— Cara, você viu que a Samsung colocou a Dua Lipa na caixa da TV deles?
— Que parceria incrível! Ela assinou contrato com eles?
— Não. Ela nem sabia. E agora está pedindo US$ 15 milhões na Justiça.

Esse diálogo, repetido em grupos de WhatsApp e mesas de bar ao redor do mundo nas últimas semanas, resume com precisão cirúrgica o escândalo que transformou o mercado de eletrônicos em palco de uma batalha jurídica de proporções históricas. Dua Lipa, 30 anos, protocolou ação em tribunal federal na Califórnia na sexta-feira (9 de maio de 2026), acusando a Samsung Electronics de usar sua imagem em embalagens de televisores vendidas em todo o mundo sem qualquer autorização, contrato ou remuneração.

A foto que virou produto sem permissão da dona

A imagem no centro da disputa é registrada com o título "Dua Lipa — Backstage at Austin City Limits, 2024" — uma fotografia tirada nos bastidores do Austin City Limits Festival, em 2024, da qual a cantora detém todos os direitos autorais, registrados junto ao United States Copyright Office. Segundo a ação, a Samsung começou a usar a foto no início de 2025, estampando o rosto da artista na frente das caixas de papelão de múltiplos modelos de televisores comercializados em lojas físicas nos Estados Unidos e em outros países.

Quando Dua Lipa tomou conhecimento do uso indevido — em junho de 2025, após fãs nas redes sociais começarem a compartilhar imagens das embalagens e criarem o termo "Dua Lipa TV Box" — sua equipe jurídica exigiu que a Samsung retirasse imediatamente o material de circulação. A resposta da empresa, segundo os documentos judiciais, foi classificada como "dismissive and callous" (desdenhosa e insensível), e a Samsung se recusou repetidamente a atender às demandas.

"O rosto de Dua Lipa foi usado proeminentemente em uma campanha de marketing em massa para um produto de consumo sem seu conhecimento, sem contrapartida, e sobre a qual ela não teve qualquer poder de decisão, controle ou participação. Ela não autorizou e jamais teria autorizado esse uso", afirma o documento protocolado pelos advogados da artista.

Fãs comprando TV por causa da embalagem — e o impacto comercial documentado

Um dos elementos mais reveladores da ação judicial é a inclusão de capturas de tela de comentários em redes sociais como prova de impacto comercial direto. Os advogados de Dua Lipa anexaram ao processo prints do Instagram e do X que demonstram como a imagem da cantora influenciou decisões de compra de consumidores reais. Um dos comentários citados literalmente no processo diz: "I'd get that TV just because Dua Lipa is on it" (Eu compraria essa TV só porque a Dua Lipa está nela). Outro usuário afirmou: "Se você precisar vender qualquer coisa, é só colocar uma foto da Dua Lipa na embalagem."

Essa documentação é estrategicamente relevante porque sustenta a tese de falso endosso — um dos três pilares da ação, ao lado de violação de direitos autorais e violação do direito de publicidade. A equipe jurídica argumenta que a Samsung lucrou diretamente com a percepção pública de que a cantora endossava o produto, o que configura violação do Lanham Act federal e das leis de publicidade do estado da Califórnia.

"O uso não autorizado da imagem de Dua Lipa pela Samsung causou e continua causando diluição da identidade de marca e do goodwill comercial da artista, transmitindo falsamente ao público consumidor que ela aprova e endossa os produtos em questão", sustentam os advogados.

Um precedente que ressoa desde os anos 80

Para entender o peso jurídico deste caso, é necessário recuar até 1988 — quando a atriz Bette Midler processou a Ford Motor Company por US$ 400 mil após a montadora usar uma imitação de sua voz em comercial de televisão sem autorização. A Corte de Apelações do Nono Circuito decidiu a favor de Midler, estabelecendo que a voz de uma celebridade é propriedade protegida. Desde então, o direito de publicidade nos Estados Unidos — especialmente na Califórnia — foi progressivamente ampliado para incluir rosto, nome, voz e identidade comercial. O caso Dua Lipa vs. Samsung — acompanhado de perto pela equipe do SportNavo por seu impacto no mercado de entretenimento e patrocínio esportivo — representa o estágio mais avançado dessa evolução: uma disputa que envolve fotografia digital, rastreabilidade em redes sociais e provas de impacto de vendas obtidas diretamente de comentários de consumidores.

A diferença de escala entre o caso Midler e o atual é expressiva. Enquanto a Ford pagou US$ 400 mil em 1988 — o equivalente a aproximadamente US$ 1 milhão em valores corrigidos de 2026 — Dua Lipa pleiteia ao menos US$ 15 milhões em danos, além da totalidade dos lucros que a Samsung obteve com o uso não autorizado de sua imagem. A Samsung Electronics, por meio de porta-voz, afirmou que não comentaria o caso por se tratar de litígio pendente.

O que muda para celebridades, marcas e o mercado de patrocínios

Se Dua Lipa obtiver uma sentença favorável — especialmente se o tribunal reconhecer o uso como willful (intencional), o que abre caminho para indenizações multiplicadas —, o impacto sobre o mercado de licenciamento de imagem será imediato e mensurável. Empresas de eletrônicos, moda e alimentação que hoje utilizam imagens de celebridades em materiais de ponto de venda terão de revisar seus processos de compliance com urgência. O prazo para a Samsung responder formalmente à ação no tribunal federal da Califórnia ainda não foi divulgado, mas o caso já está na pauta de escritórios de propriedade intelectual nos Estados Unidos, Reino Unido e Coreia do Sul.