Doze anos, 13 vitórias, 41 pódios e um campeonato mundial. Lucas Di Grassi, 41 anos, anunciou nesta quinta-feira (30) que a temporada 2025-26 da Fórmula E será a última de sua carreira como piloto profissional. O brasileiro, que compete atualmente pela equipe Lola-Yamaha, se despedirá das pistas no ePrix de Londres, marcado para os dias 15 e 16 de agosto de 2026 — uma das etapas mais emblemáticas do calendário elétrico, realizada no ExCeL Arena, às margens do Tamisa.

A mensagem de despedida e o peso das palavras

Di Grassi escolheu o Instagram para fazer o anúncio, com um texto que mistura gratidão e autoconsciência raramente vistos em declarações de atletas. A frase de abertura já diz muito sobre o tom:

"Após uma vida inteira dedicada ao automobilismo, 2026 marcará minha última temporada como piloto profissional. Não é o fim da jornada, mas o começo de um novo capítulo."

Nascido em São Paulo, o piloto traçou uma linha direta entre sua origem e o que o esporte significou para sua formação humana:

"Dos subúrbios de São Paulo a Mônaco, as corridas moldaram minha vida de maneiras que eu jamais poderia imaginar. Isso me transformou profundamente como piloto, como pessoa, como pai e como ser humano. Dei tudo o que tinha a este esporte e, em troca, ele me deu uma vida além de qualquer coisa que eu pudesse sonhar."

Uma carreira construída na ciência de pilotar carros elétricos

Para entender a grandeza do legado de Di Grassi na Fórmula E, é preciso compreender o que torna essa categoria tecnicamente desafiadora. Diferentemente da Fórmula 1, onde o motor a combustão entrega potência de forma relativamente linear, os carros elétricos lidam com um fenômeno chamado degradação da bateria — à medida que a carga cai, a potência disponível diminui, e o piloto precisa gerenciar energia como um engenheiro gerencia combustível em um foguete. Di Grassi foi, desde a Temporada 1 (2014-15), um dos poucos pilotos que dominou essa equação.

Nas cinco primeiras temporadas da categoria, o brasileiro terminou todas entre os três melhores do campeonato: dois vice-campeonatos (2015-16 e 2017-18), dois terceiros lugares (2014-15 e 2018-19) e o título mundial em 2016-17. Uma consistência técnica impressionante em uma era em que o regulamento mudava a cada ano e as equipes precisavam reaprender a otimizar o modo de motor — o equivalente elétrico dos famosos "modos de potência" da F1 — em tempo real durante as corridas.

Na análise do SportNavo, Di Grassi foi o piloto que melhor combinou inteligência estratégica com sensibilidade técnica nos primeiros dez anos da Fórmula E: enquanto rivais queimavam energia nos primeiros setores para ganhar posição, o brasileiro frequentemente adotava uma política de undercut energético — economizava carga nas primeiras voltas e atacava quando o adversário precisava reduzir potência para sobreviver até o fim da corrida.

Da F1 à vanguarda do elétrico

Antes da Fórmula E existir, Di Grassi já havia percorrido o caminho mais difícil do automobilismo. Ele disputou a temporada 2010 de Fórmula 1 pela Virgin Racing — equipe que era essencialmente uma startup tentando sobreviver na grade — sem os recursos de McLaren ou Ferrari. Foi uma escola de aerodinâmica improvisada: carros com downforce limitado, onde cada curva exigia que o piloto compensasse com o próprio corpo aquilo que o carro não entregava aerodinamicamente.

Essa base técnica em F1, combinada à visão que Di Grassi sempre demonstrou sobre a eletrificação dos transportes, o tornaram figura central na criação da própria Fórmula E. O brasileiro foi um dos pilotos originais da categoria em 2014, quando poucos acreditavam que carros elétricos poderiam ser competitivos ou atraentes para o público. Treze vitórias e 41 pódios depois, o argumento está encerrado.

O que vem depois dos boxes

Di Grassi já deixou claro que a aposentadoria das pistas não significa afastamento do automobilismo. Ao longo de sua carreira, o piloto paulistano atuou como embaixador de sustentabilidade na FIA, participou de conselhos técnicos sobre mobilidade elétrica e esteve envolvido em projetos de tecnologia automotiva. A expressão que ele usou no anúncio — "o começo de um novo capítulo" — sugere uma transição para o lado executivo ou técnico do esporte, área em que sua formação de engenheiro e sua experiência de mais de duas décadas nas categorias de ponta o colocam em posição privilegiada. Sua última corrida como profissional está marcada para 16 de agosto de 2026, no ePrix de Londres, onde tentará encerrar a carreira com o mesmo ingrediente que a definiu: velocidade calculada, energia administrada até o último quilômetro.