É uma caixa d'água furada. Você a enche, ela acumula pressão, e depois perde tudo pelo mesmo furo de sempre.
Essa é a síntese do Atlético-MG de Eduardo Domínguez na Copa Sul-Americana 2026. Na noite desta terça-feira (5/5), no Estádio Centenário de Montevidéu, o Galo abriu 2 a 0 sobre o Juventud-URU e cedeu o empate em dois minutos e meio de pesadelo defensivo — gols de Pablo Lago (aos 33 do 2º tempo) e Marcelo Pérez (41') — para terminar a rodada em terceiro lugar do Grupo B, com quatro pontos, fora até da zona de playoffs.
O vestiário que Domínguez tentou blindar acabou exposto no Centenário
O treinador argentino optou por levar o elenco principal a Montevidéu — reversão clara de estratégia em relação às rodadas anteriores, quando poupou titulares e relacionou garotos da base. O sinal era de que a Sul-Americana voltou ao radar prioritário. Domínguez repetiu o esquema com três zagueiros e a dupla Minda-Cassierra no ataque, o mesmo bloco que funcionou na vitória por 3 a 1 sobre o Cruzeiro no sábado (2/5).
Nos primeiros 36 minutos, o plano funcionou. O Juventud pressionou alto, o goleiro Everson precisou trabalhar, mas Alan Minda converteu sobra de escanteio com cobertura de fora da área para abrir o placar. No segundo tempo, Vitor Hugo completou cruzamento de Scarpa na primeira trave para fazer 2 a 0 — novamente bola parada.
Dois gols. Dois escanteios. Zero criação coletiva com a bola rolando no terço final. O padrão já é dado estatístico, não coincidência.
A vulnerabilidade aérea do Atlético virou cifra alarmante
O empate do Juventud nasceu exatamente onde o Atlético já mostrou fragilidade sistêmica ao longo de 2026. Pablo Lago descontou após cruzamento aéreo na área; Marcelo Pérez empatou da mesma forma oito minutos depois. Vitor Hugo, que marcou o segundo gol atleticano, foi o mesmo jogador que errou no lance do primeiro gol uruguaio, ao afastar mal uma bola aérea.
O dado que contextualiza a dimensão do problema: este foi o décimo jogo consecutivo do Atlético com a defesa vazada. A distância entre essa sequência e o que se esperaria de uma equipe que disputou a Libertadores em 2025 é do tamanho do trecho entre Recife e Cuiabá — extensa, visível no mapa, impossível de ignorar.
Do ponto de vista tático, o problema é estrutural. Quando o Atlético recua o bloco defensivo e adota postura de gestão de resultado, os três zagueiros perdem referência de marcação nas bolas aéreas. A linha de pressão cai, a compactação vertical se dissolve, e os espaços entre a linha de cinco defensores ficam exploráveis por cruzamentos na segunda trave. O Juventud não precisou de jogadas elaboradas. Precisou de bola longa e vontade.
"Não tropeçar na mesma pedra — se aparece algo novo, vamos em busca de soluções. Quando se comete os mesmos erros e se paga caro por isso, vamos seguir pagando caro", disse Domínguez após o apito final.
A frase do treinador é autoexplicativa e, ao mesmo tempo, autocondenatória. Ele identificou o padrão. Não o corrigiu.
A mesa de decisão do Atlético tem prazo e poucas saídas táticas
Com quatro pontos em quatro rodadas, o Galo ocupa o terceiro lugar do Grupo B. O Cienciano lidera com sete pontos; o Juventud, adversário direto desta noite, foi a cinco. Na Sul-Americana, apenas o líder de cada grupo avança diretamente para as oitavas de final. O segundo colocado disputa repescagem contra terceiros da Libertadores.
Matematicamente, o Atlético pode chegar a dez pontos — se vencer Cienciano e Puerto Cabello nas duas rodadas finais, ambas na Arena MRV. Mas qualquer tropeço do Cienciano precisa acontecer em paralelo. O cenário é administrável apenas no papel.
"Cinco minutos terminava a partida, estou com muita dor, muita dor. Se toda semana tivermos que levantar, colocar o peito, vamos fazer", completou Domínguez no pós-jogo.
A pressão da torcida já se materializou em enquetes nas redes sociais pedindo a saída do treinador. As substituições feitas no segundo tempo — Scarpa, Dudu, Reinier e Tomás Pérez entraram nos lugares de Bernard, Minda, Cassierra e Maycon — não alteraram o comportamento tático da equipe nem reforçaram a marcação das segundas bolas aéreas. O time simplesmente recuou e esperou o tempo passar.
Domínguez ainda mencionou a ausência de Hulk como fator de liderança: "Tem que aparecer novos líderes, fortaleza mental e grupal para superar a saída dele". A observação é pertinente, mas não explica falhas de posicionamento que independem de personalidade — são erros de organização defensiva que deveriam estar corrigidos após dez jogos cedendo gols.
O Atlético volta a campo no domingo, às 16h, na Arena MRV, contra o Botafogo pelo Brasileirão Série A 2026 — partida que também marcará a despedida oficial de Hulk. Antes de pensar na Sul-Americana, Domínguez precisa apresentar uma resposta concreta ao problema aéreo. Caso contrário, a sequência de dois jogos decisivos em casa contra Cienciano e Puerto Cabello pode não ser suficiente para salvar nem a classificação, nem o cargo.









