"O árbitro também tem a voz para poder dizer aos técnicos o que eles podem fazer para todos juntos melhorarmos a qualidade do futebol brasileiro." A frase é de Wilson Seneme, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF — e ela resume, com precisão incomum, o que aconteceu numa quinta-feira recente num hotel do Rio de Janeiro. Cinquenta e quatro árbitros e assistentes de elite ouviram, pela primeira vez na história da entidade, um técnico da Seleção Brasileira Masculina Principal falar diretamente para eles. O técnico era Dorival Júnior.
O gesto inédito que a CBF demorou décadas para fazer
Desde que o Brasil formalizou sua estrutura de arbitragem profissional, no início dos anos 2000, treinadores e juízes viveram em universos paralelos: um reclamava do outro pela imprensa, o outro se defendia em relatórios técnicos. O diálogo direto entre essas duas categorias nunca foi institucionalizado — ao menos não neste nível. A participação de Dorival na pré-temporada dos árbitros da CBF quebrou esse padrão com uma simplicidade desconcertante. Não houve drama nem confronto público. Houve, literalmente, uma cadeira e um microfone.
O encontro faz parte da pré-temporada anual da Comissão de Arbitragem, que nesta edição reuniu a primeira turma de 54 profissionais — árbitros de campo e do VAR — em atividades que se estenderam de segunda a sexta-feira. A segunda turma, com outros 54 árbitros, inicia na semana seguinte. Entre os presentes na sessão com Dorival estava o árbitro sul-mato-grossense Paulo Henrique Salmázio, um dos nomes em ascensão no quadro de juízes nacionais.
"Esse encontro tem uma importância muito grande que é ouvir o outro lado. É extremamente engrandecedor, ainda mais vindo de um treinador que é uma referência no futebol brasileiro e é o técnico da nossa Seleção. Escutar dele suas ideias e sugestões para um caminho rumo à melhora da arbitragem é fundamental", declarou Seneme.
O que Dorival disse que os árbitros precisavam ouvir
A palestra não foi um monólogo de queixas. Dorival abordou três eixos centrais: a pressão psicológica que permeia o futebol brasileiro, as diferenças de dinâmica entre o jogo nacional e o europeu — onde o técnico acumulou referências ao longo da carreira — e a necessidade de uma mudança de postura coletiva, envolvendo atletas, comissões técnicas e árbitros. O tom foi o de quem propõe, não o de quem acusa.
Há um paralelo histórico que ilumina o contexto. Em junho de 2018, às vésperas da Copa da Rússia, o então técnico Tite recebeu o ex-árbitro Wilson Seneme — o mesmo que hoje preside a Comissão — na concentração de Sochi para explicar o funcionamento do VAR aos jogadores. Alisson Becker, na época, comentou: "Tive a experiência do VAR na Itália e deu muito certo." O fluxo de informação, naquele momento, ia da arbitragem para o elenco. Oito anos depois, o sentido se inverteu: foi o técnico da Seleção quem foi até os árbitros. É uma mudança de paradigma pequena nos protocolos e significativa na cultura.
"O objetivo principal é com a qualidade do nosso futebol. É uma participação no sentido de tentar entender as dificuldades, os problemas enfrentados pela arbitragem, que eles nos mostrem algumas sugestões que possamos melhorar a qualidade do jogo", disse Dorival Júnior ao encerrar sua apresentação.
Ao final, num gesto que mistura protocolo e afeto, Dorival, seu auxiliar Cícero e o preparador Dimas receberam camisas do chamado "Time Arbitragem" — um presente simbólico, mas que sinalizou o tom do encontro: colaboração, não confronto.
O impacto prático antes da Copa do Mundo de 2026
O calendário dá peso estratégico ao episódio. A Copa do Mundo de 2026, sediada nos Estados Unidos, Canadá e México, trará novidades regulamentares que já estão no radar da CBF. A Seleção e os árbitros brasileiros precisarão assimilar, por exemplo, a regra que limita substituições a 10 segundos — caso o prazo seja ultrapassado, a equipe fica temporariamente com um jogador a menos por um minuto. Laterais e tiros de meta também passam a ter limite de cinco segundos para execução, sob pena de perda de posse. Essas mudanças, aprovadas pela International Board e pela Fifa a partir de 2025, exigem que treinadores e árbitros estejam alinhados antes de qualquer partida de alto risco.
Clubes brasileiros já adotam palestras de arbitragem como rotina — o Palmeiras promoveu sessões para as categorias de base com o instrutor Roberto Perassi, da Federação Paulista; o Ceará recebeu o assessor Almeida Filho antes de sua estreia na Série B de 2023. O que muda, com a iniciativa desta semana, é a escala e o simbolismo: pela primeira vez, o diálogo partiu do topo da pirâmide do futebol nacional em direção ao quadro arbitral, e não o contrário.
A segunda turma de árbitros inicia sua pré-temporada na semana que vem, com a presença confirmada de Eduardo Gonçalves da Cruz, de Mato Grosso do Sul. O próximo passo natural, segundo o próprio Seneme, seria expandir o formato para que árbitros também palestrem para comissões técnicas dos clubes da Série A — um ciclo de troca que, se implementado antes do Mundial, chegaria ao Brasileirão 2026 com meses de maturação. O modelo existe — falta virar rotina.










