Sábado, 17h32 no Gigante de Arroyito. O árbitro apitou o pênalti a favor do Rosario Central, e a torcida já sabia o que viria. Ángel Di María pegou a bola, posicionou-a na marca cal com a tranquilidade de quem já bateu pênaltis em finais de Champions League e Copa do Mundo, e deslocou o goleiro do Godoy Cruz sem cerimônia. Aos 33 minutos do segundo tempo, o estádio explodiu. Em menos de duas semanas de volta ao clube que o revelou, o camisa 11 já acumulava dois gols e uma narrativa impossível de ignorar.
A longa estrada que trouxe Di María de volta a Rosario
Quando Di María deixou o Rosario Central em 2007, tinha 19 anos e um contrato com o Benfica no bolso. Poucos imaginavam que aquele ponta habilidoso, revelado nas categorias de base do Canalla, percorreria um trajeto de quase duas décadas pelo futebol europeu antes de fechar o círculo. Benfica, Real Madrid, Manchester United, Paris Saint-Germain, Juventus e novamente o Benfica — cada etapa acrescentou uma camada ao currículo e ao peso do retorno.
Quem acompanhou o futebol europeu nos anos 2010 sabe que Di María foi, em diferentes momentos, o melhor jogador do mundo em campo aberto. Na temporada 2013/2014, foi peça central no Real Madrid que conquistou a décima Champions League — a famosa La Décima — com 32 jogos e participação direta em momentos decisivos. No PSG, ao lado de Neymar e Mbappé, acumulou sete temporadas e mais de 90 gols em todas as competições. Não é exagero histórico dizer que poucos jogadores argentinos da sua geração têm um currículo europeu comparável ao dele — talvez só Messi, e por razões óbvias.
Mas o futebol tem essa capacidade de nos lembrar de onde viemos. Na apresentação ao Rosario Central, Di María não conseguiu conter as lágrimas e deixou uma frase que resume o peso simbólico do retorno:
"Isso é mais que tudo que fiz."
Para quem venceu uma Copa do Mundo com a Argentina em 2022 e jogou nas maiores ligas do planeta, dizer que voltar a Rosario supera tudo é uma declaração carregada de sentido — e também de pressão.
Dois gols em duas rodadas e o Gigante de Arroyito em transe
A pressão, Di María tratou de respondê-la dentro de campo. Na segunda rodada do Torneio Apertura 2026, o Rosario Central viajou até o Estádio Presidente Perón — o Cilindro de Avellaneda — para enfrentar o Racing. Aos 24 minutos do primeiro tempo, Di María recebeu a bola, deixou Sosa para trás com uma mudança de direção seca e finalizou de três dedos, com efeito e precisão, para abrir o placar. O Rosario venceu por 2 a 1 e somou sua primeira vitória no Apertura.
Quem pensa que gols de pênalti são menores está equivocado — especialmente quando a cobrança acontece numa reestreia em casa, com 40 mil torcedores na arquibancada e uma expectativa que pesaria nos ombros de qualquer mortal. Contra o Godoy Cruz, na primeira rodada do Torneio Clausura, Di María não tremeu. Converteu com categoria, tirou a camisa e celebrou com os companheiros. A partida terminou empatada em 1 a 1, com Poggi igualando nos minutos finais para os visitantes, mas o gol do ídolo já havia transformado o Gigante de Arroyito num caldeirão…
… e aí está o detalhe que separa o retorno sentimental do retorno efetivo: Di María não veio para ser homenageado, veio para jogar.
O que Di María representa para o Rosario Central nesta temporada
Existe um paralelo histórico interessante aqui. Em 1992, quando Diego Maradona voltou ao Newell's Old Boys após anos na Europa, a expectativa era de um jogador em fim de carreira que traria prestígio ao clube. Maradona jogou apenas cinco partidas antes de se machucar e a experiência ficou incompleta. O retorno de Di María, ao menos nas primeiras semanas, segue uma trajetória diferente: dois jogos, dois gols, presença técnica inegável e um corpo que, aos 37 anos, ainda parece responder às exigências do futebol de alto nível.
Tecnicamente, Di María sempre foi um jogador que dependia menos da velocidade pura e mais da leitura de jogo e da qualidade do passe. Isso o torna, curiosamente, um jogador que envelhece melhor do que atacantes que vivem do sprint. Ryan Giggs, por exemplo, jogou no Manchester United até os 40 anos exatamente porque seu jogo nunca foi construído sobre explosão física. Di María, que nunca foi o mais rápido do mundo mesmo no auge, tem condições de manter um nível de contribuição técnica relevante por mais tempo do que os céticos imaginam.
Para o Rosario Central, a chegada do ídolo tem implicações que vão além do campo. A visibilidade do clube no cenário continental aumentou imediatamente — e num momento em que o Canalla precisa equilibrar sua participação no Campeonato Argentino com as obrigações internacionais, ter um jogador de experiência europeia no elenco é um ativo real, não apenas simbólico.
O próximo compromisso do Rosario Central pelo Torneio Clausura está previsto para o fim de semana, e a equipe busca a primeira vitória na competição após o empate com o Godoy Cruz. Com Di María em ritmo crescente e o Gigante de Arroyito como bastião emocional, o Canalla tem nas mãos um ingrediente raro: um ídolo que ainda cozinha em fogo alto.










