O nome chegou à lista de convocados de Carlo Ancelotti em 26 de maio de 2025 e poucos no Brasil sabiam exatamente quem era. Alexsandro Ribeiro, zagueiro de 192 cm que usa a camisa 4 do Lille, havia cruzado o Atlântico sem alarde, passado por divisões inferiores de Portugal e construído uma reputação sólida na Ligue 1 quase em silêncio. Mas o silêncio, neste caso, sempre foi estratégico.

Início de carreira

Duque de Caxias não costuma aparecer nas histórias de sucesso do futebol europeu — e é exatamente por isso que a de Alexsandro importa. Nascido em 9 de agosto de 1999 no bairro Jardim Gramacho, o mais velho de cinco irmãos, ele chegou às categorias de base do Flamengo em 2014 com a ambição natural de quem cresceu vendo o clube vencer. Ficou até dezembro de 2016 — dois anos e meio que moldaram sua visão defensiva, mas não garantiram continuidade. O que veio depois foi o tipo de percurso que o futebol raramente romantiza enquanto acontece: testes frustrados no Botafogo, no Fluminense e no Vasco da Gama, antes de encontrar espaço no Resende em 2017.

Quem conhece a história dos zagueiros brasileiros que fizeram carreira na Europa sabe que a rota raramente é direta. Thiago Silva passou pelo Juventude e pelo Fluminense antes de chegar ao Milan em 2009; David Luiz rodou pelo Benfica antes de explodir no Chelsea. Alexsandro seguiu lógica parecida: Portugal como trampolim, especificamente a segunda divisão portuguesa, onde em 2021-22 foi eleito para a Equipe da Temporada da Liga Portugal 2 e conquistou o prêmio de Defensor do Mês de janeiro de 2022. São distinções modestas no mapa do futebol global, mas funcionam como o primeiro carimbo num passaporte que depois vai encher de páginas.

Números que importam

Uma partida disputada na temporada atual do Lille — e esse número, aparentemente irrelevante, conta uma história que vai além da estatística. O contexto da seleção brasileira explica parte do quadro: convocado pela primeira vez em maio de 2025 por Ancelotti, Alexsandro passou meses de 2026 sendo monitorado de perto, com aparições na imprensa que oscilaram entre o elogio e a cobrança. Em maio de 2026, uma falha no segundo gol do Vasco numa partida pela seleção expôs a fragilidade que qualquer zagueiro jovem carrega — a de que um erro num palco maior tem peso desproporcional à sua frequência.

Para contextualizar: quando Fabio Cannavaro tinha 26 anos, em 1999, ainda construía sua reputação no Parma antes de se tornar o melhor zagueiro do mundo seis anos depois. Quando Carles Puyol tinha a mesma idade, em 2002, disputava sua primeira Copa do Mundo com a Espanha sem que ninguém ainda soubesse que ele seria o arquiteto de uma geração histórica. Aos 26 anos, zagueiros costumam estar no meio de uma obra — não no fim. Os números de Alexsandro nesta temporada são ainda escassos para julgamento definitivo, o que torna qualquer veredicto prematuro e, portanto, desonesto.

Estilo de jogo

192 centímetros que não servem apenas para disputar bolas aéreas — servem para impor presença numa linha defensiva que precisa de referência física. O perfil de Alexsandro remete ao modelo de zagueiro europeu moderno que o futebol foi buscar nos anos 2000 e consolidou na última década: alto o suficiente para dominar o jogo aéreo, mas com mobilidade para acompanhar atacantes velozes em espaço aberto. Na Ligue 1, onde times como PSG e Monaco exigem que defesas adversárias sejam compactas e rápidas na transição, esse equilíbrio tem valor concreto.

Início de carreira Do Jardim Gramacho à seleção brasileira
Início de carreira Do Jardim Gramacho à seleção brasileira

Sua formação no Flamengo — mesmo que incompleta do ponto de vista institucional — deixou traços na leitura de jogo posicional que clubes brasileiros ensinam melhor do que qualquer academia europeia dos anos 2010. O período em Portugal, por sua vez, adicionou a disciplina tática que a segunda divisão portuguesa, competitiva e fisicamente exigente, cobra com rigor. Quando chegou ao Lille, encontrou um clube com histórico de revelar e polir zagueiros — basta lembrar que foi de lá que Boubakary Soumaré e outros saíram para grandes ligas. A combinação não é acidental.

Conquistas e momentos marcantes

A convocação de maio de 2025 foi o divisor de águas — não porque mudou o jogador, mas porque mudou a forma como o Brasil passou a olhar para ele. Alexsandro se tornou o primeiro jogador do Lille a ser chamado para a seleção brasileira, um feito que tem peso simbólico considerável num clube que, apesar de seu prestígio na Ligue 1, raramente aparece no radar dos técnicos da Canarinho. O fato de Ancelotti — um treinador que conhece zagueiros de elite como poucos, tendo dirigido Cannavaro, Maldini, Nesta e Chiellini ao longo da carreira — ter incluído Alexsandro na lista diz algo sobre o que o italiano enxergou no defensor.

No plano individual, os prêmios da Liga Portugal 2 em 2021-22 — a inclusão na Equipe da Temporada e o título de Defensor do Mês em janeiro — representam o momento em que Alexsandro deixou de ser promessa para se tornar referência dentro de um contexto específico. São conquistas que nenhum título europeu vai apagar da biografia, porque marcam a virada entre anonimato e reconhecimento. Em abril de 2026, a imprensa brasileira já especulava sobre seu encaixe no sistema defensivo do Flamengo e sobre seu papel como possível surpresa de Ancelotti na Copa — dois indicadores de que o nome saiu definitivamente da margem para o centro do debate.

O que esperar daqui pra frente

Os próximos doze meses serão o teste mais honesto que Alexsandro já enfrentou — e ele sabe disso. Com a Copa do Mundo de 2026 no horizonte e Ancelotti construindo uma seleção brasileira que ainda busca identidade defensiva, a janela para um zagueiro de 26 anos se consolidar como titular é real, mas estreita. A concorrência na posição é densa — o Brasil nunca teve escassez de zagueiros de qualidade — e qualquer tropeço em campo, como a falha diante do Vasco em maio, alimenta narrativas que podem se fixar com rapidez injusta.

No Lille, a regularidade será o critério mais importante. Uma temporada europeia consistente, com participações frequentes e desempenho sólido na Ligue 1, tem o poder de silenciar dúvidas que o debate midiático amplifica. Clubes maiores da Premier League ou da Serie A já observam o mercado francês com atenção — e zagueiros de 192 cm com passaporte brasileiro e experiência europeia não ficam esquecidos por muito tempo nas prateleiras do mercado.

A história de Alexsandro Ribeiro lembra a de um bom vinho de terroir desconhecido: demorou a chegar às mesas certas, mas quem provou antes dos outros já sabia do que se tratava. Agora o rótulo está à vista — e o que está dentro do copo ainda tem anos para ganhar profundidade.