"Nordestino só tem medo de cara feia quando a pessoa tem fome. Fora isso, se é para brigar, a gente briga o tempo todo." A frase foi de Evandro Carvalho, presidente da Federação Pernambucana de Futebol, proferida nesta terça-feira, 14 de julho de 2026, na sede da CBF, na Barra da Tijuca. Ela sintetiza com precisão cirúrgica o estado de espírito dos aliados de Samir Xaud: uma postura de trincheira, não de transparência.

A reunião que a CBF convocou mas não queria explicar

Oficialmente, o encontro desta terça-feira reuniu vice-presidentes e presidentes de federações estaduais para discutir "avanços estruturais do primeiro semestre" e o planejamento para os ciclos das Copas de 2027 e 2030. Nenhum comunicado oficial da CBF mencionou as denúncias que levaram ao convite. Mas a pauta real era outra: estancar a hemorragia de credibilidade que a entidade sofre desde que o Brasil foi eliminado pela Noruega na fase de grupos, campanha que igualou o pior resultado brasileiro em 60 anos de Copa do Mundo.

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Documentos revelados pelo Lance! mostram que viagens da irmã de Xaud, de uma influenciadora e de uma empresária foram faturadas via gabinete da presidência e de federações estaduais, usando a agência oficial da CBF como intermediária. A gravidade do achado não está apenas no valor — ainda não divulgado com precisão — mas no mecanismo: o uso da estrutura administrativa de uma entidade pública do esporte para custear deslocamentos de caráter pessoal.

Quem acompanha a história da CBF sabe que escândalos financeiros não são novidade no endereço da Rua Victor Civita. Em 2015, a operação da FIFA que derrubou dirigentes de todo o continente americano atingiu diretamente a entidade brasileira. Em 2020, o então presidente Rogério Caboclo foi afastado preventivamente após denúncias de assédio sexual. Cada crise gerou uma promessa de refundação. Cada promessa gerou uma eleição. Cada eleição gerou novos acordos de poder.

A versão dos aliados e o que ela omite

Leomar Quintanilha, presidente da Federação do Tocantins e chefe da delegação brasileira na Copa, foi categórico ao defender a gestão técnica da entidade durante o torneio.

"A CBF foi muito técnica. Escolheu um hotel confortável e isolado, que permitiu a convivência entre os atletas. Eles foram se conhecendo e não tivemos repercussão nenhuma. Não é hora de caçar bruxas. A hora agora é de melhorar o trabalho", afirmou Quintanilha.

A defesa é legítima no aspecto logístico. Mas ela ignora deliberadamente a separação entre a qualidade operacional de uma delegação e a lisura financeira de quem a chefia. Um hotel bem escolhido não apaga um extrato bancário. A gestão do dia a dia de uma Copa pode ter sido competente; a gestão do gabinete presidencial é outra linha de balanço.

Evandro Carvalho foi ainda mais direto ao declarar que Xaud "é o homem" e que as federações "continuam unidas". Mas unidade, neste contexto, tem um significado histórico preciso: no modelo de governança da CBF, os presidentes de federações estaduais compõem o colégio eleitoral que define quem ocupa a presidência. Defender Xaud hoje é, também, defender a própria posição amanhã.

Seleção Brasileira
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Calculado.

O que a crise de Xaud revela sobre a eleição de 2027

A eleição para a presidência da CBF está prevista para 2027. Com a Copa do Mundo Feminina no horizonte imediato e o ciclo masculino para 2030 em fase de planejamento, quem controlar a entidade nos próximos dois anos terá nas mãos contratos bilionários de patrocínio, direitos de transmissão e a escolha do treinador da Seleção principal. O que está em disputa, portanto, não é apenas a sobrevivência política de Samir Xaud — é o modelo de gestão que o Brasil vai levar para a próxima década do futebol.

A crise atual possui pelo menos três frentes simultâneas. A primeira é a das denúncias financeiras, que aguardam desdobramento jurídico e jornalístico. A segunda é a disputa pelos direitos de transmissão da Copa do Brasil, em que a CBF excluiu a Cazé TV — controlada pela Livemode — do processo, enquanto a liga Futebol Forte União (FFU), parceira da mesma Livemode, enfrenta ataques judiciais de clubes de menor expressão, como o CSA, que acionou o Cade contra a Sports Media Entertainment (SME). A terceira frente é a mais silenciosa e, historicamente, a mais decisiva: a fidelidade dos presidentes de federação, que se move por interesse, não por princípio.

Para ter parâmetro histórico, basta lembrar que Ricardo Teixeira presidiu a CBF por 23 anos — de 1989 a 2012 — atravessando escândalos, CPIs e investigações internacionais sem perder o cargo. José Maria Marin ficou apenas dois anos, de 2012 a 2014, e foi preso nos Estados Unidos em 2015. Marco Polo Del Nero renunciou em 2017 sob indiciamento da FIFA. Em nenhum desses casos a queda veio de dentro do colégio eleitoral — veio de fora, por pressão judicial ou internacional. Essa memória institucional pesa sobre qualquer análise do momento atual.

Analisando em matéria do SportNavo publicada ao longo desta semana, o padrão se repete: a CBF reage a crises com reuniões de coesão, não com auditorias independentes. A reunião desta terça-feira segue o roteiro com fidelidade quase didática.

As denúncias sobre os gastos do gabinete de Xaud precisam de uma resposta documental, não retórica. A CBF tem prazo para apresentar sua prestação de contas ao Ministério do Esporte e à FIFA, e qualquer irregularidade confirmada nos registros da agência oficial pode ter consequências que ultrapassam o âmbito político interno. Se os documentos revelados pelo Lance! forem corroborados por auditoria formal, o cenário para 2027 muda radicalmente — não apenas para Xaud, mas para o modelo de alianças que sustenta qualquer candidatura à presidência da entidade.

Uma sinfonia mal ensaiada pode ser salva por um regente competente. Mas quando o problema está na partitura — adulterada antes de o concerto começar —, trocar o maestro não resolve a dissonância.