Victor Wembanyama foi para o San Antonio Spurs em 2023 como a escolha número 1 do draft. Como uma franquia que não vencia um título há anos conseguiu o jogador mais cobiçado do planeta? É exatamente essa a engrenagem que o draft da NBA move — e entender ela muda completamente como você assiste basquete.
O draft é o mecanismo anual em que as 30 franquias da NBA selecionam jogadores novos — universitários americanos, jovens internacionais e outros elegíveis — em ordem determinada principalmente pelo desempenho da temporada anterior. Quem perdeu mais, escolhe primeiro.
A escola que defende o tanking como estratégia legítima
Uma corrente forte dentro da NBA — e muito debatida nas redes sociais — defende que perder de propósito (tanking) é uma estratégia racional e até necessária para reconstruir uma franquia. O argumento é simples: o sistema premia o fracasso com as melhores escolhas.
A lógica funciona assim: os 14 piores times da temporada regular entram na loteria do draft. Cada um recebe uma quantidade de bolas proporcional ao quão ruim foi seu desempenho. As três primeiras escolhas são sorteadas entre esses times. As posições seguintes seguem ordem inversa de classificação.
- 1º ao 14º lugar — participam da loteria, com chances variáveis de pegar o 1º pick
- 15º ao 30º lugar — escolhem em ordem inversa, do 15º ao 30º
- O pior time tem 14% de chance de pegar a 1ª escolha — não é garantido
- As escolhas podem ser negociadas entre franquias em qualquer momento
- Jogadores internacionais podem ser draftados e permanecer no exterior por anos
Para quem defende essa escola, o caminho de San Antonio com Wembanyama é a prova máxima: anos de reconstrução, escolhas acumuladas, paciência — e então uma geração inteira de competitividade. O modelo Philadelphia 76ers no ciclo de Joel Embiid também virou referência desse pensamento, com o slogan "Trust the Process" viralizando fora do basquete e dominando o Twitter por anos.
A escola que rejeita o tanking e aposta em competitividade constante
Do outro lado, há franquias e analistas que argumentam que tankar é um desrespeito ao torcedor, ao produto e até à própria liga. Golden State Warriors é o maior símbolo dessa corrente: construiu uma dinastia com desenvolvimento interno, coaching de elite e cultura vencedora — não com perdas deliberadas.
Essa escola defende que o draft é apenas uma ferramenta, não o caminho único. Stephen Curry foi a 7ª escolha em 2009. Draymond Green foi escolhido na 35ª posição — segunda rodada. Nikola Jokic, três vezes MVP, foi o pick 41. Ou seja: talento pode aparecer em qualquer posição do draft, e times que perdem de propósito muitas vezes desperdiçam anos sem entregar basquete competitivo.
O argumento digital também pesa aqui. Times que vencem consistentemente têm audiência maior, mais engajamento nas redes e mais receita — o que atrai free agents de alto nível, criando um ciclo virtuoso que independe do draft… e aí vem o problema.
Onde elas divergem na prática
A tensão entre as duas escolas aparece toda temporada da NBA, e a temporada 2025-2026 não é diferente. A diferença central está em quanto tempo uma franquia está disposta a esperar para ser relevante.
Um time que tanka por três anos consecutivos pode acumular picks valiosos — mas também pode errar nas escolhas, perder torcedores e ver seus melhores jogadores pedindo transferência antes do projeto decolar. A distância entre uma franquia reconstruída com sucesso e uma presa em ciclo eterno de rebuilding é, às vezes, do tamanho da distância entre Manaus e Salvador — parece que você está indo na direção certa, mas o destino ainda está muito longe.
A escola competitiva, por sua vez, corre o risco de ficar no meio-termo: boa o suficiente para não pegar um pick alto, ruim o suficiente para não vencer o campeonato. É o chamado "no man's land" — e várias franquias ficam presas aí por décadas.
O basquete da NBA vive esse debate em tempo real. A tag basquete aqui no SportNavo concentra essa cobertura temporada a temporada, e o time de análise do SportNavo tem acompanhado como essa polarização influencia decisões de trade deadline e free agency.
O que tende a prevalecer no basquete moderno
A NBA percebeu que o tanking excessivo prejudicava o produto e mudou as regras da loteria em 2019: nivelou as chances dos três piores times (todos com 14%) justamente para desincentivar perdas deliberadas. A reforma funcionou parcialmente, mas não eliminou o debate.
O que os dados de audiência digital mostram é revelador: os times que combinam jovens talentos do draft com veteranos competitivos geram mais engajamento, mais streams e mais seguidores. Oklahoma City Thunder — com Shai Gilgeous-Alexander, escolhido via draft — é o exemplo mais quente da temporada atual: time jovem, construído com picks, mas jogando para vencer agora.
O modelo híbrido parece ser o que prevalece: usar o draft como base, mas não sacrificar temporadas inteiras esperando por ele. Draftar bem, desenvolver bem, e não ter medo de ser competitivo enquanto o projeto amadurece.
O que o torcedor leva disso tudo: quando você vê um time perdendo jogos no fim de temporada, provavelmente está vendo uma decisão de gestão, não de quadra. E quando um jovem desconhecido aparece como 1ª escolha, é porque um ciclo inteiro de planejamento — às vezes doloroso — chegou ao ponto de colheita. O draft da NBA não é só uma noite de gala transmitida ao vivo. É a consequência visível de anos de estratégia… ou de anos de apostas que podem não dar certo.








