O paddock ainda processa o impacto. Em abril, a Fórmula 1 retirou do calendário os GPs do Bahrein e da Arábia Saudita — duas das provas de abertura de temporada que a categoria utilizou por anos como cartão de visita do esporte no Oriente Médio. A decisão, motivada pela escalada de conflitos armados na região, reduziu o campeonato de 24 para 22 corridas e abriu um vácuo tanto esportivo quanto comercial que a Liberty Media e a FOM agora tentam costurar.

O que Domenicali disse e o que isso significa

Stefano Domenicali foi direto ao ponto quando questionado sobre a possibilidade de reagendamento. O CEO da Fórmula 1 reconheceu os limites da logística global da categoria e descartou, na prática, a reposição das duas etapas simultaneamente.

"Acho que reagendar dois eventos já é bastante difícil, nosso calendário está bastante cheio. Podemos recuperar um", afirmou Domenicali, sinalizando que a prioridade será escolher entre Sakhir e Jeddah — e não tentar manter as duas.

A declaração tem peso técnico relevante. Um Grande Prêmio da Fórmula 1 não é simplesmente uma corrida marcada num circuito disponível. A logística envolve transporte de aproximadamente 1.500 toneladas de equipamentos por equipe ao longo da temporada, coordenação com fornecedores locais, acreditações de imprensa e hospitalidade corporativa — contratos que levam meses para ser firmados. Encaixar uma etapa com poucas semanas de antecedência é um exercício de pressão sobre toda a cadeia de suporte da categoria.

Onde o calendário respira — e onde não

Conforme levantamento do SportNavo, o calendário de 2026 já apresentava gargalos mesmo antes dos cancelamentos. A sequência europeia de verão — com Silverstone, Hungaroring e Spa-Francorchamps em sequência — não abre janelas. O mesmo vale para o bloco americano do segundo semestre, que inclui Austin, Cidade do México e São Paulo. As únicas janelas logisticamente viáveis giram em torno de finais de semana livres em setembro e no início de outubro, período que historicamente a categoria evita por conta do campeonato de Fórmula 2, que precisa de pistas para suas próprias etapas.

Uma possibilidade discutida internamente — ainda sem confirmação oficial — seria o retorno ao circuito de Mugello, na Itália, que já recebeu a Fórmula 1 em 2020 como corrida emergencial durante a pandemia. O traçado de 5,245 km, com suas curvas de alta velocidade na região toscana, tem infraestrutura permanente e capacidade de absorver um fim de semana de Fórmula 1 com preparação acelerada.

O impacto esportivo e o que está em jogo

Do ponto de vista da tabela de pontos, 22 corridas ainda representam um campeonato robusto — a temporada de 2019, por exemplo, teve 21 etapas e é considerada uma das mais disputadas da era híbrida. Mas a perda de Bahrein e da Arábia Saudita tem uma dimensão adicional: historicamente, Sakhir favorece carros com alta carga aerodinâmica e boa tração na saída das curvas lentas, enquanto Jeddah é um circuito de rua ultrarrápido, com média superior a 252 km/h, que testa características completamente diferentes dos chassis. Perder essas duas referências no início da temporada comprime o leque de dados que as equipes usam para calibrar seus pacotes de atualização ao longo do ano.

A análise do SportNavo mostra que equipes como Red Bull e Ferrari historicamente usavam os dados de telemetria coletados em Sakhir e Jeddah para definir a direção de desenvolvimento aerodinâmico nos primeiros dois terços da temporada. Com apenas 22 corridas e sem esses dois circuitos no início do calendário, a janela de informações para ajustes finos nos carros de 2026 — já sujeitos às novas regras de efeito solo revisado e motores de 1.6L com MGU-H modificado — ficou sensivelmente mais estreita.

A decisão que vem por aí

Domenicali indicou que uma definição sobre o reagendamento deve sair nas próximas semanas, com a FOM trabalhando em conjunto com os organizadores locais dos circuitos candidatos. Se a lógica comercial prevalecer — e na Fórmula 1 moderna ela quase sempre prevalece —, a tendência é que a etapa escolhida para voltar ao calendário seja aquela cujo contrato de televisão e patrocínio regional represente maior receita garantida. A Arábia Saudita, com seu acordo de longo prazo e o envolvimento do fundo soberano saudita no ecossistema do esporte, parte com leve vantagem nesse cálculo. A próxima reunião do Conselho Mundial do Automobilismo da FIA, prevista para o final de maio, deve bater o martelo sobre a configuração definitiva do calendário de 2026.