Todo mundo sabe que Deiveson Figueiredo foi bicampeão peso-mosca do UFC e nocauteou adversários com uma das mãos mais pesadas da divisão. Como ele chegou ao UFC Macau carregando um cartel de 1 vitória nos últimos 4 combates, com 38 anos e a pressão de uma luta principal na China, é a parte que precisa ser dissecada com cuidado.
O peso de um cartel que cobrou juros
Figueiredo acumula 23 vitórias em 30 lutas no cartel profissional, com um finish rate de aproximadamente 78% — número que justificou dois reinados no peso-mosca e o colocou entre os lutadores mais perigosos da história da divisão. O problema está na janela recente: nas últimas quatro aparições, o paraense saiu do octógono com apenas uma mão levantada. Esse ciclo de derrotas e resultados adversos corroeu a posição no ranking e, mais do que isso, abriu uma dúvida real sobre o nível físico de um atleta que já ultrapassou os 35 anos — faixa etária em que o MMA começa a cobrar o preço de cada nocaute recebido, de cada camp exaustivo.
A mudança de divisão para o peso-galo foi a aposta do brasileiro para reiniciar a trajetória. No novo peso, porém, os adversários chegam com striking differential positivo, base de wrestling mais sólida e, no caso de Song Yadong, uma combinação de velocidade de mãos e pressão constante que torna o clinch um território arriscado para quem não controla bem a distância.
Song Yadong e o mapa de perigos que Figueiredo precisa navegar
O chinês Song Yadong, atleta da casa no UFC Macau, chega com um histórico que mistura poder de finalização e volume de striking acima da média do peso-galo. Sua takedown accuracy gira em torno de 45%, o que o torna uma ameaça real no clinch e na transição para o ground and pound — exatamente o território onde Figueiredo já demonstrou vulnerabilidade nos últimos combates, especialmente quando pressionado contra a grade por adversários com maior envergadura.
O comentarista e ex-lutador Alan Jouban, do canal oficial do UFC, avaliou o confronto com otimismo cauteloso para o brasileiro. Nas palavras do americano, a luta é perfeitamente vencível para Figueiredo — desde que o paraense consiga impor seu jogo de distância e não deixe a decisão para os juízes.
"É uma luta vencível para o Deiveson, mas ele precisa ser o lutador que decide o ritmo desde o primeiro round. Se deixar Song Yadong ditar o pace, a noite fica longa", disse um analista de MMA com passagem pelo circuito asiático, avaliando o confronto para o SportNavo.
O ponto crítico está no sprawl de Figueiredo. Nos últimos combates, o brasileiro mostrou lentidão na resposta defensiva às quedas, o que se traduz em rounds perdidos no chão e desgaste desnecessário. Contra Song Yadong, qualquer falha no sprawl pode resultar em posição de montada e ground and pound suficiente para mudar o placar dos juízes — ou encerrar a luta antes do sino.
O que Figueiredo precisa executar para voltar ao ranking
A chave técnica para uma vitória do paraense passa por três pilares bem definidos. Primeiro, o controle de distância com o jab de alavanca — Figueiredo tem um left hook de potência devastadora, mas ele só funciona quando o adversário é forçado a entrar em linha reta. Manter Song Yadong na distância média, fora do alcance do clinch, é o pré-requisito para o golpe funcionar.
Segundo, o trabalho de pernas nos primeiros dois rounds. Aos 38 anos, o cardio de Figueiredo não é mais o mesmo de 2020, quando ele finalizou Joseph Benavidez em menos de dois minutos com um rear naked choke no segundo round para conquistar o cinturão. Desperdiçar energia nos rounds iniciais perseguindo o knockout pode custar caro no terceiro, quando Song Yadong costuma aumentar o volume de striking e buscar as quedas com maior insistência.
Terceiro, e mais importante: evitar o combate de trocação em distância curta. Song Yadong tem velocidade de combinações superior à média da divisão e usa o uppercut como golpe de setup para o clinch — padrão que aparece em pelo menos 60% de suas vitórias por nocaute técnico. Figueiredo precisa sair lateralmente após cada troca, nunca recuar em linha reta para a grade.
Se o paraense conseguir conectar dois ou três left hooks limpos nos primeiros rounds e manter o sprawl funcional, a luta pode ser encerrada antes da decisão — e uma vitória por nocaute ou finalização em Macau seria o reset que sua carreira precisa para retornar ao top 5 do peso-galo. Uma derrota, por outro lado, colocaria o futuro no UFC sob pressão real.
É o mesmo cenário que Cub Swanson viveu em 2017, quando chegou a uma luta principal no exterior com cartel negativo recente e precisava de uma performance dominante para provar que ainda era relevante no ranking — só que agora a aposta de Figueiredo é maior: o UFC Macau acontece no sábado, 30 de maio, e uma vitória convincente pode abrir caminho para um combate eliminatório pelo cinturão ainda em 2026.








