Um técnico que quer transparência na arbitragem usa o apelido de 'mascarado' para se referir ao árbitro. O paradoxo é apenas aparente: o que Fernando Diniz denunciou no Campos Maia, neste domingo (3), não foi a competência de um indivíduo, mas a opacidade estrutural de um sistema que, no Brasil, ainda resiste a qualquer forma de prestação de contas pública.

O diagnóstico do momento

Pela 14ª rodada do Campeonato Brasileiro de 2026, o Mirassol vencia o Corinthians por 2 a 0 quando a fúria de Diniz vazou para as câmeras. Irritado por não conseguir a atenção do árbitro Matheus Delgado Candançan, o treinador disparou a frase que tomou as redes sociais:

"O mascarado do c******. Tá com a cabeça desse tamanho. Tô te chamando e você não escuta", disse Diniz, visivelmente exaltado à beira do campo.

O estopim foi o pênalti marcado aos 20 minutos do primeiro tempo: o atacante Carlos Eduardo, camisa 96 do Mirassol, caiu na área após contato com Matheus Bidu. Candançan não hesitou — e o VAR, operado por Márcio Henrique de Gois, também não interveio. O próprio Carlos Eduardo converteu a cobrança, inaugurando o placar. Antes disso, houve outro lance tenso: Edson Carioca recebeu cartão vermelho após falta em Matheus Pereira, mas o VAR recomendou revisão e a expulsão foi cancelada.

O consultor de arbitragem da Record, Salvio Spínola, avaliou que a decisão de retirar o vermelho foi correta:

"Tem carrinho, excesso de força, passou do tom, mas ele desliza, não atinge com a sola da chuteira. Não é para vermelho", analisou o ex-árbitro.

Os fatores que explicam o quadro

A reação de Diniz não ocorreu no vácuo. O técnico acumula um histórico consistente de confrontos verbais com a arbitragem ao longo de sua carreira — passagens por Fluminense, Santos e agora Corinthians sempre foram pontuadas por episódios de tensão com os juízes, alguns gerando processos no Superior Tribunal de Justiça Desportiva. A recorrência não é acidente: é um traço de temperamento que, combinado a jogos de pressão, produz explosões previsíveis.

Há, contudo, uma dimensão institucional que o episódio de Mirassol ilumina. Conforme levantamento do SportNavo, desde a implementação do VAR no Brasileirão, em 2019, o índice de revisões que resultam em alteração de decisão do árbitro de campo gira em torno de 12% a 15% dos lances revisados — um percentual que, comparado às ligas europeias de referência como a Premier League (onde a taxa de intervenção efetiva supera 20%), sugere que o sistema brasileiro ainda opera com critérios de acionamento mais restritivos. No lance do pênalti sobre Carlos Eduardo, o VAR optou pela não intervenção, decisão que dividiu torcedores e analistas.

A ausência de qualquer mecanismo formal de comunicação entre árbitro e treinadores durante a partida — prática que federações como a UEFA já testam em competições de base — alimenta exatamente o tipo de frustração que Diniz externalizou. Quando o técnico diz que chamava o árbitro e não era ouvido, ele descreve menos uma falha de cortesia e mais uma lacuna de protocolo.

O diagnóstico do momento Diniz chamou o árbitro de 'mascarado' e
O diagnóstico do momento Diniz chamou o árbitro de 'mascarado' e

Os cenários possíveis daqui

O STJD tende a enquadrar falas como a de Diniz no artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que trata de ofensas a árbitros. A depender da interpretação do termo 'mascarado' — se considerado ofensivo à honra do árbitro Candançan —, o treinador pode responder com suspensão de um a seis jogos. Em episódios anteriores de natureza similar, técnicos da Série A receberam punições entre duas e quatro partidas, o que colocaria Diniz fora de jogos decisivos do Corinthians no segundo terço do campeonato.

A análise do SportNavo aponta que o Corinthians, ao longo das primeiras 14 rodadas de 2026, já acumula reclamações formais contra três árbitros diferentes — mais do que qualquer outro clube da competição no mesmo período. Isso não prova perseguição, mas indica que o ambiente interno do clube está permeado por uma cultura de atrito com a arbitragem que, ao invés de ser gerenciada, parece ser alimentada.

Para Diniz, o custo imediato é o desgaste de imagem num momento em que o Corinthians precisa de estabilidade. Para a CBF e a Federação Paulista, o episódio reitera a urgência de um debate que já deveria ter avançado: a criação de canais formais de comunicação entre árbitros e comissões técnicas, e a divulgação pública dos critérios de acionamento do VAR em tempo real. Sem isso, cada tarde como a de Mirassol vai continuar produzindo o mesmo roteiro — e o próximo jogo do Corinthians pelo Brasileirão 2026, com Diniz possivelmente na berlinda do STJD, chega com o treinador a apenas 47 anos de idade carregando um histórico que pesa mais do que deveria.