Os comissários ainda estavam com o paquímetro na mão quando a notícia vazou nos boxes do Autodrome Internacional de Miami: o RB22 de Isack Hadjar não passou na verificação técnica pós-qualifying. O assoalho do carro foi medido com 2 milímetros acima da dimensão máxima permitida pelo regulamento técnico de 2026 — detalhe aparentemente insignificante que, dentro das regras da FIA, pode custar ao francês de 20 anos toda a posição conquistada na classificação.
Hoje: o que já é fato
O documento oficial dos comissários aponta que, durante o scrutineering pós-classificação, o assoalho do RB22 foi encontrado protuberante em 2 mm além da dimensão definida no artigo pertinente do regulamento técnico 2026. A Red Bull foi notificada e Hadjar está sob risco de exclusão do qualifying — o que, na prática, significaria largar do fundo do grid na corrida principal do domingo. Segundo apuração do SportNavo, a equipe austríaca já trabalha na preparação de uma contestação formal, mas o histórico de punições similares na F1 moderna raramente favorece a escuderia infratora quando a não-conformidade é medida com instrumento calibrado.
"Após o qualifying, questões de legalidade foram levantadas em relação ao assoalho do carro número 6", comunicou a FIA em nota técnica oficial distribuída nos boxes de Miami.
Para contextualizar a rigidez da regra: o regulamento técnico de 2026 redesenhou completamente a geometria dos assoalhos, introduzindo o conceito de undercut window — a faixa milimétrica em que o fundo plano pode operar sem gerar efeito de sucção irregular. Qualquer excesso nessa dimensão, mesmo que 2 mm, altera o coeficiente de downforce de forma não homologada, o que justifica a severidade da penalidade… e aí vem o problema.
Esta semana: o que se desdobra
A audiência dos comissários deve ocorrer ainda neste sábado (2), com decisão esperada antes da publicação do grid oficial de largada. Se a exclusão for confirmada, Hadjar — que estreou na F1 em 2026 com a missão de ser o segundo pilar da Red Bull ao lado de Max Verstappen — perderia não apenas posições no grid, mas pontos valiosíssimos num campeonato em que a equipe austríaca acumula pressão crescente.
Os números da temporada 2026 da Red Bull até Miami são reveladores. A análise do SportNavo mostra que a equipe apresenta os seguintes indicadores preocupantes:
- Delta médio por volta em relação ao líder do campeonato de construtores: +0,18 s — o pior índice da era do novo regulamento para a equipe
- Taxa de conversão de poles em vitórias em 2026: 0% para Hadjar nas primeiras etapas
- Posição no campeonato de construtores: fora do top-2, algo inédito para a Red Bull desde 2018
- Número de incidentes técnicos ou regulamentares acumulados no ano: este é o terceiro envolvendo o RB22
"A Red Bull precisa de pontos limpos, sem controvérsia. Cada irregularidade técnica agrava a narrativa de que o projeto 2026 ainda não está maduro", avaliou um engenheiro de outra equipe que pediu anonimato à imprensa credenciada em Miami.
Para quem não é familiarizado com a métrica de ERS deployment window — o intervalo de acionamento do sistema de recuperação de energia elétrica introduzido com força em 2026 —, a relação com o assoalho pode parecer distante. Não é: um assoalho 2 mm mais alto altera o rake do carro (o ângulo entre frente e traseira), o que por sua vez muda o ponto ótimo de acionamento do ERS em curvas de alta velocidade. Em outras palavras, o carro que passou na pista talvez não fosse exatamente o carro homologado nos documentos técnicos.
Próximas 4 semanas: o que vai mudar
O GP de Miami é a quinta etapa do calendário 2026. Se a exclusão se confirmar, a Red Bull precisará recalcular sua estratégia para as próximas corridas — Mônaco (25 de maio) e Espanha (8 de junho) — com um piloto de 20 anos potencialmente abalado por uma punição que não envolve erro de pilotagem, mas falha de infraestrutura da própria equipe. Esse tipo de situação tem precedente claro: em 2014, o RB10 de Sebastian Vettel foi excluído do GP do Japão por irregularidade no sistema de combustível, e a equipe levou três corridas para recuperar o ritmo operacional.
A Red Bull já anunciou que vai revisar o protocolo de montagem e verificação dimensional do assoalho para as próximas etapas. O problema técnico específico — a protuberância de 2 mm — pode ter origem em deformação térmica do composto de fibra de carbono durante as voltas rápidas do qualifying, hipótese que a equipe estuda internamente. Se confirmada, o ajuste exigirá mudança de especificação de material, com prazo mínimo de duas semanas para homologação pela FIA.
Hadjar, que assinou com a Red Bull para 2026 após uma temporada de destaque na F2 em 2025, chega a Miami como o segundo piloto mais jovem do grid titular — 20 anos e 4 meses. É exatamente essa conta que a equipe não pode desperdiçar numa punição evitável.








