Eram 4h15 quando a Tropa de Choque cercou o prédio. Os estudantes dormiam dentro do saguão da Reitoria da USP, no campus Butantã, Zona Oeste de São Paulo — e acordaram com o barulho seco de bombas de efeito moral reverberando pelos corredores de mármore. Em menos de uma hora, 50 policiais militares encerraram à força uma ocupação que durava 60 horas, detiveram quatro universitários e deixaram um rastro de relatos sobre fraturas, sangramentos e trauma psicológico que o movimento estudantil já transformou em combustível para a próxima rodada de pressão.
A ocupação que nasceu de uma greve em abril e chegou ao limite na madrugada de domingo
A tensão que explodiu no domingo 10 de maio tem raízes mais longas. A greve nas universidades estaduais paulistas — USP, Unicamp e Unesp — havia começado ainda em abril, sustentada por reivindicações concretas: ampliação das políticas de moradia estudantil, melhoria na alimentação subsidiada, reajuste salarial para servidores e expansão das bolsas de permanência. Na quinta-feira, 7 de maio, estudantes da USP escalaram o conflito ao ocupar o saguão da Reitoria, derrubando um portão e portas de vidro do prédio durante o protesto. Eram cerca de 150 pessoas que, segundo o DCE Livre, organizaram turnos de vigília, comissões internas e comunicação com a imprensa — uma estrutura que lembrava, em miniatura, o tipo de logística que se monta para um acampamento de longa duração, como os que tomaram a Avenida Paulista em ciclos políticos anteriores.
As reivindicações nunca foram respondidas pela administração central. O reitor Aluísio Segurado e o chefe de gabinete Edmilson Dias de Freitas não abriram mesa de negociação durante as mais de 60 horas de ocupação. A USP informou, em nota posterior, que havia comunicado a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo logo no início da ocupação, no dia 7, "visando a segurança dos servidores e demais funcionários". A mesma nota, porém, afirmou que a ação da PM "não foi comunicada previamente à Reitoria" — o que levanta uma questão operacional ainda sem resposta clara: quem, exatamente, autorizou a entrada da Tropa de Choque naquele horário?
Cinquenta policiais, um corredor polonês e a versão que a SSP-SP contesta
A operação policial, segundo registros dos próprios estudantes e imagens obtidas pela imprensa, teve início às 4h15 do domingo de Dia das Mães. Bombas de efeito moral e gás lacrimogênio foram os primeiros instrumentos usados para forçar a saída. Depois vieram os escudos e os cassetetes. O estudante Rael Brito de Paula, que estava no local, descreveu o momento com precisão perturbadora:
"Foi um processo absurdamente violento. Além de usar cassetetes e bombas de efeito moral, os policiais fizeram um corredor polonês na saída do prédio pra agredir todos os estudantes que passavam. Houve estudantes com fraturas, sangramentos, uma estudante desmaiou, fora o trauma psicológico de acordar no meio da noite com uma violência completamente descabida."
A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo confirmou o número de 50 policiais na operação, mas negou qualquer registro de feridos. "A Polícia Militar ressalta que eventuais denúncias de excesso serão rigorosamente apuradas", diz o trecho da nota oficial. A contradição entre os dois relatos — o dos estudantes, com fraturas e desmaio documentados, e o da SSP-SP, com zero feridos — é exatamente o tipo de disputa narrativa que costuma definir o campo de batalha político nos dias seguintes a uma ação desse porte. As câmeras operacionais portáteis dos policiais registraram toda a ação, segundo a USP, e as imagens serão "anexadas aos autos da ocorrência".
Quatro estudantes foram levados ao 7º Distrito Policial da Lapa. Ainda na manhã do domingo, dezenas de manifestantes se concentraram em frente ao DP em ato de solidariedade. Segundo o DCE Livre, os quatro detidos já foram liberados.
O DCE Livre convoca reunião e o movimento define o que vem a seguir
A resposta organizacional do movimento estudantil foi rápida. O DCE Livre publicou nota responsabilizando diretamente o reitor Aluísio Segurado e Edmilson Dias de Freitas pela decisão de acionar a PM, classificando a ação como "profundamente repudiável" e destacando o timing simbólico — a madrugada do Dia das Mães. O texto da entidade é direto:
"Aluísio, Edmilson e o conjunto da Reitoria escolheram ignorar as reivindicações por melhores políticas de permanência de dezenas de milhares de estudantes e reprimir alunos e alunas que sustentam cotidianamente o ensino, a pesquisa e a extensão dentro da universidade, tudo isso em pleno Dia das Mães."
O DCE convocou reunião — sem horário definido até o fechamento desta edição — para deliberar sobre os próximos passos. Entre as possibilidades discutidas nos bastidores do movimento estão novas ocupações, intensificação da greve nas três universidades estaduais e articulação com entidades nacionais do movimento estudantil. O SportNavo apurou que a ausência de determinação judicial para a desocupação é um dos pontos que o DCE pretende explorar juridicamente, questionando a legalidade da operação policial.
Rael Brito de Paula resumiu a posição do grupo que saiu do saguão na madrugada, mas não pretende recuar das reivindicações: ele pediu que a reitoria seja responsabilizada e que abra a mesa de negociação com os estudantes. As barracas e cartazes ainda estavam espalhados pelo campus Butantã na manhã de domingo, sob vigilância policial — uma cena que, para quem conhece a lógica desses ciclos de pressão, raramente representa o fim de alguma coisa.









