Não, a França não perdeu qualidade com essa convocação — ela trocou de geração. Quando Didier Deschamps anunciou nesta quinta-feira, 14 de maio, os 26 nomes que defenderão as cores azul, branco e vermelho na Copa do Mundo, o primeiro impulso foi catalogar as ausências como perdas. Griezmann fora. Camavinga fora. Kolo Muani fora. Mas a leitura mais precisa aponta para outra direção: Deschamps não está enfraquecendo a seleção, está reescrevendo o roteiro dela.

O peso das ausências que já eram esperadas — e a que pegou todo mundo de surpresa

Antoine Griezmann, aos 35 anos, liderou o Atlético de Madri até a semifinal da Champions League 2025/2026, onde os espanhóis foram eliminados pelo Arsenal. Sua ausência era previsível, assim como as de Karim Benzema, Olivier Giroud e Hugo Lloris — nomes que escreveram capítulos inteiros da história recente da équipe tricolore, mas que pertencem, agora, ao museu afetivo do torcedor francês.

A que pegou de surpresa foi Eduardo Camavinga. O meio-campista do Real Madrid, aos 22 anos, estava no auge da janela para ser titular absoluto de uma Copa do Mundo. Deschamps preferiu o quarteto formado por N'Golo Kanté (Fenerbahçe), Manu Koné (Roma), Adrien Rabiot (Milan), Aurélien Tchouaméni (Real Madrid) e Warren Zaïre-Emery (PSG) — cinco nomes para quatro vagas, o que já diz muito sobre a abundância francesa no setor.

Há também a ausência de Hugo Ekitiké, atacante do Liverpool que sofreu ruptura no tendão de Aquiles em abril e ficou fora do Mundial. Uma perda involuntária, mas não menos dolorosa para o planejamento francês.

Kolo Muani e a sombra que a Argentina projetou sobre ele

Existe uma cena que os torcedores argentinos guardam como relíquia e os franceses preferem esquecer. Na prorrogação da final de 2022, no Qatar, Randal Kolo Muani ficou cara a cara com Emiliano Martínez e parou na defesa que se tornaria lendária — o lance que, segundo muitos analistas, entregou o título à Argentina de Messi. Deschamps optou por não reabrir essa ferida: no lugar de Kolo Muani, o convocado é Jean-Philippe Mateta, destaque do Crystal Palace nesta temporada.

O peso das ausências que já eram esperadas — e a que pegou todo mundo de surpres
O peso das ausências que já eram esperadas — e a que pegou todo mundo de surpres
"Nunca há pressão, há uma expectativa e uma exigência", afirmou Deschamps ao ser questionado sobre o peso da competição. "A França está entre as favoritas, obviamente, mas eu poderia citar seis ou sete seleções. É a Copa do Mundo, é a maior competição."

A frase do treinador ecoa algo que os grandes técnicos sabem desde sempre: gerenciar expectativa é tão importante quanto gerenciar elenco.

Mbappé lidera, mas a novidade chama mais atenção

Kylian Mbappé (Real Madrid), Ousmane Dembélé (PSG) e Michael Olise (Bayern de Munique) formam o trio ofensivo de referência — uma combinação que, em velocidade e criatividade, rivaliza com qualquer ataque do planeta. Mas o nome que o SportNavo identificou como o mais revelador da lista é outro: Maxence Lacroix, zagueiro do Crystal Palace, aparece como novidade entre os defensores, ao lado de nomes estabelecidos como William Saliba (Arsenal), Ibrahima Konaté (Liverpool) e Dayot Upamecano (Bayern).

Lacroix representa exatamente o tipo de aposta que Deschamps raramente faz — um jogador fora dos grandes eixos europeus, convocado pela consistência e não pelo prestígio do clube.

Há também Rayan Cherki, do Manchester City, e Maghnes Akliouche, do Monaco, que completam um ataque com média de idade surpreendentemente baixa para uma seleção que chega ao Mundial como uma das favoritas ao título.

A referência aqui inevitavelmente remete ao filme Moneyball — não pela lógica estatística pura, mas pela ideia central: às vezes, o time mais inteligente não é o que acumula os maiores nomes, mas o que encontra valor onde os outros não olharam. Deschamps parece ter chegado a uma conclusão parecida.

A estreia da França na Copa do Mundo de 2026 está prevista para a fase de grupos, com os jogos distribuídos entre as sedes dos Estados Unidos, Canadá e México. Os Bleus abrem sua campanha no dia 15 de junho, contra a Áustria, em Nova York — e Mbappé, que completará 27 anos durante o torneio, vai em busca do único título que ainda falta em sua coleção individual.