180 minutos foi tudo o que o Flamengo teve para disputar a Copa do Brasil em 2026 — e não foram suficientes. No Barradão, na noite de quinta-feira (14), o Vitória venceu por 2 a 0, com gols de Luan Cândido e Erick, e despachou o clube carioca antes das oitavas de final. O resultado agregado ficou em 2 a 2, mas a desvantagem de gols fora de casa eliminou o Rubro-Negro. Pela primeira vez em toda a sua história na competição, o Flamengo foi eliminado sem avançar sequer uma fase — uma marca que nenhuma diretoria do clube queria registrar.
O peso de uma derrota que dez anos de história não tinham preparado ninguém
A última vez que o Flamengo havia sido eliminado nas fases iniciais da Copa do Brasil foi em 2016, quando o Fortaleza venceu o Rubro-Negro por 4 a 2 no agregado, na segunda fase da competição. Eram outros tempos, outra estrutura financeira, outro projeto. Nos dez anos seguintes, o clube acumulou títulos, investiu pesado em elenco — a folha salarial do plantel principal em 2026 supera os R$ 280 milhões anuais, segundo fontes ligadas ao departamento financeiro do clube — e consolidou uma identidade de time que não sai cedo de mata-matas. Essa identidade foi destruída em 90 minutos na capital baiana.
O agravante é o contexto de entrada. Por disputar a Libertadores, o Flamengo ingressou na Copa do Brasil diretamente na 5ª fase, pulando quatro rodadas eliminatórias que os clubes menores precisaram atravessar. Entrou, portanto, com a vantagem do caminho mais curto — e ainda assim não chegou às oitavas. Segundo apuração do SportNavo, a diretoria rubro-negra havia classificado internamente a Copa do Brasil como a terceira prioridade da temporada, atrás do Brasileirão e da Libertadores. Essa hierarquia, legítima em termos estratégicos, teve consequências diretas na escalação e na preparação para os dois jogos contra o Vitória.
O jogo de ida revelou fragilidade que a vitória escondeu
No Maracanã, na partida de ida, o Flamengo venceu por 2 a 1 — placar que dava ao clube a vantagem do empate para avançar. Mas quem assistiu ao jogo com atenção analítica percebeu que o resultado era frágil. O Vitória chegou ao gol visitante com relativa facilidade, e o Flamengo dependeu de uma atuação individual acima da média para construir a vitória mínima. O técnico Leonardo Jardim optou por poupar jogadores titulares, priorizando o ciclo de jogos da semana na Libertadores. A decisão é defensável do ponto de vista da gestão de cargas, mas o preço foi alto: o time que foi ao Barradão na volta não tinha o mesmo repertório coletivo de um Flamengo em modo competitivo pleno.
No jogo de volta, os erros se acumularam de forma sistemática. Luan Cândido abriu o placar explorando espaço nas costas da linha defensiva rubro-negra, um padrão de vulnerabilidade que já havia aparecido em outros jogos da temporada. Erick ampliou em lance de bola parada — área que o Flamengo tem cedido gols com frequência preocupante desde o início de 2026. Jardim, segundo interlocutores próximos ao corpo técnico, reconheceu internamente que a preparação para o jogo foi prejudicada pela sequência de partidas da semana anterior.
Os números que expõem o problema tático de Leonardo Jardim
A eliminação não é um acidente isolado. Ela se encaixa num padrão que vem sendo monitorado por analistas do próprio clube: o Flamengo de Jardim tem dificuldade em manter rendimento em jogos fora de casa quando o adversário joga em bloco baixo e explora transições rápidas. O Vitória, treinado para esse modelo, executou o plano com eficiência cirúrgica. Jardim, que assinou contrato com o clube em dezembro de 2025 por duas temporadas — com salário estimado em € 3,5 milhões anuais — ainda não encontrou solução consistente para esse problema específico.
A pressão sobre o técnico português tende a aumentar nas próximas semanas. O Flamengo ocupa posição intermediária no Brasileirão e tem compromissos decisivos na Libertadores. A eliminação da Copa do Brasil retira uma fonte de receita projetada — o campeão do torneio em 2026 recebe R$ 73,5 milhões em premiação total — e reduz as opções de título para o clube no calendário restante da temporada.
O que resta para o Flamengo depois do Barradão
Sem a Copa do Brasil, o elenco rubro-negro volta atenção integral ao Brasileirão e à Libertadores. O próximo compromisso é no domingo (17), contra o Athletico-PR, às 19h30, na Arena da Baixada, pela 16ª rodada do campeonato nacional. Uma derrota em Curitiba aprofundaria a crise e colocaria Jardim numa posição ainda mais desconfortável perante a diretoria presidida por Luiz Eduardo Baptista, o Bap, que já demonstrou, em outras ocasiões, pouca paciência com ciclos de resultados negativos.
No vestiário do Barradão, depois do apito final, as camisas rubro-negras no chão e o silêncio dos jogadores disseram mais do que qualquer declaração oficial conseguiria traduzir.










