Todo mundo sabe que a geração de ouro da Bélgica ficou para trás. O que pouca gente viu chegando é que a transição de poder dentro desse vestiário pode ter encontrado seu protagonista num ponta de 24 anos formado em Anderlecht e lapidado por Pep Guardiola em Manchester. Jérémy Doku não é uma promessa. É, segundo o próprio Kevin De Bruyne, a peça que a Bélgica precisa para competir de verdade na Copa do Mundo.

O que De Bruyne viu em Doku que os números confirmam

Há algo revelador na forma como De Bruyne fala de Doku. Não é o elogio protocolar de veterano para jovem colega. É a leitura de um jogador de 35 anos que sabe, melhor do que ninguém, o que significa depender de alguém para criar desequilíbrio numa partida de alto nível. "Jeremy Doku teve um ótimo ano no City. É impossível marcá-lo no mano a mano durante 90 minutos. Ele também se tornou mais eficiente, escolhe melhor seus momentos. Marca mais gols e dá mais assistências. Se quisermos fazer um torneio de alto nível, precisaremos de um bom Jeremy. Gosto de jogar com ele, facilita minha vida", disse o meia.

"É impossível marcá-lo no mano a mano durante 90 minutos. Ele também se tornou mais eficiente, escolhe melhor seus momentos." — Kevin De Bruyne sobre Jérémy Doku

Os números da temporada 2025/2026 sustentam o argumento. Pelo Manchester City, Doku registrou 8 gols e 11 assistências — estatísticas que colocam o atacante entre os pontas mais produtivos da Premier League neste ciclo. Não se trata apenas de velocidade, que sempre foi seu atributo mais evidente. A evolução está na leitura do jogo, na capacidade de decidir quando acelerar e quando recuar para construir, algo que Guardiola exige de todos os seus jogadores de largura.

Esse amadurecimento tático tem uma dimensão sociológica interessante: Doku é produto de um modelo de formação belga que investiu pesado em infraestrutura de base nas últimas duas décadas. O país gastou mais de 200 milhões de euros em centros de treinamento juvenis entre 2005 e 2020, segundo relatório da UEFA sobre desenvolvimento de talentos. O resultado aparece agora, quando a geração de Hazard e Kompany se retira e uma nova leva precisa assumir.

O vácuo que Hazard deixou e por que Doku não é sua cópia

Eden Hazard encerrou a carreira sem conquistar o título que a Bélgica mais esperava. A geração que chegou às semifinais da Copa de 2018 na Rússia — eliminada pela França de Mbappé — e foi eliminada na fase de grupos no Qatar em 2022 carrega o peso de ter sido a melhor do mundo no papel, sem o troféu para comprovar. Quem não tem cão caça com gato, e a Bélgica agora caça com Doku.

A comparação com Hazard, porém, precisa ser feita com cuidado analítico. Hazard era um jogador de posse, que desacelerava o jogo para criar espaços. Doku é o oposto: sua arma é a ruptura, a transição rápida, o drible em velocidade máxima. São perfis distintos que servem a filosofias táticas diferentes. O que os une é a capacidade de resolver partidas sozinhos — e essa é a qualidade que a Bélgica precisa num torneio eliminatório.

Na Copa do Qatar, em 2022, Doku tinha 20 anos e entrou em campo apenas nos minutos finais da última partida belga, quando a eliminação já era irreversível. Quatro anos depois, chega como titular esperado e referência ofensiva de uma seleção que precisa reaprender a ganhar jogos difíceis.

A estreia contra o Egito e o peso do primeiro jogo

A Bélgica estreia nesta segunda-feira, 15 de junho, às 16h (horário de Brasília), diante do Egito. O adversário não é trivial: uma equipe física, organizada defensivamente, com Mohamed Salah como referência ofensiva. De Bruyne reconheceu a dificuldade do confronto com a franqueza de quem já disputou múltiplos torneios.

O que De Bruyne viu em Doku que os números confirmam De Bruyne aponta Doku como
O que De Bruyne viu em Doku que os números confirmam De Bruyne aponta Doku como
"Os primeiros jogos de um torneio são sempre difíceis, a experiência me ensinou isso. O Egito será um adversário duro; eles são uma equipe física, então haverá poucas brechas. Mas estaremos preparados." — Kevin De Bruyne

Há uma dimensão humana no confronto que De Bruyne não escondeu: ele e Salah foram rivais por anos na Premier League, e seus filhos estudaram na mesma escola na Inglaterra. Marmoush, ex-companheiro de De Bruyne no City, também está no elenco egípcio. São relações que existem além do campo e que, de alguma forma, tornam o futebol contemporâneo um fenômeno de redes sociais e afetivas que transcende fronteiras nacionais.

Para Doku, a partida contra o Egito representa algo mais concreto: a primeira vez que ele entra em campo numa Copa do Mundo como peça central, não como coadjuvante. Com De Bruyne agora no Napoli após deixar o City em 2025 — e portanto sem a rotina diária de treinos com o ponta —, a dupla precisará reconstituir a cumplicidade dentro de campo num prazo curto. O histórico de ambos juntos, porém, é suficientemente rico para que essa adaptação seja rápida.

A partida Bélgica x Egito começa às 16h desta segunda-feira e vale acompanhar ao vivo: é nesse tipo de estreia que se descobre se Doku tem maturidade para carregar uma seleção ou se ainda depende do contexto do City para brilhar.