Confesso: eu subestimei Charles Oliveira quando ele perdeu o cinturão para Islam Makhachev em Abu Dhabi, em outubro de 2022. Achei que a narrativa do goiano — do menino de Guarujá que superou doença degenerativa para se tornar campeão — havia chegado ao seu capítulo final. Hoje, vendo-o de pé no Prudential Center, em Newark, com o cinturão BMF na cintura e os holofotes apontados para ele durante o UFC 328, entendo que errei feio na leitura.

A declaração que moveu a divisão peso-leve neste sábado

Foi durante o UFC 328, realizado em Newark, Nova Jersey, neste sábado (9), que Do Bronx concedeu entrevista à Paramount+ e jogou a frase que todo fã brasileiro queria ouvir. Questionado sobre o UFC Casa Branca — evento que terá Ilia Topuria defendendo o cinturão peso-leve contra Justin Gaethje — o brasileiro não fugiu do assunto.

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"Sendo bem verdadeiro, creio que sim, que sou o próximo desafiante. Tem muita coisa para acontecer. Tudo vai abrir depois que passar a Casa Branca. Mas estou vivendo meu hype, campeão BMF, mas tenho certeza que sou o próximo", disse Charles Oliveira.

A afirmação não é apenas bravata. Oliveira chegou ao cinturão BMF ao derrotar Michael Chandler em dezembro de 2023, em uma das lutas mais violentas do ano — uma guerra de três rounds que terminou com o brasileiro levantando o título honorário que pertencia a Jorge Masvidal. Desde então, construiu um argumento silencioso, mas robusto, para estar na fila de desafiantes da divisão dos leves.

O mapa da divisão antes e depois do Casa Branca

Topuria conquistou o cinturão peso-leve ao nocautear Arman Tsarukyan em fevereiro de 2025, tornando-se campeão de duas divisões depois de ter dominado os penas. A defesa contra Gaethje no UFC Casa Branca representa o primeiro teste real do georgiano na nova categoria. Do Bronx observa essa disputa com interesse direto: quem ganhar, ele já se coloca como oposição natural.

O cartel de Oliveira na divisão peso-leve fala por si. O brasileiro acumula 12 vitórias consecutivas na categoria antes de perder o cinturão para Makhachev — sequência que inclui nomes como Tony Ferguson, Michael Chandler (primeira vez), Dustin Poirier e Beneil Dariush. Após a derrota em Abu Dhabi e um revés posterior para Makhachev na revanche, o brasileiro recalibrou sua rota e encontrou no cinturão BMF uma forma de manter relevância e ranking sem precisar de uma luta de título imediata. Não há tragédia nesse caminho: há contabilidade.

No ranking atual dos pesos-leves do UFC, Oliveira figura entre os cinco primeiros, posição que sustenta sua argumentação de desafiante. Gaethje, caso perca para Topuria, provavelmente sai da fila. Arman Tsarukyan, que já foi derrotado pelo campeão, precisaria de pelo menos uma vitória expressiva para voltar à conversa. O cenário, olhando friamente, converge para o brasileiro.

São Paulo em outubro e o apetite de Do Bronx por um palco em casa

A segunda bomba da entrevista veio quando Charles tocou no assunto que mobiliza o fã brasileiro há meses: um possível evento do UFC no Brasil ainda em 2026. O Ultimate planeja realizar dois cards em território nacional, mas sem confirmação oficial até o momento. Do Bronx, que captou os rumores pelos bastidores, não escondeu o interesse.

"Fiquei sabendo que vai ter em São Paulo, em outubro, não sei se é verdade, escutando pelo alto, mas quem sabe, se precisar de mim para lotar a casa de novo, pode me chamar", comentou o lutador.

O histórico de Do Bronx no Brasil diz tudo sobre o peso dessa declaração. Em janeiro de 2023, no UFC 283 realizado no Rio de Janeiro, o brasileiro derrotou Beneil Dariush por decisão unânime diante de uma arena lotada que cantou seu nome durante os três rounds. A capacidade de mover ingressos e audiência no país é um argumento tão válido quanto o cartel dentro do octógono — e o UFC sabe disso.

Sobre o calendário, Charles foi direto ao sinalizar uma janela de retorno. "Quando falo em descansar, nem sei, só estou pingando de um lado para o outro desde o título. Acredito que do nada podem me chamar, mas agosto, setembro, outubro...", disse o lutador, mapeando os meses que ele projeta como possíveis datas para sua próxima aparição no octógono.

A lógica é simples: se o UFC Casa Branca acontecer até o final de julho, o novo campeão — seja Topuria saindo vitorioso ou Gaethje reconquistando o ouro — precisaria de pelo menos 90 dias para a próxima defesa. Isso coloca uma potencial disputa de título em outubro ou novembro. Um evento em São Paulo nessa janela, com Do Bronx como desafiante, seria a equação perfeita de audiência, narrativa e receita para a organização.

O próximo passo concreto para Charles Oliveira é aguardar o resultado do UFC Casa Branca e a movimentação da organização em relação ao ranking dos leves. Se o UFC confirmar o evento em São Paulo para outubro — informação que ainda circula nos bastidores sem chancela oficial —, o brasileiro já avisou que está disponível, motivado e com o cinturão BMF como passaporte para a fila. Está pronto — falta o palco.