Quatorze anos, 13 vitórias, 41 pódios, 4 poles e 1.077 pontos. Esses números definem a trajetória de Lucas di Grassi na Fórmula E — e foi com esse currículo que o paulista de 41 anos subiu ao palco do Media Day do ePrix de Berlim, em 30 de abril, para anunciar que a temporada 2025-26 será a última de sua carreira como piloto profissional.
"Após uma vida inteira dedicada ao automobilismo, 2026 marcará minha última temporada como piloto profissional e o início de um novo capítulo", declarou di Grassi no pronunciamento oficial em Berlim.
O homem que ajudou a construir a categoria
Há um argumento recorrente entre os críticos de di Grassi: o de que seu título na temporada 2017-18 veio num período em que a Fórmula E ainda engatinhava em termos de competitividade e visibilidade global. O raciocínio tem alguma base temporal, mas ignora um dado estrutural relevante — di Grassi estava na grelha de largada da primeira corrida da história da categoria, em Pequim, em setembro de 2014, e participou ativamente do desenvolvimento técnico de todos os carros que sucederam o modelo inaugural.
Nenhum outro piloto do grid atual pode reivindicar esse histórico de continuidade. Di Grassi não apenas venceu dentro da pista: influenciou decisões de engenharia, regulamento e estratégia que moldaram o produto que a Fórmula E é hoje. Conforme levantamento do SportNavo, entre os dez pilotos com mais vitórias na história da categoria, di Grassi é o único que também acumulou função ativa no desenvolvimento dos carros — uma combinação que raramente aparece no automobilismo de elite.
Os números que sustentam o legado
A estatística mais subestimada da carreira de di Grassi na Fórmula E não é o título, mas a consistência: 41 pódios em uma categoria onde o fator aleatório — safety car, clima, gerenciamento de bateria — é proporcionalmente maior do que em qualquer outro campeonato de monoposto. Nas 12 voltas rápidas registradas, há outro indicador de velocidade pura que frequentemente é eclipsado pela narrativa dos títulos. Para efeito de comparação, pilotos com passagens mais curtas na categoria raramente ultrapassam a marca de 5 voltas rápidas ao longo de uma participação inteira.
A trajetória de di Grassi fora da Fórmula E também reforça o perfil versátil: passagens pela Fórmula 1 com a Virgin Racing em 2010, pelo WEC — onde competiu em Le Mans — e pela Stock Car Brasil constroem um currículo que vai muito além do campeonato elétrico. O próprio piloto reconheceu a dimensão do percurso ao citar, no discurso de Berlim, a transição geográfica e existencial que o esporte proporcionou.
"Dos subúrbios de São Paulo a Mônaco, as corridas moldaram minha vida de maneiras que eu jamais poderia imaginar. Isso me transformou profundamente como piloto, pessoa, pai e ser humano", afirmou di Grassi em seu pronunciamento.
O que vem depois do cockpit
A aposentadoria das pistas não significa saída do automobilismo. Di Grassi confirmou que trabalhará no desenvolvimento do GEN4, o carro que entrará em vigor a partir do regulamento 2026-27, ao lado da Lola Yamaha. A escolha não é trivial: o GEN4 representa a próxima grande aposta tecnológica da Fórmula E, e ter um piloto com mais de uma década de leituras técnicas da categoria envolvido no projeto é uma vantagem de difícil mensuração para a equipe britânica-japonesa.
A análise do SportNavo aponta que essa transição de piloto para desenvolvedor técnico segue um modelo raro, mas bem-sucedido no automobilismo mundial — casos como o de Gilles Villeneuve e, mais recentemente, de engenheiros-pilotos que migraram para papéis híbridos em equipes de ponta. Di Grassi, com formação técnica e histórico de engajamento nos processos de desenvolvimento dos carros GEN1, GEN2 e GEN3, chega a esse novo papel com credenciais que a maioria dos consultores de corrida não possui.
"Gostaria de fazer um agradecimento muito especial à Fórmula E, onde passei os últimos quatorze anos cercado por pessoas extraordinárias, pessoas que começaram escrevendo em guardanapos e criaram um campeonato incrível que hoje considero meu lar", disse o brasileiro.
O que o automobilismo brasileiro perde — e ganha
Di Grassi encerra a carreira como o piloto brasileiro com mais títulos na Fórmula E e um dos mais influentes na história do campeonato elétrico. Sua saída do cockpit retira do grid um dos últimos representantes da geração que legitimou a categoria nos anos iniciais, quando o ceticismo do mercado ainda era alto e a Fórmula E precisava de nomes para atrair credibilidade.
As últimas corridas de di Grassi como piloto profissional ainda estão por acontecer na temporada 2025-26. Após o encerramento do campeonato, o foco passa a ser o GEN4 — carro que, se bem-sucedido, carregará também a assinatura técnica de um dos maiores nomes do automobilismo elétrico mundial.








