Confesso: eu errei sobre Deschamps em 2022. Quando ele levou a Copa do Mundo à final no Catar contra a Argentina — um jogo que terminou 3 a 3 após a prorrogação, decidido nos pênaltis —, escrevi que ele era um técnico de circunstância, um gestor de talentos que dependia da genialidade alheia para parecer genial. Hoje, diante do que se desenrolou na última sexta-feira (26) em Nova Jersey, reconheço que subestimei algo que vai muito além da tática: a capacidade de um grupo de se tornar maior do que sua própria dor.
O luto que parou a delegação francesa na Copa do Mundo 2026
A morte da mãe de Didier Deschamps durante a Copa do Mundo 2026 é uma dessas situações que a história do futebol registra com letras minúsculas, mas que pesam toneladas para quem as vive. O treinador foi liberado pela delegação francesa para retornar à França e acompanhar o velório — decisão humanamente incontornável, mas logisticamente delicada para uma equipe em meio à fase de grupos. Nenhum manual tático prepara um elenco para perder seu comandante por motivo de óbito familiar durante um torneio mundial.
A Copa do Mundo tem histórico de situações assim, ainda que raramente documentadas com a transparência atual. Em 1994, nos Estados Unidos, jogadores de diferentes seleções lidaram com notícias trágicas do país natal durante a competição — comunicações que chegavam com horas de atraso, sem redes sociais, sem transmissão instantânea de dor. A diferença de 2026 é que tudo se sabe em tempo real, e a comoção é imediata, global e sem filtro. A Fifa, neste caso, manteve a postura institucional discreta que adota em tragédias pessoais de comissões técnicas, priorizando o protocolo de dispensa sem interferência pública no calendário.
Guy Stéphan assume e a França goleia a Noruega por 4 a 1
Quem ocupou o banco foi Guy Stéphan, auxiliar de Deschamps há mais de uma década na seleção francesa. O resultado — 4 a 1 sobre a Noruega — foi o mais expressivo da fase de grupos da França até aqui, e três dos gols foram marcados por Ousmane Dembélé, do Paris Saint-Germain, que assinou um hat-trick de rara eficiência. A seleção terminou o Grupo I com 100% de aproveitamento, liderando a chave de forma incontestável.
Na saída de campo, Stéphan foi preciso e humano ao mesmo tempo. Suas palavras revelaram o estado emocional do grupo:
"Tenho um grande pensamento para o Didier, que vai se juntar a nós amanhã. Estamos ansiosos para revê-lo. Sobre a partida, acho que fizemos o que era necessário. Sentimos muito prazer em jogar, houve muita intensidade, acelerações e muitas chances de gol. São coisas muito positivas, e precisamos manter isso."
A frase não é de um auxiliar celebrando uma vitória. É de um profissional que entendeu que o resultado de campo era também uma mensagem de afeto ao colega ausente. Em termos históricos, a performance de Stéphan como interino lembra — guardadas as proporções — a atuação de Carlos Alberto Parreira como auxiliar de Telê Santana durante os períodos de tensão interna da Seleção Brasileira nos anos 1980, quando a coesão da comissão técnica funcionava como escudo contra a pressão externa.
O auxiliar também fez questão de contextualizar o adversário para não inflar o resultado além do que ele merece:
"Quanto mais avançarmos na competição, mais fortes serão os adversários. A Noruega não estava com sua equipe principal. Precisamos permanecer atentos. Podemos ficar felizes e aproveitar este momento. Amanhã voltaremos ao trabalho com o Didier."
A Noruega, de fato, não apresentou sua formação titular completa — ausência que reduz o peso estatístico do placar, mas não apaga a qualidade da exibição francesa. A diferença de rendimento entre as duas equipes no jogo foi da ordem de Belém a Porto Alegre: enorme, mas construída sobre circunstâncias assimétricas que a análise honesta não pode ignorar.

O retorno de Deschamps e o que está em jogo a partir de terça-feira
Deschamps retorna à delegação neste sábado (27), segundo confirmou o próprio Stéphan. O técnico terá poucos dias para reencontrar o grupo, reassumir o controle tático e preparar a equipe para o confronto das oitavas de final, marcado para terça-feira (30), às 18h (horário de Brasília), em Nova Jersey. O adversário ainda não está definido — depende da classificação dos terceiros colocados dos outros grupos.
Do ponto de vista histórico, a França de Deschamps acumula uma das campanhas mais consistentes na era moderna das Copas. Campeã em 1998 — com o goleador Zinedine Zidane marcando dois de cabeça na final contra o Brasil (3 a 0) —, vice em 2006 — derrota para a Itália nos pênaltis após o 1 a 1 no tempo regulamentar — e vice novamente em 2022, com aquele duelo épico contra a Argentina. Deschamps esteve presente como jogador em 1998 e 2000 (Euro) e como técnico a partir de 2012. São 14 anos à frente da seleção, com uma Copa conquistada (2018, 4 a 2 sobre a Croácia) e duas finais disputadas. Nenhum técnico da história francesa chegou perto desse currículo.
A reação do elenco à ausência do treinador diz muito sobre o ambiente que ele construiu ao longo desses anos. Um grupo que vence por 4 a 1, com hat-trick de um jogador de ponta, enquanto o técnico está em outro continente enterrando a mãe, é um grupo que internalizou os valores do trabalho coletivo de forma profunda. Isso não acontece por acidente — é o resultado de mais de uma década de cultura instalada por Deschamps dentro da seleção.
A Copa do Mundo de 2026 é a que mais exige resiliência emocional dos participantes: 48 seleções, 104 jogos, três países-sede (Estados Unidos, México e Canadá), com deslocamentos que transformam cada fase eliminatória em uma viagem logística de dimensões continentais. Para uma comissão técnica que perdeu temporariamente seu líder em plena fase de grupos, a resposta dada em campo nesta sexta-feira é o argumento mais sólido de que a França segue como candidata real ao título.
Deschamps retorna ao trabalho no sábado, com a equipe classificada em primeiro lugar e o grupo intacto — está de volta ao que construiu por 14 anos, falta agora o palco das oitavas para provar que a dor não abalou o projeto.








