Decidiu. Em 13 de maio de 2026, com o Athletic pressionando no Beira-Rio, Alexandro Ezequiel Bernabei foi o nome que separou o Internacional de um tropeço. A vitória colocou o clube gaúcho em marca inédita na competição — e colocou o zagueiro argentino de 25 anos no centro de uma narrativa que começou a ser escrita cinco anos atrás em Cañada de Gómez.

O número que define a temporada

Quatro assistências em 30 jogos no Brasileirão Série A não é o perfil esperado de um zagueiro de 169 cm e 65 kg. É o perfil de um jogador que entende de construção ofensiva com a mesma clareza com que lê o posicionamento defensivo.

Na temporada 2024, Bernabei já havia entregado 3 gols e 5 assistências em 23 partidas pela Série A — números que apontavam para um jogador com vocação para participar da saída de bola e dos movimentos de ataque. Em 2026, a tendência se confirma: 30 jogos disputados, 1 gol marcado e 4 assistências distribuídas, com uma regularidade que o coloca entre os defensores mais envolvidos nas jogadas do Internacional nesta temporada.

Para um zagueiro com suas características físicas — abaixo da média da posição na elite brasileira —, cada dado de produção ofensiva tem peso duplo. Prova que a leitura tática e a qualidade técnica compensam o que a régua não mede.

Como ele chegou aqui

A trajetória de Bernabei tem três capítulos bem distintos, cada um com lição própria.

O primeiro foi no Lanús, onde o atleta nascido em 24 de setembro de 2000 construiu a base profissional. Em 2021, disputou 35 partidas pela Liga Profesional Argentina — volume expressivo para um jogador que ainda não havia completado 21 anos. Naquele mesmo ano, somou cinco jogos pela CONMEBOL Sudamericana. O rendimento chamou atenção além-fronteira.

O segundo capítulo foi na Escócia, com a camisa do Celtic. A mudança para a Premiership escocesa, em 2022, trouxe ao mesmo tempo oportunidade e adaptação. Bernabei chegou a disputar a UEFA Champions League — uma vitrine continental que poucos zagueiros sul-americanos da mesma faixa etária alcançam. No entanto, as aparições foram irregulares: 15 jogos na Premiership em 2022 e apenas 8 em 2023, sem o volume que consolidaria uma posição de titular em Glasgow.

O terceiro capítulo começou no Brasil. O Inter apostou no jogador para a Série A, e a resposta veio em campo: 23 jogos em 2024, com participação direta em gols. Em 2026, a aposta virou certeza — 30 partidas disputadas e o gol decisivo contra o Athletic em maio confirmam que o zagueiro encontrou o ambiente certo para render.

Pense num músico de jazz que passou por conservatórios rigorosos na Europa mas só achou o groove quando voltou para tocar nos clubes da cidade onde cresceu. A jornada de Bernabei tem algo dessa lógica: o talento estava lá, mas o contexto precisava encaixar.

O que o faz diferente dos pares

A comparação mais imediata é física: 169 cm coloca Bernabei abaixo da média dos zagueiros titulares da Série A, onde jogadores acima de 180 cm dominam as escalações. O argumento do tamanho, porém, não resiste aos números.

A combinação de gols e assistências que Bernabei apresenta — tanto em 2024 quanto em 2026 — é incomum para a posição. A maioria dos zagueiros da elite brasileira encerra temporadas com zero ou uma contribuição ofensiva. Bernabei já soma quatro assistências nesta temporada, dado que o aproxima mais do perfil de um líbero moderno, com função ativa na saída de bola, do que do zagueiro tradicional que apenas desarma e afasta.

O histórico no Celtic também agrega valor simbólico e técnico: o jogador foi testado em contexto europeu competitivo, incluindo a fase de grupos da Champions League em 2022. Essa exposição, mesmo que em número limitado de partidas, diferencia seu currículo de defensores que nunca saíram do circuito sul-americano.

Os limites a vencer

A irregularidade no Celtic entre 2022 e 2023 — somados, 23 jogos em duas temporadas — levanta uma questão que o próprio desempenho no Inter ainda não respondeu completamente: Bernabei consegue manter o nível quando o contexto exige disputa de posição com concorrentes de alto nível?

O físico é outro ponto de atenção real. Em duelos aéreos contra centroavantes com mais de 185 cm — frequentes nas fases decisivas da Copa Sudamericana, competição que o Internacional também disputa em 2026 —, a desvantagem de estatura pode ser explorada por adversários que leram o scout com cuidado.

Há, ainda, a questão da consistência de alto rendimento em sequências longas. Com 30 jogos disputados nesta temporada, Bernabei já supera os 23 de 2024 — o que indica crescimento na minutagem e na confiança da comissão técnica. Mas o calendário brasileiro no segundo semestre é implacável, e sustentar quatro assistências e presença decisiva até dezembro exige mais do que uma boa primeira metade de temporada.

O camisa 26 do Inter tem 25 anos, passagem europeia, produção ofensiva acima da média para um zagueiro e uma sequência de jogos que o mercado já está monitorando. O que falta é a prova dos nove: uma campanha completa, com participação nos jogos de mata-mata, confirmando que o rendimento não cai quando o torneio entra na fase que não perdoa erro.

Se o Internacional avançar nas oitavas da Copa Sudamericana nas próximas semanas, você acha que Bernabei vai conseguir repetir o papel decisivo que teve contra o Athletic — desta vez contra adversários acostumados a explorar justamente as fragilidades aéreas que ele carrega?