Confesso: eu subestimei Carlos Prates em 2024. Achei que o estilo dele era bom o suficiente para vencer lutas medianas no UFC, mas não para desmontar ex-campeões. Estava errado. E hoje, depois de Perth, entendo exatamente o porquê.
No RAC Arena, em 2 de maio de 2026, Prates nocauteou Jack Della Maddalena no terceiro round. Não foi uma vitória apertada. Não foi sorte. Foi destruição sistemática contra um lutador que, até aquela noite, nunca havia sido parado por nocaute no UFC.
Quem se beneficia diretamente
O principal beneficiado é o próprio Prates — e o argumento dele na coletiva pós-evento é difícil de contestar. Dois ex-campeões ou desafiantes ao título. Dois nocautes. Leon Edwards nunca havia sido parado antes. Della Maddalena, idem.
"Ninguém venceu dois campeões da mesma forma. Eles nunca haviam sido nocauteados e eu fui lá e fiz parecer fácil. Contra o Jack e o Leon, fiz parecer fácil, e eu sou o próximo", declarou Prates na coletiva do UFC Perth.
Esse argumento tem peso estatístico. No meio-médio do UFC, nocautear dois ex-detentores do cinturão em sequência é feito que nenhum outro lutador do ranking atual pode apresentar. A análise do SportNavo sobre os últimos 24 meses da divisão confirma: nenhum dos cinco primeiros colocados tem sequência comparável em termos de qualidade de oponentes finalizados.
O reaching de Prates — 193 cm — funciona como ferramenta ofensiva central. Ele usa a distância para manter adversários no alcance do jab longo e do cruzado de direita, que foi o golpe determinante contra Edwards. Contra Della Maddalena, a leitura de timing foi ainda mais precisa: o australiano tem tendência de avançar com a cabeça reta, e Prates explorou isso durante os três rounds.
Quem perde
Michael Morales é o nome que sai enfraquecido na corrida pelo title shot. O equatoriano também vem em sequência positiva no meio-médio, mas Prates foi cirúrgico ao apontar a diferença entre os currículos: Morales ainda não derrotou nenhum ex-campeão da categoria. Essa distinção importa quando o UFC precisa montar o card de uma disputa de cinturão.
Ian Machado Garry também entra numa posição ambígua. O irlandês de raízes brasileiras é o único a ter derrotado Prates — vitória que aconteceu em 2025 — e aparece como favorito para desafiar Islam Makhachev pela faixa dos meio-médios em meados de 2026. Se Garry vencer Makhachev, a revanche com Prates vira luta pelo cinturão. Se perder, o cenário muda completamente e Prates pode ser chamado antes do esperado.
"Ele me ligou há um mês e meio. A gente falou sobre a vida, sobre luta, e ele me disse que eu tinha que vencer o Della Maddalena, e aí ele venceria o Islam e a gente faria a revanche no Brasil", revelou Prates sobre sua conversa com Garry.
O efeito dominó nas próximas semanas
O UFC precisa definir o desafiante ao cinturão dos meio-médios antes de escalar Makhachev para a defesa prevista para o meio do ano. Garry segue como favorito para esse slot, mas a performance de Prates em Perth aumenta a pressão sobre a organização.
Há três cenários possíveis agora. Primeiro: Garry desafia Makhachev, vence, e Prates espera pela revanche com o cinturão em jogo — o sonho que os dois discutiram por telefone. Segundo: Garry perde para Makhachev, e Prates entra como próximo desafiante com base no ranking e no currículo recente. Terceiro: o UFC escala Prates contra Garry antes da luta pelo título, para resolver a questão da derrota de 2025 e criar um desafiante indiscutível.
A wrestling defense de Prates também evoluiu. Nos últimos três confrontos, ele não foi levado ao chão uma única vez de forma efetiva — dado relevante quando se pensa em enfrentar Makhachev, cujo jiu-jítsu e wrestling são a base do jogo. Ainda há uma lacuna técnica ali, mas ela diminuiu.
O quadro geral que se desenha
A divisão dos meio-médios do UFC em 2026 tem três nomes acima de todos os outros: Makhachev, Garry e agora Prates. O brasileiro tem striking stats superiores aos de qualquer outro lutador fora o campeão — taxa de nocaute acima de 70% nas vitórias no UFC, precisão de golpes significativos consistentemente acima de 50% nos últimos quatro combates.
O currículo sustenta a exigência. Dois ex-campeões nocauteados. Nenhuma derrota desde 2025. Sequência de desempenho crescente. A única variável que Prates não controla é a ordem que o UFC vai impor — e aí entra a política da organização, que nem sempre segue lógica esportiva pura.
"Claro que ainda tenho uma coisa com o Ian, porque ele me venceu e eu não gostei. A gente se respeita e vive se falando", admitiu Prates, deixando claro que a derrota de 2025 ainda é uma conta aberta.
A próxima movimentação concreta deve acontecer nas semanas seguintes ao UFC Perth, quando a organização anunciará o card de junho ou julho com a defesa de Makhachev. Se Garry for confirmado como desafiante, Prates aguarda na fila com o argumento mais sólido do ranking. É o mesmo cenário que Dustin Poirier viveu em 2021 — esperou, acumulou vitórias sobre grandes nomes, e quando chegou sua vez, chegou com credencial incontestável. Só que agora a aposta é diferente: Prates já tem a sequência que Poirier levou anos para construir.








