Falhou. O árbitro deixou passar uma decisão que, segundo as próprias diretrizes da FIFA, deveria ter sido automática — e a Escócia saiu do campo com uma derrota de 1 a 0 para o Marrocos carregando uma raiva que vai durar até quarta-feira, quando enfrenta o Brasil em Miami.

O lance que Steve Clarke não vai esquecer tão cedo

Primeiro tempo, Escócia tentando construir algo. Che Adams recebe o passe, acelera e é derrubado por Issa Diop antes de chegar à grande área. O problema: Diop era o último zagueiro em campo naquele momento. Nenhum companheiro de defesa entre Adams e o goleiro marroquino. Cartão amarelo. Só isso.

"Fiquei decepcionado com a falta de Diop em Adams, que era o último zagueiro em campo. Na minha opinião, Che Adams estava em posição ideal para ficar cara a cara com o goleiro. Em outro dia, decisões como essas poderiam ter sido tomadas", disse Steve Clarke na coletiva pós-jogo.

A orientação da FIFA para esse tipo de lance é bem clara: quando um jogador impede uma chance clara de gol — o que tecnicamente se chama de Denying an Obvious Goal-Scoring Opportunity (DOGSO) — a expulsão deve ser aplicada. Os critérios clássicos são quatro: distância até o gol, direção do ataque, posição dos defensores e controle da bola pelo atacante. No lance de Adams, ao menos três desses critérios apontavam para o vermelho.

Do ponto de vista de métricas, o momento era crítico. Jogadas em transição como essa, com o atacante isolado na frente, costumam gerar xG (expected goals) acima de 0.35 — dependendo do ângulo e da velocidade da jogada, o valor pode chegar a 0.50. Não é uma chance qualquer. É exatamente o tipo de oportunidade que os modelos de dados classificam como high-value situation, e que justifica a regra do último homem existir.

O vestiário escocês e a conta que não fecha

Bastidores da seleção escocesa após o apito final: jogadores abatidos, Clarke visivelmente irritado e ainda com pouca paciência para a imprensa local. Quando um repórter tentou aprofundar a conversa sobre o desempenho da equipe, o técnico foi direto: "eu ainda não vi nada. Não sei por que vocês fazem essas entrevistas."

Clarke sinalizou que vai dar 48 horas aos jogadores para processar a derrota antes de virar a chave para o confronto com o Brasil. A Escócia soma uma vitória e uma derrota no Grupo C — ganhou na estreia e perdeu agora. Para se classificar ao mata-mata, precisa de um resultado positivo contra os brasileiros, que chegam embalados pela vitória de 3 a 0 sobre o Haiti.

Analisando o desempenho escocês contra o Marrocos, alguns números chamam atenção. A equipe de Clarke teve dificuldade para criar situações de finalização com qualidade — o que se reflete diretamente no xG gerado. Times que sofrem com baixo volume de progressive passes (passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário) costumam ter xG total abaixo de 1.0 em partidas desse nível. A Escócia não foi exceção.

  • xG gerado pela Escócia vs. Marrocos: estimado abaixo de 0.8 — sem o lance de Adams, provavelmente menor ainda
  • PPDA (Passes Permitidos Por Ação Defensiva): o Marrocos pressionou com eficiência, limitando a saída de bola escocesa no terço médio
  • Defensive actions no setor central: Diop foi um dos jogadores mais ativos nesse quesito — o que torna a ironia do lance ainda mais evidente; ele parou Adams exatamente fazendo o que faz de melhor

Hakimi vaiado e a Copa que não separa campo de tribunal

Se a arbitragem foi o tema técnico da noite, o contexto em torno de Achraf Hakimi trouxe uma camada diferente para a partida. O lateral-direito do Marrocos foi vaiado pela torcida escocesa durante toda a partida — cada toque na bola era recebido com manifestações nas arquibancadas. A razão: no mesmo dia do jogo, o Tribunal de Apelação de Versalhes rejeitou o recurso da defesa de Hakimi e manteve o prosseguimento da ação penal por acusação de estupro. A Justiça francesa ainda não definiu data para o julgamento.

Antes de entrar em campo, Hakimi publicou uma longa nota nas redes sociais. Sem entrar em detalhes sobre o processo, o jogador fez uma afirmação que circulou amplamente, conforme registrado pelo SportNavo:

"A Justiça olhou nos meus olhos e disse: 'Se você não fosse conhecido, nunca teria havido um caso'. Optei por permanecer em silêncio durante anos. Pensei que manter minha dignidade, ser paciente e confiar na Justiça permitiria que as decisões corretas fossem tomadas. Estou esperando por este julgamento desde o primeiro dia. E agora estou ansioso por ele. Finalmente poderei falar", escreveu Hakimi.

Dentro de campo, Hakimi cumpriu sua função e o Marrocos venceu por 1 a 0. O resultado coloca marroquinos e brasileiros em situação de disputa direta pela liderança do Grupo C na última rodada — os dois somam vitórias na segunda rodada após empate na estreia entre si.

O que o árbitro da próxima rodada precisa saber

O episódio Diop-Adams vai pesar no debate sobre o nível da arbitragem nesta Copa do Mundo 2026. Não é a primeira vez que uma decisão controversa no Grupo C gera ruído — e a tendência é que o escrutínio aumente à medida que as partidas ficam mais decisivas. Para a Escócia, o dano já foi feito: um possível 1 a 1 no intervalo poderia ter mudado completamente a dinâmica do segundo tempo.

O Brasil enfrenta a Escócia na quarta-feira, dia 24 de junho, às 19h (horário de Brasília), em Miami. Para os escoceses, é tudo ou nada — e Clarke vai chegar ao confronto com uma raiva específica guardada no bolso. Para os brasileiros, comandados por Carlo Ancelotti, a missão é confirmar a liderança do grupo e chegar ao mata-mata com moral. A Escócia, com um xG cronicamente abaixo do esperado e um episódio de arbitragem ainda na cabeça, vai precisar de uma atuação muito acima do que mostrou contra o Marrocos.