O chão de areia ainda estava molhado quando José Thaysson Medeiros da Silva parou de se mover. Eram cerca de 23h do sábado, dia 9 de maio, na ExpoUbiratã, feira agropecuária de Nova Ubiratã, no Mato Grosso. O peão de 20 anos havia perdido o equilíbrio após alguns giros do touro, ficado pendurado por uma das mãos e, em seguida, levado uma pisada direta na cabeça. A equipe médica do evento foi acionada. Ele não resistiu e morreu no local.

Dez dias antes, na noite de sexta-feira, dia 30 de abril, em Guapiaçu, interior de São Paulo, Ítalo Silva Rodrigues, 21 anos, caiu do touro e foi pisoteado no tórax. Natural de Paracatu (MG), ele acumulava títulos no circuito e compartilhava a rotina de competições nas redes sociais. Chegou inconsciente à Unidade de Emergência Municipal por volta das 23h e entrou na fila de transferência para São José do Rio Preto pelo sistema Cross. Não resistiu.

Dois acidentes, dois vídeos, um debate que não fecha Dois peões mortos em dez di
Dois acidentes, dois vídeos, um debate que não fecha Dois peões mortos em dez di

Dois acidentes, dois vídeos, um debate que não fecha

Imagens de ambos os acidentes viralizaram nas redes sociais — no caso de Guapiaçu, a câmera da transmissão ao vivo do evento registrou o momento exato do impacto. No caso de Nova Ubiratã, espectadores na plateia filmaram Thaysson ainda pendurado no animal antes da queda fatal. A Arena Dream Team, organizadora do evento mato-grossense, divulgou nota de pesar.

"O Dream Team perdeu mais que um competidor, perdeu um amigo, um irmão de arena."

A organização do rodeio em Guapiaçu, a ACR, também se manifestou, afirmando que todos os procedimentos de atendimento à vítima foram realizados e que o evento segue critérios de segurança. A Polícia Civil abriu investigação sobre as circunstâncias da morte de Ítalo.

O que os protocolos brasileiros exigem — e o que falta

O rodeio brasileiro é regulado, em parte, pela Lei Federal 10.519/2002, que estabelece normas mínimas para eventos de montaria, incluindo a presença de equipe médica e ambulância no local. O que a lei não detalha com precisão são os critérios de qualificação dessa equipe, o tempo máximo de resposta dentro da arena e os padrões de equipamento de proteção individual obrigatório para os competidores — como coletes de proteção torácica e capacetes com cobertura occipital.

Quando o SportNavo cruza os dados dos dois acidentes recentes, o padrão é perturbador: em ambos os casos, a vítima foi atingida em regiões anatomicamente críticas — tórax e crânio — e o socorro, apesar de acionado, não conseguiu reverter o quadro. Thaysson morreu ainda na arena. Ítalo morreu horas depois, sem conseguir ser transferido a tempo para um centro de alta complexidade.

O que os Estados Unidos e a Austrália fazem diferente

Para quem acompanha esportes de risco em perspectiva comparada, o contraste é revelador. A Professional Bull Riders (PBR), maior organização de rodeio do mundo, com sede nos Estados Unidos, exige uso obrigatório de colete de proteção certificado e capacete com proteção facial desde 2014 para todos os competidores profissionais. A Australian Professional Rodeo Association mantém protocolos similares, com médicos de emergência credenciados em posição fixa dentro da arena — não apenas de prontidão em tendas externas.

No Brasil, o uso de colete é amplamente difundido no circuito profissional, mas a fiscalização em eventos menores — como as festas de peão interioranas onde Thaysson e Ítalo competiam — é fragmentada e depende da iniciativa dos organizadores locais.

Investigações abertas e o próximo passo regulatório

A Polícia Civil de Cedral (SP) conduz as investigações sobre a morte de Ítalo Rodrigues. Até o fechamento desta reportagem, não havia informação sobre abertura de inquérito no caso de Thaysson em Nova Ubiratã. O Ministério da Agricultura, responsável por supervisionar eventos agropecuários como a ExpoUbiratã, não se pronunciou publicamente sobre os dois casos.

A pressão por revisão das normas tende a crescer nas próximas semanas, especialmente com os vídeos ainda em circulação e a comoção nas comunidades de peões. Uma regulamentação eficaz funciona como uma partitura bem escrita: de nada adianta existir se ninguém a executa com rigor — e o silêncio, nesses casos, não é pausa. É ausência.