Trinta anos após dar os primeiros giros no kart, Lucas Di Grassi anunciou na última quinta-feira (30) o encerramento de sua carreira como piloto profissional. O paulista de 40 anos deixa o automobilismo com um currículo que, em termos comparativos, só encontra paralelo entre os brasileiros quando se evoca a geração de Rubens Barrichello e Felipe Massa: passagens por Fórmula 1, 24 Horas de Le Mans, Mundial de Endurance (WEC) e o título da Fórmula E na temporada 2016-17, com 28 pontos de vantagem sobre Nick Heidfeld na classificação final.

O pioneiro que abriu a era elétrica

Os números da relação de Di Grassi com a Fórmula E não admitem contestação. Ele foi o vencedor da primeira corrida da história da categoria, disputada em Pequim em setembro de 2014 — um marco que ficará para sempre no registro oficial da FIA. Nos dez anos seguintes, acumulou 13 vitórias, 38 pódios e uma pole position no campeonato elétrico, tornando-se o piloto com mais corridas disputadas na história da Fórmula E até o encerramento de sua participação ativa. Conforme levantamento do SportNavo, nenhum outro brasileiro chegou sequer à metade desse total de pódios no campeonato elétrico.

"Quando fui para a Fórmula E em 2014, as pessoas me diziam que estava cometendo um erro de carreira. Hoje vejo que foi a melhor decisão que já tomei no esporte", declarou Di Grassi ao anunciar a aposentadoria.

Da Fórmula 1 a Le Mans — a amplitude de uma carreira

Antes da era elétrica, Di Grassi percorreu o caminho clássico de formação europeia: Fórmula Renault, Fórmula 3, GP2 — categoria na qual terminou em terceiro lugar na temporada 2007 — até chegar à Fórmula 1 pela Virgin Racing em 2010. Em 18 Grandes Prêmios disputados, o melhor resultado foi um 13º lugar, reflexo das limitações técnicas de uma equipe estreante no grid. O que os dados mostram, no entanto, é que Di Grassi soube redirecionar sua trajetória com uma precisão que poucos conseguem: enquanto outros pilotos da mesma safra desapareceram do automobilismo de alto nível, ele migrou para o endurance e chegou ao pódio nas 24 Horas de Le Mans, a corrida de maior prestígio histórico do automobilismo mundial, pela classe LMP2.

No WEC, Di Grassi acumulou participações consistentes entre 2012 e 2016, período em que o campeonato registrava médias de 42 carros inscritos por temporada. A capacidade de adaptar o estilo de pilotagem às exigências do endurance — gerenciamento de pneus, comunicação com engenheiros em sequências de 6 horas — distingue os pilotos versáteis dos especialistas, e Di Grassi se enquadrava claramente na primeira categoria.

O legado comparado à história brasileira

Para contextualizar o peso histórico dessa aposentadoria, a análise comparativa é inevitável. Desde Ayrton Senna, o Brasil produziu pilotos capazes de vencer em diferentes categorias do automobilismo de alto nível, mas a combinação específica de Di Grassi — título mundial em uma categoria reconhecida pela FIA, vitória em Le Mans e participação na F1 — é singular entre os brasileiros da era pós-2000. Rubens Barrichello tem 11 vitórias na F1, mas nunca conquistou um título de campeonato mundial. Felipe Massa foi vice-campeão da F1 em 2008, a um ponto do título, porém tampouco somou conquistas fora da categoria rainha. Di Grassi, por outro lado, construiu o título em uma nova plataforma e deixou uma marca pioneira que dificilmente será apagada.

"Lucas redefiniu o que significa ser um piloto brasileiro no século 21. Ele viu o futuro antes de todo mundo", afirmou o jornalista especializado em automobilismo Jayme Brito, em análise publicada após o anúncio da aposentadoria.

O passo seguinte fora do cockpit

A aposentadoria do cockpit não significa afastamento total do automobilismo. Di Grassi já sinalizou que seguirá atuando como embaixador da mobilidade elétrica e em projetos ligados à sustentabilidade no esporte a motor — área em que tem atuado paralelamente à carreira de piloto desde 2012, quando integrou o conselho consultivo do programa de eficiência energética da FIA. A análise exclusiva do SportNavo aponta que esse posicionamento coloca Di Grassi entre os atletas brasileiros com maior potencial de influência no mercado do automobilismo pós-carreira, ao lado de nomes como Barrichello, que hoje atua como comentarista e gestor. O calendário da Fórmula E para a temporada 2025 segue sem Di Grassi pela primeira vez em 11 anos — uma ausência que os números, por si sós, já tornam historicamente significativa.