Falhou. E falhou de um jeito que os dados deixam difícil de ignorar: o Uruguai terminou o Grupo H com zero vitórias, dois empates contra Arábia Saudita e Cabo Verde, e uma derrota para a Espanha. Nenhum gol marcado em dois dos três jogos. Fora da Copa antes de qualquer fase eliminatória.

Quem colocou o dedo na ferida foi Denílson, comentarista do SporTV e pentacampeão mundial com o Brasil. Durante a programação ao vivo, ele não usou meias palavras:

"O Marcelo Bielsa é o grande responsável. 90% foi ele. A construção do ambiente é extremamente importante para o resultado em campo."

E foi além:

"Se o Bielsa reclama tanto que não consegue mais tirar o melhor dos próprios jogadores, tem que parar. Porque se uma pessoa não se vê mais qualificada para uma função, se para. Para mim, o grande vexame da Copa do Mundo é o Uruguai, e o grande responsável é o Bielsa."

A declaração repercutiu imediatamente. Mas o que os números do campo mostram para além da opinião de Denílson?

O vestiário que Bielsa não conseguiu segurar

Reparemos no detalhe que separa uma crise técnica de uma crise de grupo: quando um time joga com medo de errar, a estrutura de passes colapsa antes de qualquer definição ofensiva. O Uruguai apresentou exatamente esse sintoma nos três jogos da fase de grupos.

Nos dados disponíveis das partidas, a Celeste registrou um PPDA (passes permitidos por ação defensiva) acima de 12 contra Espanha — o que significa que a equipe praticamente não pressionou o adversário com bola, deixando os espanhóis circularem livremente. Para efeito de comparação, times que pressionam bem costumam manter esse índice abaixo de 8. Quanto menor o número, mais intensa a pressão.

Os relatos de desentendimentos internos no elenco uruguaio não surgiram do nada. Houve tensão entre o estafe de Bielsa e jogadores titulares ao longo da preparação, com reclamações sobre metodologia de treino e comunicação truncada. Esse tipo de ruído interno tem efeito direto nas defensive actions — que medem a quantidade de interceptações, desarmes e pressões por 90 minutos. Um time com ambiente conturbado tende a desorganizar a linha de pressão coletiva, porque cada jogador começa a tomar decisões individuais em vez de agir em bloco.

Bielsa é reconhecido mundialmente por exigir altíssimo volume de ações defensivas dos seus times — o Leeds United de 2020/2021, por exemplo, liderou a Premier League em pressing com PPDA de 7.3. No Uruguai da Copa, esse modelo não se sustentou. A diferença entre o Bielsa da Inglaterra e o Bielsa do Uruguai não foi tática — foi humana.

O que o campo mostrou que os bastidores já sabiam

Olhando para os xG (expected goals) do Uruguai na fase de grupos, o cenário é revelador. O xG acumulado nos três jogos ficou abaixo de 2.5 — ou seja, mesmo considerando a qualidade das chances criadas, a equipe não gerou volume ofensivo suficiente para competir com as três seleções do grupo. Para uma seleção com Federico Valverde no elenco, um dos melhores meias do mundo em progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário), esse número é desconcertante.

Valverde, que no Real Madrid registra em média 7 a 9 progressive passes por 90 minutos, apareceu apagado nos três jogos. Isso não é coincidência — é sintoma de um sistema que não criou as condições para que seus melhores jogadores funcionassem. Quando o ambiente de vestiário está comprometido, os jogadores de maior qualidade técnica são os primeiros a perder liberdade criativa, porque sentem o peso da desconfiança coletiva.

A comparação com a Argentina de Scaloni é inevitável. Em 2021, a Albiceleste também passou por turbulências internas antes da Copa América — mas Scaloni construiu um ambiente de confiança explícita com o grupo, e o resultado foi uma seleção que chegou à Copa do Mundo de 2022 como campeã continental e manteve coesão tática ao longo de todo o torneio. O xG médio da Argentina naquele Mundial foi de 1.8 por jogo, com conversão eficiente. Ambiente e dado andam juntos.

O legado Bielsa no Uruguai e a decisão que a AUF precisa tomar

A eliminação na fase de grupos coloca a Asociación Uruguaya de Fútbol diante de uma decisão inevitável. Bielsa assumiu o cargo em 2023 com a missão de modernizar o futebol uruguaio após a era Tabárez — que durou 15 anos e chegou a uma semifinal de Copa do Mundo em 2010. O projeto era de reconstrução geracional, mas o resultado em campo na Copa de 2026 foi o pior em décadas para a Celeste.

O histórico de Bielsa em seleções é marcado por esse padrão: brilho técnico e colapso relacional. Na Argentina, saiu antes da Copa de 2002 em meio a desgastes com a federação. No Chile, construiu uma das seleções mais modernas do mundo — com pressing alto e pass network bem definida — mas não chegou a disputar uma Copa com o grupo que formou. No Athletic Bilbao e no Leeds, funcionou enquanto havia energia e crença coletiva. Quando o grupo rachava, o sistema desmoronava como um temporal que chega sem trovão: sem aviso, mas com destruição total.

O Uruguai terminou a Copa com um aproveitamento de 33% — dois pontos em três jogos — e com a pior campanha da história recente do país em Mundiais. A AUF deve se reunir nas próximas semanas para definir o futuro do comando técnico. Com a próxima Copa do Mundo já em 2030, co-organizada por Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai — o que garante vaga automática à Celeste —, a decisão sobre continuidade ou ruptura com Bielsa vai moldar os próximos quatro anos do futebol uruguaio.