A campainha do celular do treinador tocou perto da meia-noite. Do outro lado da linha, o presidente do São Paulo. Do outro lado do mundo, uma viagem já marcada. Dorival Júnior cancelou o voo e assinou seu terceiro contrato com o Tricolor Paulista, desta vez com prazo determinado até dezembro de 2026 e sem cláusula de multa rescisória — um acordo que diz muito sobre o momento de ambos os lados.
O que os números das passagens anteriores revelam
Dorival passou pelo Morumbis em 2017 e em 2023. A segunda passagem foi a mais rentável: o técnico conduziu o São Paulo ao título da Copa do Brasil de 2023, competição que o clube não vencia desde 1992. Foi exatamente esse trabalho que lhe abriu a porta da Seleção Brasileira, cargo que ocupou de janeiro de 2024 a março de 2025. A primeira passagem, em 2017, foi mais discreta — o treinador não entregou títulos e deixou o clube sem grande impacto.
Desta vez, o contexto financeiro é mais apertado. O contrato vigente prevê salário inferior ao que Dorival recebia no Corinthians, seu trabalho anterior. A diretoria são-paulina não divulgou os valores, mas fontes do mercado apontam que o técnico aceitou redução superior a 20% na remuneração mensal para fechar o acordo — sinal de que o clube atravessa restrições orçamentárias reais, agravadas pela crise institucional que começou com a renúncia do ex-presidente Júlio Casares e se aprofundou com investigações sobre suposta corrupção privada.
Três treinadores em uma temporada. Hernán Crespo foi o primeiro, demitido por divergências com o departamento de futebol. Roger Machado assumiu e foi contestado pela torcida desde o início. Agora, Dorival.
O que Dorival diz e o que o vestiário precisa ouvir
"Às vezes, as pessoas falam que são conquistas. Eu nunca vejo por esse lado. São consequências de trabalho, as conquistas. O principal é você deixar algum legado dentro dos seus clubes", afirmou o treinador na coletiva de apresentação desta segunda-feira (18).
A frase soa filosófica, mas tem uma leitura prática direta: Dorival não vai prometer título. A missão imediata é estancar a hemorragia no Brasileirão, competição em que o São Paulo ocupa posição incômoda na tabela após sequência de resultados negativos, e reorganizar um grupo que perdeu confiança com a eliminação precoce na Copa do Brasil.
"Eu não voltaria tão cedo, realmente. Eu tinha uma viagem para fora marcada, inclusive. E acabei repensando tudo. Vou fazer o máximo possível para poder resgatar o que foi vivido por este grupo há pouco tempo", disse o técnico, referindo-se ao desempenho da equipe em 2023.
O apelo à torcida veio junto com o pedido de paciência. Dorival pediu "equilíbrio" e convidou o torcedor a "voltar a acreditar" — linguagem que indica consciência de que o ambiente no CT do Barra Funda está deteriorado.
A aposta na base e a janela de transferências que se aproxima
Questionado sobre reforços para a janela de meio de ano, Dorival foi cauteloso. Ciente da situação financeira do clube, não confirmou nem descartou contratações: "Vamos conhecendo aos poucos, as necessidades, os problemas, tudo isso é que vai nos moldando para as escalações." A resposta diplomática, no entanto, aponta para uma solução alternativa já testada por ele em 2023 — a promoção de jogadores da base.
O caso mais emblemático foi o zagueiro Beraldo, revelado por Dorival na campanha do título da Copa do Brasil de 2023. O defensor se tornou um dos destaques daquela temporada e foi vendido ao Paris Saint-Germain por aproximadamente 10 milhões de euros (cerca de R$ 55 milhões na cotação da época). A lógica de valorizar jovens do clube tem apelo financeiro imediato e histórico comprovado dentro do próprio São Paulo.
O SportNavo apurou que o elenco atual conta com ao menos quatro atletas da base com potencial de ser promovidos ao time principal — uma janela de custo zero num momento em que o Tricolor não tem folga salarial para grandes investimentos no mercado externo.
O que muda desta vez em relação a 2017 e 2023 é a ausência de tempo. Seis meses de contrato, sem rescisória, em um clube que já trocou de treinador duas vezes na mesma temporada. Dorival sabe que a margem para erro é menor do que em qualquer outra de suas passagens pelo Morumbis.
O técnico comanda seu primeiro treino na tarde desta segunda-feira (18). O São Paulo enfrenta o Juventude na próxima rodada do Brasileirão — o mesmo adversário que motivou a ligação noturna do presidente que mudou os planos de viagem de Dorival.










