Um atacante que passou pelo Porto campeão português, pelo futebol cipriota e pela Série B brasileira chega ao Vila Nova com a camisa 49 — e isso, por si só, já diz algo sobre como o futebol reorganiza hierarquias.
A assinatura técnica que o identifica
Dellatorre — nome completo Guilherme Augusto Alves Dellatorre — é um atacante de 186 cm e 76 kg que nunca se enquadrou no perfil do centroavante puro de área. Nascido em 1º de maio de 1992, em São José do Rio Preto, ele construiu sua identidade como jogador de ligação: recebe de costas, distribui, e aparece em posições de apoio tanto quanto de finalização.
Na temporada atual do Brasileirão Série A, esse perfil se traduz em 34 jogos com 1 gol e 3 assistências — números que, isolados, subestimam a função que ele cumpre dentro da estrutura do Vila Nova. Em 2026, com 34 anos completados em maio, Dellatorre é o tipo de peça que os treinadores escalam pelo que organiza, não apenas pelo que marca.
Como ele aprendeu a fazer aquilo
A formação de Dellatorre passou pelo Internacional, onde a base técnica encontrou estrutura profissional. Em 2011, ainda na fase de transição para o futebol adulto, ele conquistou o Campeonato Gaúcho Sub-20 e o Campeonato Gaúcho principal — dois títulos no mesmo ano, em categorias diferentes. Também em 2011, veio a Recopa Sul-Americana com o clube gaúcho, e em 2012 repetiu o título estadual.
A sequência de conquistas em Porto Alegre abriu a janela para a Europa. No Porto, em 2013, Dellatorre foi campeão da Primeira Liga portuguesa na temporada 2012–13 e levantou a Super Taça de Portugal no mesmo ano. Seria injusto chamar de era — mas é uma era em escala doméstica: dois troféus europeus em um único calendário, aos 20 anos.
Como ele aprimorou ao longo dos anos
Depois da passagem pelo futebol português, Dellatorre percorreu um caminho menos linear. O Apoel, no Chipre, foi o capítulo que mais rendeu títulos na fase intermediária da carreira: dois campeonatos cipriotas, em 2018 e 2019. A experiência no futebol mediterrâneo — defensivamente organizado, fisicamente intenso — moldou a capacidade de Dellatorre de atuar em sistemas mais compactos.
De volta ao Brasil, ele passou pelo CSA, onde conquistou o Campeonato Alagoano de 2021. O período nordestino foi seguido por uma passagem que encerrou o ciclo da Série B: pelo Coritiba, Dellatorre foi campeão do Campeonato Brasileiro Série B de 2025, subindo com o clube paranaense para a elite. A chegada ao Vila Nova, portanto, não é recomeço — é continuidade de um atacante que já sabe exatamente o que o futebol brasileiro exige em cada divisão.
Como aplica em jogos diferentes
Na Série A de 2026, o contexto é outro. O Vila Nova disputa a elite nacional, e Dellatorre opera como referência ofensiva em um elenco que ainda constrói identidade na divisão. Com 34 partidas disputadas, ele é um dos jogadores com mais minutos de presença no setor ofensivo do clube nesta temporada.
A combinação de 1 gol e 3 assistências em 34 jogos coloca Dellatorre em uma faixa de contribuição modesta em termos absolutos, mas coerente com a função de um atacante de apoio que não é o referencial de área. Para comparação, centroavantes titulares com mais de 30 anos na Série A 2026 que acumulam entre 8 e 12 participações diretas em gol são considerados acima da média para o padrão da liga — Dellatorre está abaixo desse patamar, o que reforça que seu valor está mais na construção do jogo do que na finalização.
A camisa 49 — número que, no futebol brasileiro, costuma indicar atleta fora do grupo principal de numeração — não define o peso que o jogador tem dentro do vestiário. Com passagens por Internacional, Porto, Apoel e Coritiba, Dellatorre carrega um currículo que poucos atacantes da Série A 2026 conseguem apresentar: títulos em quatro países diferentes ao longo de uma carreira que já ultrapassa uma década no profissional.

A próxima rodada do Brasileirão é um bom momento para observar como ele se movimenta fora da área — vale acompanhar os deslocamentos em profundidade e a participação nas transições ofensivas do Vila Nova, que revelam mais sobre Dellatorre do que qualquer linha de estatística isolada.










