Falhou. O músculo cedeu nos minutos finais da temporada do Barcelona, e Lamine Yamal encerrou sua campanha de 2025/2026 mais cedo do que qualquer torcedor espanhol gostaria. A lesão no bíceps femoral da coxa esquerda — diagnosticada nas últimas semanas de competição pelo clube catalão — tirou o atacante de 18 anos dos derradeiros jogos da Liga espanhola e instalou, de imediato, um estado de alerta nos bastidores da seleção espanhola. A narrativa que circulou com força foi a de um Yamal comprometido, quase inviável para a estreia no Mundial. Luis de la Fuente tratou de desmontar essa leitura com uma declaração direta.

"Yamal chegará em plena forma para a Copa do Mundo", afirmou De la Fuente, esbanjando confiança de que a joia do Barcelona estará apta já no dia 15 de junho, quando a Espanha enfrenta Cabo Verde na abertura de sua campanha no torneio.

A lesão que o calendário não perdoou

O bíceps femoral é um dos músculos mais traiçoeiros para jogadores de alto rendimento. Situado na parte posterior da coxa, ele concentra força nos movimentos de aceleração e mudança de direção — exatamente o repertório que faz de Yamal um dos atletas mais explosivos do futebol europeu. Uma distensão nessa região, dependendo do grau, pode exigir entre três e seis semanas de recuperação. O fato de a lesão ter ocorrido no final de maio deixou a janela de tempo estreita, mas tecnicamente viável para um retorno até 15 de junho.

O próprio Yamal se apresentou à concentração da seleção espanhola já com o processo de reabilitação em estágio avançado, segundo informações divulgadas após o encontro com o grupo. A comissão técnica de De la Fuente trabalha com um protocolo individualizado, priorizando o retorno gradual às atividades com bola antes de qualquer decisão sobre sua presença no onze inicial contra Cabo Verde. A data-limite para uma avaliação definitiva deve ser fixada entre os dias 10 e 12 de junho, quando a preparação física precisará dar uma resposta concreta.

O risco real por trás da confiança de De la Fuente

A história do futebol em Copas do Mundo está repleta de episódios em que a pressa custou mais caro do que a prudência. Em 2014, o brasileiro Neymar entrou no torneio saindo de um período de desgaste físico e acabou cortado por fratura na vértebra lombar na quartas de final. O paralelo não é exato, mas o princípio é o mesmo: jogadores que chegam sem ritmo de jogo ficam mais suscetíveis a recaídas nas primeiras partidas de alta intensidade.

Yamal completará 18 anos em julho de 2026 — o que significa que seu organismo ainda está em desenvolvimento muscular pleno, fator que tanto acelera a recuperação quanto amplia o risco de reagravamento se o retorno for precipitado. A comissão médica da Federação Espanhola de Futebol tem histórico de conservadorismo nesses casos, o que sugere que De la Fuente só confirmará a escalação do jovem atacante após testes de carga muscular realizados já no campo de treinamento, em condições próximas às de jogo.

Segundo o técnico espanhol, a reabilitação está avançando dentro do cronograma previsto e não há motivo para pessimismo em relação à disponibilidade de Yamal para a estreia.

Yamal não é enfeite — e a Espanha sabe disso

Existe uma tentação fácil de enquadrar Yamal como a estrela-símbolo da Espanha, o rosto jovem que vende a narrativa da renovação geracional. Essa leitura é verdadeira, mas incompleta. Na temporada 2025/2026 pelo Barcelona, o atacante acumulou números que justificam a dependência tática: foi um dos jogadores com mais chances criadas no campeonato espanhol, com capacidade de desequilibrar pela direita e de acionar Raphinha e os meias em progressões que o esquema de De la Fuente reproduz na seleção.

A Espanha, campeã da Eurocopa de 2024 — torneio em que Yamal foi eleito melhor jovem jogador —, chegou à Copa do Mundo de 2026 como uma das candidatas mais sólidas ao título, com 16% de probabilidade apontados por modelos estatísticos como o da OPTA. Abrir mão de Yamal na estreia não seria apenas uma perda simbólica: seria desfazer o pulmão criativo do lado direito do ataque, a engrenagem que dá profundidade e imprevisibilidade a um sistema que, sem ele, tende a se tornar mais previsível pelo lado oposto.

Caso o atacante não seja liberado para o jogo de abertura, De la Fuente teria que reconfigurar o ataque com opções como Nico Williams ou Bryan Gil, nomes competentes mas que alteram substancialmente o ritmo e o padrão de jogo da equipe. A estreia contra Cabo Verde, no dia 15 de junho, é o prazo real que a Espanha tem para saber se sua principal arma ofensiva entra em campo com 18 anos e dois pulmões cheios — ou se a Copa começa com um plano B.