Controlar sem ter a bola — esse é o paradoxo que Dick Schreuder carrega no bolso toda vez que sobe os degraus para o banco do Udinese. E é justamente aí, nessa contradição aparente, que o holandês de 54 anos encontra o fio condutor do seu trabalho.

O esquema que ele sempre busca rodar

Nenhum sistema vive sem uma ideia-mãe. A dele é a pressão organizada.

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Schreuder, nascido em agosto de 1971 nos Países Baixos, carrega no DNA tático aquilo que os holandeses exportaram para o mundo desde Johan Cruyff: a convicção de que o espaço é uma construção coletiva, não uma coincidência individual. Seu ponto de partida preferido é um bloco médio-alto que rapidamente se transforma em pressing coordenado assim que o adversário comete o primeiro erro de passe. O objetivo não é recuperar a bola de qualquer jeito — é forçar o erro no terço certo do campo, para que a transição ofensiva já nasça com vantagem geográfica.

Na prática, isso significa um 4-3-3 que se fecha em 4-5-1 sem bola, com os extremos dobrando sobre os laterais adversários e o meia central funcionando como pivô de cobertura. Quem viu o Ajax de Erik ten Hag entre 2017 e 2022 reconhece a linguagem — não é acidente, é escola. A escola holandesa, com seus princípios de compactação e saída em posse após a recuperação, é o idioma nativo de Schreuder. O que ele faz no Udinese é traduzir esse vocabulário para um dialeto mais pragmático, adequado a um elenco sem os recursos financeiros dos gigantes da Serie A.

Como ele monta o time dentro desse esquema

A arquitetura do time revela mais sobre o treinador do que qualquer entrevista coletiva.

Schreuder prioriza jogadores com alta capacidade de leitura posicional em detrimento de perfis exclusivamente atléticos. A linha de quatro defensores precisa saber compactar — o espaço entre o último zagueiro e o meia mais recuado raramente ultrapassa 25 metros quando o time está organizado sem bola. Esse tipo de compactação, medido pelo indicador PPDA (passes permitidos por ação defensiva — quanto menor o número, mais agressivo é o pressing), tende a ser baixo nos times que ele comanda, o que significa que o Udinese concede poucos passes ao adversário antes de tentar a recuperação. Para o torcedor menos familiarizado com métricas avançadas: imagine um time que não deixa o rival respirar por mais de dois ou três toques seguidos sem alguém chegando perto.

Na fase ofensiva, o build-up é sempre pelo centro. Os laterais sobem, mas como opção secundária. A saída de bola passa pelo eixo — o goleiro distribui para os zagueiros, que alimentam o pivô de meio-campo, que então decide entre o terceiro homem ou o avanço dos extremos em profundidade. É um processo metódico, quase como o tiki-taka destilado ao essencial: menos estética, mais funcionalidade.

Onde o esquema funciona melhor (e onde quebra)

Todo sistema tem seu ambiente ideal — e seu ponto cego.

O esquema que ele sempre busca rodar Dick Schreuder e o Udinese que aprende a
O esquema que ele sempre busca rodar Dick Schreuder e o Udinese que aprende a

O modelo de Schreuder funciona com eficiência cirúrgica contra equipes que gostam de construir do fundo com calma. O pressing alto organizado asfixia times que dependem de um goleiro-libero ou de zagueiros com saída de bola lenta. Em Údine, um estádio compacto e uma torcida que valoriza intensidade, o ambiente favorece esse tipo de proposta — o Friuli não é San Siro, mas tem uma energia que se encaixa no futebol raçudo que o holandês propõe.

O problema aparece quando o adversário opta pelo long ball direto e pela bola aérea como saída. Um time que simplesmente lança para o centroavante e joga na segunda bola desativa o mecanismo de pressing coordenado de Schreuder, porque a recuperação deixa de acontecer em zonas previamente calculadas. Nesse cenário, o Udinese pode ficar exposto nas costas dos laterais, especialmente quando os extremos já subiram e não conseguem retornar a tempo. Na avaliação do SportNavo, esse é o ponto de tensão mais recorrente no jogo do time na temporada 2025/2026 — não uma falha de conceito, mas uma vulnerabilidade estrutural que adversários inteligentes exploram.

Há também a questão da gestão de elenco. Com recursos limitados frente aos rivais de meio de tabela da Serie A, Schreuder precisa extrair consistência de um grupo que tem menos margem de erro físico e técnico. Quando o sistema exige alta intensidade de pressão por 90 minutos, o desgaste acumulado ao longo de uma temporada é uma variável real — não teórica.

Os jogadores que ele privilegia para fazer funcionar

O perfil preferido de Schreuder não é o craque — é o inteligente.

O holandês tem preferência declarada por meias capazes de funcionar tanto com quanto sem bola: jogadores que pressionam quando o time não tem a posse e que organizam a saída quando a têm. No esquema dele, o meia central não é um volante de marcação pura nem um armador clássico — é um híbrido, o tipo de perfil que a escola holandesa chama de box-to-box pensante. Na fila de preferências, vêm depois os extremos com capacidade de fechar para dentro e criar superioridade numérica no centro, libertando os laterais para avançar.

Centroavantes de referência física, que segurem a bola e façam o pivô, também ganham crédito no sistema — não porque o Udinese jogue direto para eles, mas porque a presença de um nove com corpo permite ao time ter uma âncora ofensiva nos momentos em que o pressing falha e a transição precisa de tempo para se reorganizar. Schreuder não escala por nome, escala por função — e essa distinção, aparentemente simples, é o que separa treinadores de processo de treinadores de resultado imediato.

O que está em construção no Friuli não é um time de Champions League. É algo mais raro e mais difícil de fabricar: uma identidade. E identidade, como qualquer holandês que passou pela escola do futebol total sabe, vale mais do que qualquer resultado isolado de uma quinta-feira de inverno na Serie A.