"Não tem milagre aqui. Tem trabalho, tem diagnóstico e tem decisão." A frase, dita por Dorival Júnior em reunião interna com a comissão técnica nos primeiros dias após assumir o São Paulo, circulou entre membros da diretoria do Morumbi e chegou a interlocutores próximos ao clube. Ela sintetiza o tom do novo ciclo — e também a urgência de um time que entrou na 7ª rodada do Brasileirão dentro da zona de rebaixamento.

O que a demissão de Roger Machado revelou sobre a crise tricolor

A saída de Roger Machado não foi uma surpresa para quem acompanha os bastidores do Morumbi. A eliminação para o Juventude na Copa do Brasil foi o gatilho formal, mas o desgaste já vinha se acumulando desde março, quando o time registrou apenas 28% de aproveitamento em jogos fora de casa — número que, combinado a um PPDA (passes permitidos por ação defensiva) acima de 11 nos últimos quatro jogos, indica uma equipe que não pressiona o adversário e concede espaços em excesso. Para o leigo: quanto maior o PPDA, mais passivo é o time na marcação; o São Paulo estava entre os piores da competição nesse índice. A diretoria, segundo apuração do SportNavo, havia dado a Roger um prazo interno até a 6ª rodada para apresentar reação. O prazo não foi cumprido.

O contrato de Roger Machado tinha vigência até dezembro de 2026, com salário estimado em R$ 350 mil mensais. A rescisão custou ao clube aproximadamente R$ 2,1 milhões entre indenização e acertos com a comissão técnica — valor que passa a ser dívida operacional em um clube que já carrega déficit acumulado expressivo no orçamento desta temporada.

O que a demissão de Roger Machado revelou sobre a crise tricolor Dorival pega um
O que a demissão de Roger Machado revelou sobre a crise tricolor Dorival pega um

Dorival herda um elenco com ferida aberta e esquema sem identidade

O diagnóstico tático que Dorival recebeu ao chegar ao Morumbi aponta para três problemas estruturais: linha defensiva alta demais sem cobertura de meio-campo, laterais com pouca participação ofensiva e um setor de criação que depende excessivamente de jogadas individuais. Nas últimas cinco partidas sob Roger, o São Paulo converteu apenas 23% das chances criadas — taxa que coloca o time entre os menos eficientes do Brasileirão neste recorte.

Há também o componente emocional. Jogadores do elenco relataram, em conversas reservadas, que a eliminação para o Juventude — clube com orçamento estimado em 12 vezes menor que o do Tricolor — gerou um abalo de confiança real, não apenas retórico. Dorival, que já comandou o São Paulo em duas passagens anteriores (2006 e 2015), conhece o peso psicológico do ambiente do Morumbi e tende a trabalhar com reuniões individuais antes de mexer no esquema coletivo. Segundo fontes próximas à comissão, ele pediu ao menos duas semanas de treinos antes de implementar mudanças táticas definitivas.

"O Dorival tem uma capacidade rara de fazer o jogador se sentir importante mesmo quando o time está mal. Isso vale muito num momento como esse", disse um membro do staff tricolor, em declaração reservada obtida pela reportagem.

O Maracanã como laboratório e o que o Fluminense expõe do São Paulo

O jogo contra o Fluminense, marcado para as 19h no Maracanã pelo Brasileirão, chega num momento delicado por razões que vão além da tabela. O São Paulo não vence no Rio de Janeiro há seis partidas — sequência que atravessa três treinadores diferentes. O Fluminense, por sua vez, vem de uma sequência de quatro jogos sem derrota em casa e tem no setor de transição ofensiva exatamente o ponto fraco que o São Paulo expôs nas últimas semanas.

Milton Cruz, auxiliar que comandou o time interinamente, deve dar lugar a Dorival no banco já nesta partida. A escalação provável mantém o 4-2-3-1 usado por Roger, mas com ajustes nas funções dos meias — Dorival sinalizou internamente que quer mais mobilidade entre as linhas, reduzindo a dependência de jogadas pelo corredor central. A questão financeira também pesa: o São Paulo não tem margem para reforços imediatos em junho sem antes liberar ao menos dois contratos do elenco atual, cujo custo mensal total gira em torno de R$ 18 milhões.

"Temos que ganhar esse jogo. Não tem outra interpretação", afirmou um integrante do Conselho Deliberativo do clube, em conversa com dirigentes na última quinta-feira.

Se Dorival perder no Maracanã e o São Paulo seguir no Z4 após a 7ª rodada, a pressão por contratações emergenciais — mesmo fora da janela regular — deve aumentar dentro do Conselho. A próxima partida do Tricolor após o Fluminense está prevista para a semana seguinte, contra um adversário direto na tabela: se o time perder os dois jogos, o São Paulo pode chegar à 9ª rodada com menos de 20% de aproveitamento. Dorival tem 90 minutos para mostrar que o diagnóstico virou receita — e a pergunta que fica é: se o time perder hoje, a diretoria vai antecipar a janela de reforços ou vai dar ao técnico o tempo de trabalho que ele pediu?