1 vitória em 4 lutas. Em qualquer outro esporte, esse número descartaria um atleta da conversa por título. No MMA, e especialmente na trajetória de Deiveson Figueiredo, ele é exatamente o que coloca o paraense como main event do UFC Macau neste sábado, 30 de maio — e como candidato real ao cinturão dos galos.
O paradoxo tem explicação. Deiveson não perdeu para qualquer um. Nas quatro lutas que precedem o confronto com Song Yadong, o 'Deus da Guerra' esteve sempre diante de nomes que definem a elite da divisão. Quem perde para os melhores, na lógica do ranking do UFC, ainda permanece relevante — desde que continue na conversa. E Deiveson está na conversa porque nunca saiu dela.
O número que define o momento de Deiveson em Macau
Subindo do peso-mosca para os galos após conquistar o cinturão da divisão menor — feito que o coloca em grupo seleto na história da organização —, Deiveson chegou ao novo peso com o mesmo estilo que o fez campeão: pressão constante, jogo de mãos pesado e disposição para trocar golpes em qualquer distância. A transição, porém, trouxe consigo uma sequência que nenhum press release da UFC consegue disfarçar: uma vitória, três derrotas.
O que torna esse cartel ainda intrigante é a qualidade dos adversários. Lutar contra os melhores e perder tem um custo no ranking, mas preserva a credibilidade. Segundo apuração do SportNavo, a posição de Deiveson no top-10 dos galos ainda é suficiente para que uma vitória convincente — especialmente por nocaute — coloque seu nome diretamente na mesa de negociações por um title shot. A divisão, aliás, vive momento de transição com o cinturão em disputa, o que torna a janela de oportunidade real.
Song Yadong, o adversário desta noite, não é um nome fácil de escalar para dar impulso a alguém. O chinês de 26 anos acumula vitórias sobre lutadores de peso no top-15, tem poder de finalização e está lutando em casa — em Macau, diante de uma torcida que conhece seu nome. Para Deiveson, vencer ali seria o equivalente ao que, para um time argentino, é ganhar um Superclásico fora de casa: o que para o argentino é apenas sobrevivência, para o europeu seria façanha histórica. Vencer Song Yadong, em Macau, com a torcida contra, não seria só uma vitória — seria um argumento.
O que Song Yadong representa como obstáculo e como trampolim
Aos 26 anos, Song Yadong acumulou experiência UFC que poucos atletas de sua geração podem apresentar. Lutou contra Rob Font, Marlon Vera e Cory Sandhagen — nomes que definem o topo da divisão dos galos. Perdeu para Sandhagen por decisão unânime em 2023, mas venceu Font por nocaute técnico no mesmo ano, o que demonstra capacidade de impor seu ritmo quando está em noite de acerto. Sua base é o kickboxing, com transições para o wrestling que tendem a confundir adversários que dependem exclusivamente do trocação.
Para Deiveson, isso significa que a estratégia não pode ser simplesmente 'ir para a guerra'. O paraense precisará gerenciar distância, usar seu jiu-jítsu — ele tem 11 finalizações no cartel profissional — e, ao mesmo tempo, manter a pressão que é sua marca registrada. A receita é conhecida. A execução é o que está em xeque.
"O Song é um cara de nome. Ele já enfrentou os melhores da categoria, assim como eu, e pode me levar a uma defesa de cinturão se eu vencer bem, nocauteando", disse Deiveson em entrevista à Ag. Fight.
A declaração revela a consciência do lutador sobre o que o UFC quer ver: não apenas uma vitória, mas uma vitória que venda a narrativa do retorno. Um nocaute sobre Song Yadong, em solo chinês, seria o tipo de resultado que os produtores da organização colocam no reel de promoção de um card pelo título.
O sonho do segundo cinturão e o que uma vitória projeta
Deiveson Figueiredo foi campeão peso-mosca pelo UFC três vezes entre 2020 e 2022, em uma das sequências mais movimentadas da história da divisão — incluindo dois empates técnicos e uma trilogia completa com Brandon Moreno. Aposentar-se como duplo campeão seria entrar para a história ao lado de nomes como Conor McGregor, Daniel Cormier e Amanda Nunes.
"Esse é o meu sonho, o de lutar pelo cinturão para que eu possa me aposentar como duplo campeão", afirmou o lutador.
O próprio Deiveson é direto sobre o que espera entregar neste sábado:
"Eu quero entrar ali (no octógono) para mostrar o meu 'verdadeiro eu'. Aquele lutador que entra para dar show e brigar. Com isso, eu espero poder nocautear o chinês e conquistar essa oportunidade de lutar pelo cinturão."
As odds de apostas colocam Song Yadong como leve favorito — o que, de certa forma, aumenta o valor simbólico de uma vitória de Deiveson. Um azarão que vence fora de casa, por nocaute, após sequência negativa, é exatamente o tipo de história que o UFC sabe monetizar em uma disputa de cinturão.
É o mesmo cenário que Robbie Lawler viveu em 2014, quando chegou ao title shot contra Johny Hendricks carregando uma sequência irregular — só que agora a aposta é diferente: Deiveson tem 36 anos, um cartel de ex-campeão mundial e a consciência de que as janelas não ficam abertas para sempre. O UFC Macau começa neste sábado, com o co-main event previsto para as 8h (horário de Brasília) e o main event de Deiveson programado para depois da meia-noite.












