Se o São Paulo encerrasse 2026 sem títulos, a demissão de Roger Machado após a eliminação para o Juventude — derrota por 3 a 1 no Alfredo Jaconi, em Caxias do Sul — seria lembrada como o ponto de virada que o clube desperdiçou. A resposta da diretoria tricolor, porém, foi rápida o suficiente para mudar esse prognóstico: em menos de 48 horas após o apito final, Dorival Júnior estava contratado para a sua terceira passagem pelo clube, com contrato válido até o fim de 2026.
A madrugada em Florianópolis que mudou o rumo do Tricolor
A decisão pelo nome de Dorival foi tomada praticamente no vestiário, ainda no Rio Grande do Sul. O diretor Rui Costa e o executivo Rafinha, que acompanhavam a delegação em Caxias do Sul, debateram com o presidente Harry Massis Júnior — que permaneceu em São Paulo — e definiram o alvo antes mesmo de dormir. Os dois viajaram para Florianópolis na manhã seguinte, levando consigo um advogado do clube para agilizar a documentação. Dorival recebeu a comitiva ao lado da família e, segundo apurou o UOL, demonstrou interesse imediato em retornar ao Morumbi.

A negociação financeira foi o único obstáculo real. O São Paulo ofereceu R$ 1,5 milhão mensal; Dorival pedia R$ 3 milhões — valor que recebia no Corinthians. O acordo foi fechado em R$ 2 milhões, com o treinador cedendo significativamente na pedida inicial. Há ainda uma dívida do clube com a comissão técnica de Dorival referente à passagem de 2023, o que tornou a negociação politicamente delicada antes mesmo de qualquer cifra ser colocada na mesa.

O que os números das passagens anteriores revelam sobre essa escolha
Quem argumenta que Dorival já entregou o que tinha a entregar ao São Paulo precisa olhar para os dados com mais atenção antes de concluir qualquer coisa.
Na primeira passagem, entre 2017 e 2018, o treinador dirigiu o clube em 40 jogos e conquistou 17 vitórias — aproveitamento razoável, mas sem título. Na segunda, em 2023, o cenário foi diferente: Dorival conduziu o São Paulo ao título inédito da Copa do Brasil, encerrando um jejum que pesava na história do clube. Saiu no início de 2024 para assumir a seleção brasileira, onde ficou até 2025. Menos de um mês depois, foi contratado pelo Corinthians, com quem também conquistou a Copa do Brasil — feito que reforça um padrão claro: Dorival entrega em competições de mata-mata.
O ditado diz que quem não tem cão caça com gato, mas o São Paulo não está caçando com o que sobrou — está resgatando o melhor treinador que já teve em anos recentes. A lógica da diretoria é objetiva: num clube que está no G4 do Brasileirão e classificado para o mata-mata da Sul-Americana, o técnico com dois títulos da Copa do Brasil nos últimos três anos é exatamente o perfil necessário.
Quem sai perdendo com essa mudança e o efeito cascata no elenco
Roger Machado foi o mais imediato prejudicado, mas o impacto da troca vai além do técnico demitido. A eliminação para o Juventude na quinta fase da Copa do Brasil expôs fragilidades de um elenco que, mesmo bem posicionado no Brasileirão, mostrou inconsistência defensiva e dificuldade de manter ritmo em jogos de pressão fora de casa. Dorival herda um grupo que precisa de ajustes táticos urgentes — e ele sabe disso melhor do que qualquer outro candidato ao cargo, porque conhece cada peça do clube por dentro.
O SportNavo já mapeou que treinadores contratados em meio de temporada com histórico positivo no clube tendem a ter adaptação mais rápida nos primeiros 10 jogos. No caso de Dorival, o fator relacional é ainda mais relevante: a cúpula tricolor apostou justamente na relação construída em 2023 para acelerar o convencimento, e o treinador correspondeu ao reduzir sua pedida financeira — sinal de que o projeto esportivo pesou na decisão.
O efeito cascata mais imediato recai sobre o calendário. O São Paulo tem compromissos pela Sul-Americana e pelo Brasileirão nas próximas semanas, sem tempo para um período de adaptação prolongado. Dorival precisará definir esquema tático e hierarquia no elenco em poucos treinos — exatamente o tipo de desafio que o treinador já enfrentou e superou em 2023, quando chegou ao clube numa situação igualmente urgente.
O cenário macro de uma temporada que ainda pode ser redefinida
A eliminação precoce na Copa do Brasil dói, mas não encerra 2026 para o São Paulo. O time está no G4 do Brasileirão — posição que garante vaga direta na fase de grupos da Libertadores de 2027 — e ainda tem a Sul-Americana como vitrine para um título continental. Dorival Júnior, com dois títulos nacionais consecutivos em clubes diferentes, chega com credencial suficiente para transformar o que parecia uma temporada em colapso numa campanha de recuperação real.
O São Paulo estreia Dorival Júnior no comando provavelmente já na próxima rodada do Brasileirão, onde o Tricolor precisa manter a posição no G4 diante de adversários diretos na briga por vaga continental. A pressão começa imediatamente — e o treinador, que já sabe o peso de vestir o manto tricolor, não terá desculpa para demorar a entregar resultado.










