A última atleta brasileira dos 1500m a conquistar medalha em um Campeonato Sul-Americano adulto fez isso ainda nos anos 1990, numa era em que o atletismo de fundo nacional vivia de nomes isolados, sem estrutura de altitude nem calendário internacional consolidado. Fabiano Peçanha conhece esse histórico de cor — e foi exatamente para mudar esse cenário que construiu o ciclo de treinamento de Jaqueline Beatriz Weber, a meio-fundista de Santa Cruz do Sul que, pela quinta temporada consecutiva, foi convocada para a Seleção Brasileira de Atletismo.
Cinco convocações seguidas e a consistência que o atletismo brasileiro precisava
A confirmação chegou nesta semana: Jaqueline disputará o 52º Campeonato Sul-Americano Adulto de Atletismo, marcado para os dias 29 a 31 de maio em Guayaquil, no Equador. A prova dos 1500m está agendada para o sábado às 19h30 (horário de Brasília). Antes disso, a atleta teutoniense também defenderá o Brasil no Campeonato Íbero-Americano, em Cuiabá, entre os dias 10 e 12 de maio, competindo nos 800m e 1500m — um duplo compromisso que exige gestão fina de carga em menos de três semanas.
"Estou muito feliz. É uma honra voltar a vestir as cores do Brasil. Além disso será uma ótima oportunidade para buscar minha melhor marca, já que a prova terá um nível técnico muito bom."
A fala reflete um padrão que se repete desde que Jaqueline entrou no radar adulto: cinco convocações ininterruptas para a seleção, atravessando uma lesão no segundo semestre de 2024 e uma temporada de reconstrução que passou por pista curta em Porto Alegre, altitude na Colômbia e competições nos Estados Unidos. O registro de 2:10.46 nos 800m indoor, obtido no Sul-Americano Indoor de Cochabamba em fevereiro de 2025, já dá a dimensão do nível técnico que ela carrega para Guayaquil.
A base em altitude que moldou a temporada de Jaqueline Weber
O início do ciclo preparatório aconteceu em Paipa, na Colômbia, a 2.600 metros de altitude — o mesmo ambiente que recebeu atletas internacionais de ponta, incluindo a dominicana Marileidy Paulino, campeã e recordista olímpica dos 400m rasos. Treinar nesse contexto não é detalhe: a exposição a hipóxia por 20 dias consecutivos eleva a produção de eritropoietina natural, aumenta a capacidade de transporte de oxigênio e, no retorno ao nível do mar, gera um pico de performance que as equipes de fundo exploram em janelas de três a quatro semanas. Peçanha construiu o calendário de Jaqueline em torno exatamente dessas janelas.
"A Jaque mereceu muito essa vaga na Seleção Brasileira. Além de estar em ótima forma física, também tem tido uma dedicação incrível para atingir esse objetivo", afirmou o treinador Fabiano Peçanha.
Na avaliação do SportNavo, a sequência Íbero-Americano (Cuiabá, 10-12 maio) → Sul-Americano (Guayaquil, 29-31 maio) funciona como escada técnica: cada prova serve de estímulo competitivo para a seguinte, enquanto os tempos obtidos alimentam a tabela de índices da Confederação Brasileira de Atletismo para Pan-Americano e Mundial.
Guayaquil como trampolim para o Pan e o Mundial
O objetivo declarado da temporada vai além do pódio sul-americano. Jaqueline mira os índices necessários para o Campeonato Pan-Americano e para o Campeonato Mundial Outdoor, cuja edição de 2023 já a encontrou competindo em Riga no Road Running Championships, onde registrou 4:50 na milha de rua. A atleta, que desde os 10 anos já marcava 3:05.31 nos 1000m em Porto Alegre, construiu uma carreira de progressão lenta e sólida — o tipo de trajetória que sustenta ciclos olímpicos, não apenas flashes de resultado.
Jaqueline embarca para São Paulo ainda nesta semana, onde se junta ao restante da delegação brasileira antes do voo para o Equador. A prova dos 1500m em Guayaquil, no sábado, 31 de maio, às 19h30, é o próximo teste concreto de onde ela está — e para onde pretende chegar.








