A última vez que alguém venceu uma Copa do Mundo como jogador e depois como treinador foi Franz Beckenbauer, em 1974 e 1990. Didier Deschamps igualou esse feito em 2018 — e agora, após a Copa do Mundo de 2026, pode protagonizar outro capítulo incomum: assumir a seleção do país onde construiu boa parte da sua identidade no futebol.

A França vai passar o bastão — e Deschamps já sabe disso

Deschamps está no comando da França desde 2012. São 14 anos, 176 jogos, 114 vitórias, 35 empates e 27 derrotas. Nenhum técnico ficou tanto tempo à frente dos Les Bleus. O ciclo se encerra após o Mundial, com Zinedine Zidane aguardando nos bastidores como sucessor natural. O próprio Deschamps não fugiu do assunto.

Real Madrid - Oviedo
"Não descarto nada. Todos sabem que estarei disponível após a Copa do Mundo. Tenho o privilégio de poder escolher", afirmou o treinador ao anunciar sua convocação para o torneio.

Escolher. A palavra não é casual. Com o currículo que tem — campeão mundial em 2018, vice em 2022, finalista da Eurocopa em 2016 e vencedor da Nations League em 2021 —, Deschamps pode ditar as condições de qualquer negociação.

A Itália não vai a uma Copa desde 2014 — e precisa de alguém que entenda o peso disso

Três Copas do Mundo consecutivas sem a Azzurra. Não há tragédia: há contabilidade. A Itália ficou fora em 2018, em 2022 e agora em 2026 — a seleção que foi tetracampeã mundial em 2006 vive o maior apagão da sua história recente. O La Gazzetta Dello Sport aponta Deschamps como um dos nomes favoritos para assumir o cargo após o Mundial.

A lógica faz sentido quando você olha além do currículo técnico. Métricas modernas como PPDA (passes permitidos por ação defensiva) e progressive passes (passes que avançam ao menos 10 metros em direção ao gol adversário) mostram que seleções bem organizadas taticamente — como a França de Deschamps — conseguem controlar a intensidade do jogo sem depender de um único sistema fixo. A Itália, que historicamente valoriza organização defensiva e transições, se encaixa bem nesse perfil de gestão.

Deschamps e a Itália têm uma história que o currículo não conta inteiro

Em 1994, Deschamps deixou o Olympique de Marselha e assinou com a Juventus. Ficou cinco temporadas em Turim, conquistando uma Champions League, três títulos do Campeonato Italiano, uma Copa da Itália, uma Copa Intercontinental e uma Supercopa da UEFA. Não era capitão oficial, mas era liderança dentro de campo.

Decidiu.

Foi na Itália também que ele deu os primeiros passos como treinador, e o vínculo nunca se desfez — até hoje busca peças para a França no futebol italiano e fala o idioma com naturalidade. O La Gazzetta destacou ainda que há um França x Itália programado para outubro, pela Nations League, o que torna a especulação ainda mais picante: Deschamps poderia observar de perto o material humano disponível antes de qualquer decisão formal.

O que os números dizem sobre o que a Itália precisa

Analisando as últimas campanhas da Azzurra, o problema não é só de xG (gols esperados) — é de construção ofensiva. A seleção italiana tem apresentado baixíssimo volume de xA (assistências esperadas), reflexo direto de poucos progressive passes chegando à área adversária. Uma gestão tática que priorize a criação de espaços em transição, como Deschamps fez com Mbappé e Griezmann na França, poderia mudar o perfil ofensivo da Itália sem sacrificar a solidez defensiva que é marca registrada do futebol azzurro.

"A experiência italiana foi fundamental para Deschamps, que segue de perto o futebol do país até hoje", escreveu o La Gazzetta Dello Sport ao traçar o perfil do técnico como candidato.

O primeiro teste real dessa possível parceria pode acontecer já em outubro de 2026, quando França e Itália se enfrentam pela Nations League — com Deschamps ainda no banco francês e a Azzurra já de olho no que vem depois.