Sexta-feira, 27 de junho de 2026. Em Boston, Ousmane Dembélé precisou de menos de 45 minutos para fazer o que nenhum jogador francês havia conseguido numa Copa do Mundo desde Thierry Henry em 2003 — um hat-trick com a camisa dos Bleus num torneio de alto nível. A vitória por 4 a 1 sobre a Noruega fechou a fase de grupos da Copa do Mundo com a França em primeiro do Grupo I, 7 pontos, 100% de aproveitamento — algo que os franceses só haviam feito uma vez antes: em 1998, quando levantaram a taça no Stade de France.
O hat-trick que ninguém apostou e todo mundo vai lembrar
Apenas 576 cartoleiros escalaram Dembélé para a rodada. Somente 79 o colocaram como capitão. Os números dizem tudo sobre o nível de confiança que o mercado depositava nele antes do apito inicial — e explicam o choque que se seguiu. Os três gols saíram todos no primeiro tempo, todos pela direita do ataque, todos com a frieza de quem está em estado de graça absoluto. O atual vencedor da Bola de Ouro chegou a 4 gols em três jogos, empatando com Kylian Mbappé, Vinícius Júnior e Erling Haaland na artilharia do torneio. À frente deles, apenas Lionel Messi, com 5.
Para contextualizar o que Dembélé está fazendo, é necessário recuar até os anos 90. Ronaldo Fenômeno em 1998 terminou a fase de grupos com 4 gols e foi artilheiro do torneio com 8. Ronaldo Nazário em 2002, idem. A trajetória de um artilheiro de Copa costuma se definir exatamente nesse momento — quando a fase de grupos termina e o jogador já acumulou uma base sólida de gols antes do mata-mata endurecer. Dembélé está no ritmo certo.
Mbappé, por sua vez, saiu zerado do jogo contra a Noruega apesar de ter sido o jogador com mais chutes a gol da partida — quatro tentativas, nenhum resultado. O camisa 10 carrega 16 gols em Copas do Mundo ao longo da carreira, empatado com Miroslav Klose e na cola de Messi, que lidera o ranking histórico com 18. A batalha interna entre os dois atacantes franceses acrescenta uma camada de tensão fascinante ao grupo — e torna a seleção ainda mais imprevisível para os adversários.
"Ele foi escalado por pouco mais de 500 cartoleiros e terminou como o maior pontuador da rodada", registrou o portal Ge ao detalhar a atuação de Dembélé, que acumulou 23,90 pontos no fantasy game oficial da Copa.
O chaveamento favorável e o caminho que a França escolheu
Terminar em primeiro do grupo não é apenas questão de orgulho estatístico. O chaveamento concreto que a França obteve ao garantir a liderança do Grupo I é um dos mais confortáveis entre os favoritos ao título. Na próxima fase, os Bleus enfrentam a Suécia — classificada como uma das melhores terceiras colocadas — numa terça-feira, dia 30, no estádio de Nova Jersey e Nova York.
Quem acompanhou o futebol europeu nas décadas de 80 e 90 sabe que o chaveamento pode ser tão determinante quanto o elenco. A Alemanha de 1990 e a França de 1998 não chegaram à final apenas por qualidade técnica — chegaram porque souberam navegar pelo lado mais acessível da chave nas fases eliminatórias iniciais. A equipe de Didier Deschamps, ao evitar Espanha, Brasil e Argentina até uma eventual semifinal, ganha rodadas de preparação que seus rivais diretos não terão.
No mesmo Grupo J, o drama da última rodada produziu um dos cenários mais curiosos do torneio. Argélia e Áustria se enfrentaram no estádio Arrowhead, em Kansas City, sabendo que um empate classificaria as duas. O jogo começou com movimentação cautelosa, quase ensaiada — mas os ânimos mudaram após a parada para hidratação. A Áustria abriu o placar aos 27 minutos com Arnautovic, numa jogada em que Alaba lançou direto da defesa e o camisa 7 dominou dentro da área e tirou do goleiro Benbot. A Argélia reagiu, e o placar ficou em 2 a 2 até os acréscimos.
"Aos 51 minutos do segundo tempo, Sasa Kalajdzic marcou para a Áustria, decretou o empate e fez os torcedores argelinos comemorarem um gol contra a própria seleção", descreveu o portal Ge ao narrar o momento que viralizou nas redes sociais.
Riyad Mahrez havia colocado a Argélia em vantagem com um gol nos acréscimos, deixando os argelinos provisoriamente na segunda posição do grupo — o que os colocaria no caminho da Espanha. O gol de Kalajdzic que decretou o 3 a 3 final foi comemorado nas ruas de Argel como se fosse uma classificação à semifinal. A lógica é simples: ao terminar em terceiro, a Argélia enfrenta a Suíça, líder do Grupo B, e pode cruzar com Colômbia ou Gana se avançar. A Áustria, segunda colocada, vai encarar a Espanha já nas oitavas — um caminho consideravelmente mais árduo.
Dembélé como centro de gravidade do ataque francês
Há uma diferença técnica fundamental entre o Dembélé que chegou ao Barcelona em 2017 por 135 milhões de euros — cheio de promessas e contusões — e o atacante que hoje veste a camisa do Paris Saint-Germain e carrega a Bola de Ouro no currículo. O jogador de 2017 era explosão pura, velocidade sem direção. O de 2026 combina a mesma potência com tomada de decisão refinada, especialmente dentro da área. Os três gols contra a Noruega saíram todos pela direita, mas com variações de finalização que demonstram maturidade técnica real.
Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta Copa, a França é a única seleção com dois jogadores entre os cinco maiores artilheiros do torneio — Dembélé e Mbappé, ambos com 4 gols. Nenhuma outra equipe entre as favoritas ao título apresenta esse nível de redundância ofensiva. A Espanha tem Yamal como referência criativa, mas não um par de artilheiros com esse volume. O Brasil depende de Vinícius Júnior de forma mais concentrada. A Argentina tem Messi como ponta de lança, mas com 37 anos e um ritmo de jogo que inevitavelmente será gerenciado nas fases finais.
A comparação histórica que se impõe é com a França de 2000 — campeã europeia um ano depois do título mundial de 1998 — quando Zidane, Henry e Trezeguet formavam um tridente de qualidade que simplesmente não tinha equivalente no futebol mundial. Aquela geração terminou o ciclo em 2006, na final contra a Itália. Esta geração de Mbappé e Dembélé ainda está no meio do ciclo, e Boston mostrou que o pico pode estar chegando agora.
A França joga na terça-feira, dia 30, contra a Suécia, no estádio de Nova Jersey e Nova York, às 18h (horário de Brasília). Se Dembélé marcar mais um gol nesse jogo, assumirá sozinho a artilharia da Copa — e a pergunta sobre favorito ao título terá uma resposta cada vez menos polêmica.










