Confesso: eu subestimei o cartel de Dricus Du Plessis quando ele perdeu o cinturão para Sean Strickland pela primeira vez. Achei que o sul-africano seria engolido pela fila da divisão, que nomes como Khamzat Chimaev ou Nassourdine Imavov passariam na frente e que a janela de Du Plessis tinha fechado. Errei feio — e o UFC 328 me obrigou a reconhecer isso em voz alta.
O que a vitória de Strickland reacendeu na divisão dos médios
Na noite de sábado (9 de maio de 2026), no Prudential Center em Newark, UFC 328 entregou uma das histórias mais circulares que o MMA produziu nos últimos anos. Sean Strickland — o homem que perdeu o cinturão dos médios para Dricus Du Plessis no UFC 297, em janeiro de 2024, por decisão dividida — recuperou o título ao derrotar Khamzat Chimaev na luta principal da noite. A vitória por decisão unânime colocou Strickland de volta ao topo de uma divisão que ele nunca deixou de habitar nos rankings.
Du Plessis, que havia perdido o cinturão para o próprio Strickland em sua primeira defesa — após vencer o título contra Israel Adesanya no UFC 305, em agosto de 2024 — reagiu à vitória do americano nas redes sociais com uma mensagem direta: ele se colocou como o desafiante natural, citando que a conta entre os dois ainda está aberta. O cartel do sul-africano sustenta o argumento: Du Plessis acumula 22 vitórias e 2 derrotas no MMA profissional, com as duas derrotas sendo, justamente, para Strickland.
O histórico entre Du Plessis e Strickland não deixa margem para debate
A rivalidade entre os dois é uma das mais genuínas que o UFC construiu nos últimos anos — não pela promoção, mas pela sobreposição constante de trajetórias. Du Plessis chegou ao octógono de cinturão vindo de uma sequência de seis vitórias consecutivas na organização, incluindo finalizações sobre Derek Brunson, Darren Till e Brad Tavares. Strickland, por sua vez, conquistou o título ao nocautear Adesanya no UFC 293, em setembro de 2023, antes de perder para Du Plessis e agora reconquistar o cinturão contra Chimaev.
Os dois já se enfrentaram duas vezes. No primeiro duelo — UFC 297, em Toronto — Du Plessis levou a decisão dividida (48-47, 48-47, 47-48) em uma das lutas mais polêmicas do ano. Na revanche, Strickland virou a mesa e recuperou o ouro. Com o placar geral em 1-1 e Strickland agora campeão novamente, a lógica do ranking aponta para um terceiro encontro como o caminho mais óbvio da divisão.
"Eu tenho a conta aberta com ele. Não tem outro caminho — a revanche é o que faz sentido para essa divisão"
A frase atribuída a Du Plessis após o UFC 328 resume o estado de espírito do sul-africano, que — mesmo sem ter lutado no card da noite — voltou ao centro das conversas da categoria dos 84kg simplesmente por existir no topo do ranking e ter histórico direto com o novo campeão.
O ranking, as odds e o que o UFC precisa resolver agora
No ranking dos médios do UFC após o UFC 328, Du Plessis figura entre os três primeiros contendores da divisão — posição que, combinada com o histórico de duas lutas contra Strickland, torna difícil para a organização justificar qualquer outro desafiante imediato. Nomes como Robert Whittaker, que já foi campeão duas vezes na categoria, e o próprio Imavov estão na fila, mas nenhum deles carrega o peso narrativo de uma trilogia com o atual campeão.
Nas casas de apostas, Du Plessis aparece como favorito leve em uma hipotética trilogia — as odds iniciais circulando em sites especializados após o UFC 328 apontam para algo próximo de -130 para o sul-africano e +110 para Strickland, uma margem que reflete o equilíbrio histórico entre os dois e a dificuldade de antecipar um terceiro combate de alto nível técnico. Strickland, aos 33 anos, mostrou em Newark que ainda tem o jab e o volume de socos que o tornaram campeão pela primeira vez; Du Plessis, aos 31, tem a vantagem do grappling e de uma base de kickboxing sólida que quase o manteve com o cinturão na segunda luta.
A questão que o UFC precisa responder nas próximas semanas é se Dana White vai formalizar a trilogia ou se vai abrir espaço para um desafiante intermediário — o que seria uma decisão comercialmente questionável, dado que Strickland vs. Du Plessis III tem todos os ingredientes para ser o maior evento da divisão dos médios desde Adesanya vs. Whittaker 2. A rivalidade tem contexto, tem tensão genuína e tem um placar para ser resolvido.
"Strickland é o tipo de lutador que você precisa bater mais de uma vez para convencê-lo de que perdeu. E mesmo assim ele vai discutir"
A frase — atribuída a membros do camp de Du Plessis em entrevistas anteriores ao UFC 328 — diz muito sobre a natureza psicológica dessa rivalidade. Strickland é conhecido por sua resiliência mental e por um estilo que desgasta adversários ao longo de cinco rounds, enquanto Du Plessis busca o finalizar mais cedo, combinando pressão e clinch. As duas filosofias já produziram quarenta e oito minutos de alto nível — e prometem mais.
O UFC ainda não confirmou data ou local para o próximo evento de grande porte da divisão dos médios, mas a janela mais provável para Strickland vs. Du Plessis III aponta para o segundo semestre de 2026 — possivelmente em um UFC numerado entre os eventos 330 e 335, a depender da agenda de Strickland e do resultado das negociações com o camp do sul-africano.
No octógono vazio do Prudential Center, horas depois que a luta principal terminou, as luzes ainda iluminavam o canvas manchado — e em algum lugar naquela arena, a história entre Sean Strickland e Dricus Du Plessis ainda não tinha encontrado o seu round final.








