R$ 654 milhões em dívidas bancárias. R$ 2 bilhões no total. Prejuízo líquido de R$ 310 milhões — ou R$ 882 milhões se incluído o impairment contábil. O balanço financeiro do Atlético-MG divulgado em 30 de abril de 2025 é o retrato de uma SAF pressionada, com receita crescendo mas custos correndo mais rápido.
Como a dívida chegou a esse nível
O endividamento bancário do Galo saltou de R$ 507 milhões para R$ 654 milhões em um ano — alta de quase 29%. Somado ao passivo tributário (R$ 487 milhões), às obrigações da Arena MRV (R$ 383 milhões) e aos débitos com compra de atletas (R$ 243 milhões), o clube chega a uma dívida bruta acima de R$ 2 bilhões.
A dívida onerosa — aquela que inclui encargos financeiros, somando bancos e estádio — já ultrapassa R$ 1 bilhão. O passivo da Arena MRV, por sinal, caiu pelo segundo ano consecutivo, mas o alívio nesse fronte não compensou o crescimento nas demais frentes.
O prejuízo de R$ 882 milhões apresentado nas demonstrações financeiras assustou, mas a administração do clube foi rápida em contextualizar o número. A maior parte — R$ 572 milhões — vem de uma perda por impairment, reconhecida após laudo da consultoria independente LCA Consultores, datado de 30 de novembro de 2025.
"Tal efeito possui natureza não financeira e pontual", explicou a administração do Atlético-MG nas notas explicativas do balanço, justificando por que considera o prejuízo real do exercício em R$ 310 milhões.
A avaliação da LCA usou metodologia de fluxo de caixa descontado (FCFF) e concluiu que o valor recuperável dos ativos do Departamento de Futebol ficou abaixo do valor contábil registrado — daí o reconhecimento do impairment de R$ 572,16 milhões no resultado do exercício.
Receita recorde não foi suficiente
O Atlético registrou receita bruta de R$ 768 milhões em 2025, crescimento de 14% sobre 2024 — mesmo sem disputar a Libertadores. Direitos de transmissão geraram R$ 282 milhões, venda de atletas contribuiu com R$ 203 milhões e as explorações comerciais somaram R$ 139 milhões.

O problema está no outro lado da equação. Os custos operacionais consumiram R$ 461 milhões e os investimentos no futebol chegaram a R$ 181 milhões — totalizando R$ 642 milhões em despesas antes de outros encargos financeiros. O resultado operacional ficou negativo em cerca de R$ 3 milhões. A receita líquida de R$ 727 milhões foi insuficiente para cobrir o peso financeiro acumulado.
O desempenho esportivo irregular pesou no cálculo. O clube foi vice da Copa Sul-Americana, campeou o Mineiro, mas terminou o Brasileirão em 11º lugar e caiu nas quartas de final da Copa do Brasil — longe dos bônus de premiação que engordaram o caixa em 2024, quando o time disputou finais continentais e nacionais.
A saída está no aporte de R$ 500 milhões
A principal alavanca para reverter o cenário financeiro é o aporte de R$ 500 milhões que o próprio clube sinaliza nos documentos — recurso destinado a abater parcela relevante da dívida bancária, que hoje representa o bloco de maior custo financeiro no passivo atleticano.
A análise do SportNavo mostra que, mesmo com o aporte, o Galo ainda carregaria cerca de R$ 154 milhões em dívida bancária residual, sem contar os passivos tributários e as obrigações com a Arena MRV. O caminho real para a sustentabilidade passa por três vetores simultâneos: controle de custos operacionais, crescimento consistente nas vendas de atletas e manutenção das receitas comerciais da arena.
"A dívida líquida chegou a R$ 1,77 bilhão, alta de 29,4% em relação a 2024", confirmou o clube no comunicado oficial do balanço, registrando um salto de R$ 406 milhões em apenas um exercício.
O contexto de afastamento de Rafael Menin, dono da SAF, adiciona uma camada de incerteza à governança. Sem um nome definido no comando executivo e com dívida crescente, as decisões sobre venda de ativos e renegociação bancária ficam mais lentas — justamente quando o clube precisaria agir com velocidade.
O impacto no futebol começa agora
Dívida alta não é apenas número contábil — ela comprime o espaço para contratar. Com R$ 243 milhões já comprometidos em débitos por compra de atletas anteriores, a margem para novas aquisições relevantes em 2025 é estreita. A saída de Hulk, que treina com o elenco enquanto aguarda definição, e a chegada aguardada do técnico Bracks a Belo Horizonte para reunião definitiva mostram que o clube está no meio de uma reestruturação ampla, dentro e fora de campo.
O Atlético-MG volta a campo pelo Campeonato Mineiro e pelo início do Brasileirão 2025 nas próximas semanas. O desempenho esportivo de agora vai definir diretamente o acesso à Libertadores — e a receita de R$ 282 milhões em direitos de transmissão registrada em 2025 pode crescer significativamente caso o clube retorne à competição continental em 2026, aliviando parte da pressão sobre as contas.








