24 anos de distância separam a cabeçada de Djalminha no técnico Javier Irureta, em um treino do La Coruña em 2002, da decisão de Carlo Ancelotti de deixar Estêvão, João Pedro e Thiago Silva fora da lista dos 26 convocados para a Copa do Mundo de 2026 — e o que une esses dois momentos não é apenas o drama, mas a percepção de que nenhuma convocação para a Seleção Brasileira chega ao público sem uma ferida aberta. O anúncio foi feito na segunda-feira (18) no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, e em menos de uma hora as ausências já dominavam o debate nacional.

A cabeçada que custou uma Copa e o corte que virou lenda

Djalminha era um dos nomes mais cotados para integrar o elenco pentacampeão de 2002. Meia de qualidade técnica rara, havia consolidado carreira no futebol espanhol pelo Deportivo de La Coruña — o mesmo clube onde, poucos dias antes de Luiz Felipe Scolari fechar sua lista, protagonizou um episódio que encerrou qualquer chance: uma cabeçada no técnico Irureta durante um treino. Felipão não precisou pensar duas vezes. O comportamento custou a vaga, e Djalminha jamais disputou uma Copa do Mundo. Naquele mesmo torneio, um jovem de 20 anos chamado Kaká era convocado ao lado dos colegas de São Paulo Rogério e Belletti.

"Foi uma festa no CT, três jogadores do São Paulo convocados para uma Copa, eu com 20 anos. Uma época muito emocionante da minha vida", recordou Kaká em entrevista à GQ Brasil.
Enquanto Djalminha assistia de casa, Kaká embarcava para o Japão e a Coreia do Sul rumo ao penta.

Romário, por sua vez, carrega uma cicatriz diferente: foi cortado da Copa de 1998 por uma lesão muscular na panturrilha, dias antes do início do torneio na França. O Baixinho havia sido peça central no título de 1994 nos Estados Unidos, com quatro gols em sete jogos, e era esperado como liderança ofensiva quatro anos depois. A lesão não deixou escolha. Em 2002, a ausência foi deliberada — Felipão alegou que o perfil de Romário não se encaixava no coletivo que pretendia montar. Até hoje, a decisão divide opiniões com a mesma intensidade de quando foi tomada.

O padrão que se repete de Copa em Copa

A lista de ausências que chocaram o Brasil é longa o suficiente para preencher uma seleção inteira. Alex, meia que brilhou no Palmeiras e no Cruzeiro no início dos anos 2000, ficou de fora em 2002 e 2006 — não por falta de qualidade, mas porque disputava espaço com Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo, uma geração que não deixava brechas. Marcelinho Carioca, um dos jogadores mais populares do Brasil nos anos 90, perdeu as Copas de 1998 e 2002. Em entrevista à CNN Esportes, o meia chegou a afirmar que recusar uma proposta do Cruzeiro em 2000 teria irritado a comissão técnica. Adriano, artilheiro da Copa América de 2004 com cinco gols, estava fora da lista de Dunga para 2010 — o técnico foi explícito sobre questões de disciplina em entrevista à ESPN.

O SportNavo mapeou essas ausências ao longo de seis décadas de Copas e o padrão que emerge é sempre o mesmo: critérios técnicos, comportamentais e relacionais se embaralham, e o torcedor raramente recebe uma explicação completa. Em 2026, Ancelotti optou pelo silêncio tático — nenhuma declaração pública explicou por que Estêvão, que chegou ao Chelsea por cerca de 35 milhões de euros e se tornou titular do clube inglês com apenas 18 anos, ficou fora de uma Copa disputada em casa, no continente americano.

Estêvão, João Pedro e Thiago Silva numa mesma lista de ausentes

Colocar Estêvão, João Pedro e Thiago Silva na mesma sentença já diz muito sobre a amplitude do corte. São três perfis radicalmente distintos: Estêvão, 18 anos, é a maior promessa do futebol brasileiro desde Endrick; João Pedro, atacante do Brighton que marcou 14 gols na Premier League 2025/2026, vinha em sua melhor fase na carreira; Thiago Silva, aos 41 anos, representaria o encerramento de um ciclo histórico — o zagueiro foi campeão da Champions League pelo Chelsea em 2021 e capitão da Seleção por mais de uma década. A ausência de cada um tem motivações distintas, mas o efeito sobre o torcedor é o mesmo que sentiu em 1998 quando Romário não embarcou para Paris.

Ancelotti herdou um Brasil que não conquista uma Copa desde 2002 — 24 anos de espera que pesam em cada convocação, em cada corte, em cada nome que fica para trás. A lista dos 26 reflete escolhas de um treinador que prefere experiência coletiva a talentos individuais ainda em consolidação, o mesmo raciocínio que Felipão usou para deixar Romário em casa e ganhar o mundo com um time que jogava junto.

O que a história diz sobre quem fica de fora

Nem todo corte vira tragédia. Kaká foi convocado para 2002 com 20 anos, exatamente a idade que Estêvão tem agora, e voltou campeão. A diferença é que Kaká entrou na lista — Estêvão não. Mas o futebol tem memória longa: Ronaldo ficou fora da Copa de 1994 por decisão de Carlos Alberto Parreira, que o considerou jovem demais, e voltou em 1998 para ser o artilheiro do torneio. O precedente existe, e a Copa de 2030 já está no horizonte.

O Brasil estreia na Copa do Mundo de 2026 no dia 13 de junho, contra o México, no SoFi Stadium, em Los Angeles — e os 26 convocados de Ancelotti terão menos de quatro semanas de preparação para provar que as ausências polêmicas foram a escolha certa.