77 pontos. Esse número, conquistado com a vitória por 3 a 0 sobre o Crystal Palace no Etihad Stadium nesta quarta-feira, 13 de maio, é o coração desta reta final de Premier League. Com duas rodadas ainda por disputar, o Manchester City encostou no Arsenal e transformou o que parecia uma celebração em Highbury Road numa crise de nervos de proporções inglesas.

O fantasma de Anfield e o que 1989 ensina sobre maio

Quem acompanha o futebol inglês com alguma perspectiva histórica sabe que maio é um mês cruel nessas ilhas. Em 26 de maio de 1989, o Arsenal de George Graham entrou em campo em Anfield precisando vencer o Liverpool por dois gols de diferença para ser campeão. Todo mundo deu os Reds como favoritos. Michael Thomas marcou nos acréscimos. O Arsenal levantou o troféu. A lição que esse episódio deixou é simples e brutal: no futebol inglês, a aritmética da última rodada tem vida própria, e quem parece salvo raramente está.

O paralelo com 2026 não é perfeito — paralelo histórico nunca é — mas as tensões estruturais são as mesmas. O Arsenal lidera com 79 pontos, dois a mais que o City. Nos anos 90, quando o Manchester United de Ferguson construiu sua hegemonia de 13 títulos em 21 anos entre 1993 e 2013, havia temporadas em que a diferença de dois pontos na penúltima rodada era considerada confortável. A diferença é que aquelas equipes do United tinham Cantona, Keane e Schmeichel para fechar o punho quando a pressão chegava. O Arsenal de 2026 ainda está aprendendo o que significa defender uma liderança em vez de persegui-la.

Semenyo, Marmoush e Savinho constroem o alicerce da esperança azul

A vitória sobre o Palace não foi obra do acaso. Aos 32 minutos, Antoine Semenyo girou dentro da área após ajuste de calcanhar de Phil Foden e bateu no cantinho de Henderson para abrir o placar — seu 16º gol na competição, número que o coloca entre os artilheiros mais produtivos da temporada. Oito minutos depois, Omar Marmoush aproveitou sobra de bola após cruzamento de Gvardiol para fazer o segundo. O domínio territorial foi absoluto: 72% de posse, uma estatística que remete ao City de 2017/18, quando Guardiola terminou a Premier League com 100 pontos e 79 gols marcados — até hoje o recorde de pontuação da era dos três pontos.

O terceiro gol saiu aos 84 minutos e teve sabor especial. Cherki, recém-entrado, conduziu pela direita e rolou para Savinho, que bateu de primeira para marcar seu primeiro gol na Premier League. O brasileiro, que chegou ao Etihad com a missão de substituir o legado de Bernardo Silva no lado direito, entrou para o script num momento em que cada detalhe tem peso de decisão.

"Savinho trabalhou a temporada inteira para um momento assim. Primeiro gol na Premier League justamente quando o campeonato está em aberto — isso não é sorte, é preparação", disse o técnico Pep Guardiola em entrevista após a partida.

O goleiro Gianluigi Donnarumma, por sua vez, evitou que o placar fosse ameaçado ao fazer grande defesa em chute de Mitchell logo após o 1 a 0. O italiano, experiente em decisões pela seleção e pelo PSG, parece ter trazido ao City a frieza que a defesa necessitava para momentos de pressão.

O fantasma de Anfield e o que 1989 ensina sobre maio Dois pontos e um fantasma d
O fantasma de Anfield e o que 1989 ensina sobre maio Dois pontos e um fantasma d

Os cenários que podem dar o título a um ou ao outro

Com duas rodadas restantes, a matemática oferece caminhos distintos. O Arsenal, com 79 pontos, enfrenta adversários com calendário teoricamente mais leve — o que, no futebol inglês, é um eufemismo perigoso. Na Bundesliga dos anos 2000, o Bayern de Hitzfeld aprendeu da pior forma que "adversário mais fraco" é uma categoria que desaparece quando estão em jogo seis pontos e uma taça. O City, com 77 pontos, joga contra adversários mais duros no papel, mas o histórico recente de Guardiola em reta final é o de um técnico que nunca deixa sua equipe relaxar: nas últimas quatro temporadas em que disputou o título até a última rodada, o City venceu três.

Os cenários concretos são os seguintes: se o Arsenal vencer os dois jogos restantes, é campeão independentemente do que o City faça. Se o Arsenal perder ou empatar em pelo menos uma rodada, o City pode alcançar e ultrapassar com duas vitórias. O saldo de gols, caso haja empate em pontos, favorece atualmente o Arsenal — mas a diferença é suficientemente pequena para que uma goleada do City possa embaralhar esse critério.

"Nós sabemos o que precisamos fazer. Dois jogos, seis pontos disponíveis, e vamos buscar cada um deles", declarou o capitão do City, Rodri, ao canal oficial do clube logo após o apito final desta quarta.

O peso psicológico de uma vantagem que encolheu

No futebol europeu, há um fenômeno que os treinadores italianos chamam de testa di serie — a síndrome do cabeça de chave que começa a jogar para não perder em vez de jogar para ganhar. O Arsenal de Mikel Arteta viveu algo parecido na temporada 2022/23, quando liderou a Premier League por meses e cedeu o título ao City justamente quando os jogos decisivos chegaram. Aquele Arsenal terminou com 84 pontos — número que teria vencido quase qualquer campeonato inglês das décadas de 80 e 90, mas não foi suficiente contra um City que somou 89.

Como dizem no Brasil, quem não tem cão caça com gato — e o Arsenal, sem a tranquilidade de uma vantagem confortável, precisará ser campeão do jeito mais difícil: ganhando quando a pressão pesa mais. A diferença em relação a 2022/23 é que esta equipe tem dois anos a mais de maturidade coletiva e sabe, agora, o que custa chegar perto e não segurar.

O próximo compromisso do Arsenal acontece no fim de semana, enquanto o City tem pela frente adversários que, individualmente, podem causar problemas pontuais. Com 79 pontos para o Arsenal e 77 para o City, o título inglês de 2025/26 será decidido nas últimas 180 minutos de uma temporada que já deu mais do que prometia. O City precisa de seis pontos em seis possíveis — e tem 83,3% de aproveitamento nos últimos 12 jogos para acreditar que consegue.