Dois homens se odeiam de verdade e, por isso, o UFC 328 é o evento mais assistido da temporada. O paradoxo é esse: quanto mais a rivalidade entre Khamzat Chimaev e Sean Strickland desceu o nível, mais o interesse do público subiu. Newark, Nova Jersey, recebe neste sábado (9) uma disputa pelo cinturão dos pesos-médios (84 kg) que já custou à organização um esquema de segurança digno de escolha presidencial — e ainda assim ninguém quis cancelar.

De parceiros de treino a ameaças com arma de fogo em Newark

Chimaev e Strickland não são estranhos. Foram companheiros de treino antes de se tornarem desafetos declarados — e essa origem comum tornou as provocações muito mais venenosas do que o padrão do hype pré-luta. O russo, invicto com 15 vitórias em 15 lutas no MMA profissional, escalou o tom ao afirmar que um eventual confronto fora do octógono poderia terminar de forma trágica para o americano. Não foi metáfora esportiva.

Strickland, entusiasta público de armas de fogo e ex-campeão dos médios que perdeu o título para Dricus Du Plessis por decisão dividida em 2024, respondeu sem rodeios: disse que atiraria em Chimaev caso ele e seus parceiros de equipe tentassem atacá-lo antes da luta. Chimaev, sem recuar um milímetro, afirmou que "ficaria feliz em morrer" — e incitou o rival a agir.

"Ficaria feliz em morrer", declarou Chimaev ao ser questionado sobre as ameaças de Strickland com arma de fogo na semana do UFC 328.

Quando duas pessoas trocam esse tipo de declaração em público, você para de analisar striking stats por um segundo e reconhece que o problema saiu do esporte. O UFC reconheceu isso também — e agiu.

O esquema policial que o UFC montou para que a luta acontecesse

A organização separou os lutadores em hotéis diferentes em Newark, uma medida incomum mesmo para eventos de grande porte. Além disso, montou presença massiva de policiais nos bastidores do Prudential Center — prática descrita por fontes ligadas ao evento como rara nesse meio. O objetivo era garantir que Chimaev e Strickland só se encontrassem dentro do octógono, com árbitro, médico e câmeras ligadas.

O brasileiro Marco Tulio, escalado para o card e hospedado no mesmo hotel dos lutadores, relatou que o clima nos corredores era de tensão constante — um efeito colateral que afetou atletas que não têm nada a ver com a briga principal. Quando a rivalidade de dois cabeças de cartaz contamina o ambiente de trabalho de outros profissionais, o limite esportivo já foi ultrapassado.

"O clima era tenso", relatou Marco Tulio sobre o ambiente no hotel dos lutadores durante a semana do UFC 328, segundo apuração do SportNavo.

Como diz o ditado popular, quem não tem cão caça com gato — e o UFC, sem poder contar apenas com o bom senso dos protagonistas, caçou com segurança reforçada e logística de guerra fria para chegar até o gongo inicial.

O que os números dizem sobre o confronto técnico

Quando faz wrestling, Chimaev é um pesadelo categórico: 100% de takedown accuracy em três das últimas cinco lutas, com sequências de ground-and-pound que nenhum adversário conseguiu interromper de forma consistente. O reach de 190 cm e a base de luta livre tchetchena tornam qualquer tentativa de manter a luta em pé uma aposta arriscada.

Quando faz pressão de frente, Strickland é igualmente difícil de parar: volume de 9,4 significativas por minuto na média da carreira, defesa de wrestling acima de 72% e um queixo que já absorveu pancadas de Alex Pereira e Jared Cannonier sem cair. Seu estilo boxeador, heterodoxo e imprevisível, já desestabilizou lutadores tecnicamente superiores na análise pré-luta.

A variável que não aparece em nenhuma planilha é o estado mental de ambos após uma semana de ameaças reais. Chimaev entrou em confrontos anteriores com frieza clínica — a luta contra Kamaru Usman, por exemplo, foi dominada de ponta a ponta sem qualquer sinal de agitação. Strickland, ao contrário, performa melhor quando está emocionalmente engajado: contra Israel Adesanya, em setembro de 2023, usou a raiva como combustível durante cinco rounds inteiros para conquistar o cinturão por decisão unânime.

Quem sai perdendo e o que muda na divisão dos médios depois disso

Se Chimaev vencer — e minha análise aponta para isso, dado o volume de wrestling e a superioridade física —, a divisão dos médios ganha um campeão que já demonstrou interesse em subir para os meio-pesados. Isso abre espaço imediato para uma corrida de contendores que inclui Du Plessis, Robert Whittaker e o próprio Strickland numa eventual revanche.

Se Strickland surpreender, o UFC tem nas mãos um campeão com apelo comercial gigantesco — polêmico, imprevisível e sempre disposto a gerar pauta. O problema é que a próxima semana de divulgação de qualquer luta dele pode exigir o mesmo aparato policial de Newark, com custos operacionais e riscos que a organização claramente preferiria evitar.

O UFC 328 começa às 18h (horário de Brasília) com transmissão ao vivo e na íntegra pela Paramount+. A luta principal entre Chimaev e Strickland pelo cinturão dos 84 kg está prevista para o horário nobre do card, com ambos os lutadores saindo de hotéis separados pela última vez antes de dividir o mesmo octógono no Prudential Center.