Não, Elina Svitolina não é apenas a esposa de Gaël Monfils que voltou ao circuito depois da maternidade. Esse enquadramento subestima brutalmente o que a ucraniana tem feito no saibro em 2026. Quem assistiu à quarta-feira noite no Foro Italico viu uma tenista que salvou 16 dos 20 break points que Elena Rybakina — número 2 do mundo — criou ao longo de 2 horas e 23 minutos, venceu por 2-6, 6-4, 6-4 e se classificou para a semifinal de Roma pela primeira vez desde 2018. Oito anos. Esse é o intervalo que separa os dois momentos.
O que Rybakina não conseguiu quebrar no Centrale
A matemática do confronto é reveladora. Rybakina gerou 20 oportunidades de break — uma frequência absurda, equivalente a pouco mais de uma chance a cada seis minutos de jogo. Svitolina converteu 80% delas em favor próprio. Para contextualizar: a média de aproveitamento de salvamento de break points entre as top 10 do ranking WTA nesta temporada gira em torno de 60 a 65%. Salvar 80% contra a número 2 do mundo, em saibro, num torneio WTA 1000, é uma anomalia estatística que merece registro.
A partida seguiu um roteiro de pressão crescente. Rybakina dominou o primeiro set por 6-2 com a brutalidade habitual do serviço — uma das mais pesadas do circuito feminino, com médias que costumam superar os 185 km/h no primeiro saque. Mas foi no game em que Svitolina servia a 2-5 no primeiro set que a reviravolta começou a ganhar forma: a ucraniana salvou três break points consecutivos, primeiro com um winner de direita, depois com uma bandeja e finalmente quando a bola de Rybakina saiu larga. Rybakina fechou o set, mas Svitolina havia acendido algo. Como uma corrente de ar frio que entra devagar pela fresta antes de tomar o ambiente, o jogo da ucraniana foi ocupando espaço aos poucos até dominar os dois sets seguintes.
Com a vitória, o head-to-head entre as duas fica empatado em 4-4. Svitolina avança para enfrentar Iga Swiatek, tricampeã em Roma, que havia demolido Jessica Pegula por 6-1 e 6-2 em apenas 67 minutos na mesma rodada. O histórico direto pende para a polonesa, 4-2, mas Svitolina venceu o duelo mais recente — justamente nesta temporada, em Indian Wells.
"Depois de dar à luz nossa linda filha Skai, é muito especial para mim ter esses momentos em quadra. Voltar ao top 10, jogar grandes partidas e vencê-las me dá uma sensação incrível e muito preciosa para continuar e buscar mais", disse Svitolina na entrevista em quadra após a vitória.
Os abusos que vieram depois de uma derrota no Canadá
A trajetória de Svitolina em 2026 não é feita apenas de bolas e rankings. Antes de Roma, a tenista ucraniana expôs publicamente o que recebeu nas redes sociais após sua eliminação nas quartas do National Bank Open no Canadá, quando perdeu para Naomi Osaka em sets diretos. Nas horas seguintes à derrota, apostadores frustrados enviaram mensagens desejando sua morte e celebrando mortes de ucranianos na guerra em curso — uma mistura de ódio esportivo e político que Svitolina escolheu não ignorar.
Ela publicou capturas de tela no Instagram e escreveu diretamente para quem apostou contra ela. "Sou mãe antes de ser atleta. A maneira como vocês falam com mulheres — com mães — é VERGONHOSA. Se as mães de vocês vissem essas mensagens, ficariam enojadas", escreveu Svitolina. Alguns dos ataques também continham ofensas raciais direcionadas a Monfils, que é negro e francês. A gravidade dos episódios se enquadra num problema sistêmico: relatório conjunto da WTA e da ITF revelou que 458 tenistas foram alvos de mais de 8.000 comentários abusivos nas redes em 2024, com 40% desse volume originado de apostadores insatisfeitos. A tenista britânica Katie Boulter havia denunciado situação similar durante Roland Garros, incluindo ameaças de morte contra ela e sua família.
O SportNavo rastreou esse padrão ao longo da temporada europeia: a janela entre a eliminação de uma tenista top 10 e o pico de mensagens abusivas raramente ultrapassa duas horas, o que sugere automação ou grupos organizados de apostadores reagindo em tempo real aos resultados.
Monfils fora das quadras e Svitolina dentro delas
Há uma camada emocional adicional neste momento da carreira de Svitolina. Gaël Monfils, seu marido, está em processo de aposentadoria do tênis profissional após uma trajetória de mais de duas décadas no circuito. Quando perguntada sobre o assunto após sua classificação em Indian Wells, no início da temporada, Svitolina não escondeu o peso do momento.
"Foi difícil quando ele me contou, porque estou acostumada a ver suas grandes batalhas e sabia que seria duro para ele enfrentar tudo isso. Acho emocionante ver como ele está lidando com tudo. A única coisa que posso fazer é estar ao lado dele — acho que vamos aproveitar muito a gira europeia e Roland Garros, vai ser lindo", afirmou a ucraniana.
Os números de Svitolina em 2026 sustentam a narrativa de atleta que encontrou novo propósito. Ela retornou ao top 10 do ranking WTA depois do nascimento de Skai, em 2023, num processo de recuperação que levou cerca de 18 meses para atingir consistência nos torneios de maior nível. Em Roma, ela já havia conquistado o título em 2017 e 2018 — back-to-back, portanto. Chegar à semifinal oito anos depois da última vez não é nostalgia; é dado concreto de que a curva de performance dela não cedeu à pressão da idade, da maternidade ou da guerra que assola seu país de origem.
A semifinal entre Svitolina e Swiatek está programada para esta sexta-feira, 16 de maio, no Foro Italico. O head-to-head favorece a polonesa, mas o único confronto desta temporada terminou com vitória da ucraniana — e 16 break points salvos contra a número 2 do mundo sugerem que Svitolina chegará à quadra com argumentos técnicos para rever essa estatística.








