goleiro não precisa de dez jogos para se firmar. Às vezes, três ou quatro atuações sólidas bastam para reposicionar a narrativa — e Soria, que já viveu isso em 2016 com o Sevilla, sabe como poucos o que é transformar uma janela curta em legado duradouro, como ficou registrado em matéria do SportNavo sobre o perfil de goleiros espanhóis na elite europeia.

O que isso destrava na carreira

Se Soria conseguir se firmar como titular absoluto do Getafe na segunda metade da temporada 2025/2026, o efeito vai além do clube. Aos 33 anos, ele ainda tem dois ou três anos de futebol de alto nível pela frente — o que, para um goleiro, é tempo suficiente para construir um segundo capítulo relevante.

A referência da Europa League de 2015-16 não é apenas nostalgia. É prova de catálogo. Qualquer clube que precise de um goleiro experiente, com bagagem europeia e estabilidade emocional, tem em Soria um nome que resiste ao tempo. Mas esse valor só se mantém ativo se houver jogo. Sem minutos em campo, o currículo envelhece mais rápido do que o atleta.

O que está em jogo não é só a camisa 13 do Getafe. É a possibilidade de Soria escrever um final de carreira à altura do começo — e de provar que o melhor goleiro que ele pode ser ainda não foi visto em campo.