Às 17 horas em ponto, duas listas ainda existiam simultaneamente nas mãos do departamento de futebol da CBF. Uma trazia o nome de Neymar. A outra, o de João Pedro. Carlo Ancelotti, no Museu do Amanhã, no centro do Rio de Janeiro, sabia o que escolhera — mas não havia dito a ninguém, nem mesmo ao presidente Samir Xaud, que confessou ao vivo ter sido surpreendido como qualquer torcedor quando o nome do camisa 10 foi pronunciado.
A tensão dos bastidores nasceu de um exame de imagem feito pelo Santos na panturrilha do atacante, após contusão sofrida na partida contra o Coritiba. O diagnóstico gerou alarme real dentro da comissão técnica. A ponto de a equipe de apoio da CBF manter as duas versões da lista ativas até poucas horas antes do anúncio — situação inédita na preparação recente da Seleção para uma Copa do Mundo.
A lesão que quase mudou tudo na véspera do anúncio
Havia uma lógica clara na decisão de Ancelotti de manter o sigilo. Desde que assumiu o cargo, em maio de 2025, o italiano deixou explícito que Neymar só seria convocado com condição física comprovada — não por pressão externa, não por marketing, não por legado. O próprio técnico declarou, na coletiva após o anúncio:
"Quando eu cheguei aqui, o Neymar teve problema físico. Nos últimos tempos, ele começou a jogar com continuidade, mostrou uma boa condição física. Por isso eu não precisava testá-lo."Essa régua diferenciada foi aplicada durante meses: a CBF acompanhou de perto a evolução do atacante, que, desde o retorno ao Santos, passou por cirurgia no joelho em dezembro de 2025 e precisou de controle rigoroso de carga para chegar a maio de 2026 com 12 jogos disputados desde meados de março, quatro gols e três assistências.
A contusão na panturrilha, portanto, chegou no pior momento possível. O diagnóstico causou tensão real, não protocolar. A comissão técnica pesou o risco de convocar um atleta que poderia agravar a lesão antes mesmo da estreia, marcada para 13 de junho contra o Marrocos. A alternativa concreta era João Pedro, titular do Chelsea na temporada 2025/2026 da Premier League, com números de peso: 20 gols e seis assistências em 49 jogos, vice-artilheiro da competição inglesa. O atacante era o nome mais preparado fisicamente disponível para a posição — e ficou fora.
João Pedro sem Copa e a lógica que Ancelotti não disse em voz alta
A ausência do atacante gaúcho provocou reação imediata entre analistas. O colunista Juca Kfouri foi direto:
"Eu considero um crime contra o João Pedro ele estar fora da lista e uma confissão de submissão do Ancelotti pela convocação do Neymar."O próprio preterido reagiu com equilíbrio público — "alegrias e frustrações fazem parte do futebol", escreveu em nota — mas a frustração era compreensível para quem produziu, nesta temporada europeia, mais do que qualquer outro centroavante brasileiro em atividade.
Ancelotti reconheceu a dificuldade sem se esquivar. "Foi muito difícil escolher esses 26 jogadores porque a concorrência neste país é muito alta", disse o treinador, acrescentando que jogadores como João Pedro e Andrey Santos "terão oportunidade de estar em outra Copa do Mundo" — referindo-se ao ciclo que ele próprio comandará até 2030. A leitura que circulou nos bastidores, e que Felipe Melo endossou publicamente, é que o nome de Neymar foi deliberadamente guardado para o final da cerimônia, como elemento dramático de uma convocação pensada também como evento de reconexão entre torcida e Seleção. "Seguraram muito sabendo o tamanho do Neymar para essa festa", afirmou o ex-volante.

O peso real da escolha para o Brasil na Copa
Quem defende a convocação aponta para o que os números isolados não capturam: Neymar é o único sobrevivente da geração que disputou a Copa de 2014, carrega 13 jogos em Mundiais, oito gols e quatro assistências, e pode se tornar o jogador mais velho a marcar pela Seleção em Copas, superando a marca de Bebeto em 1998, quando o atacante tinha 34 anos, quatro meses e 17 dias. Neymar completará 34 anos em fevereiro — e estará com 34 anos e quatro meses na fase eliminatória, se o Brasil avançar.
O analista PVC levantou um dado que merece atenção: esta é a lista com o maior número de jogadores que nunca venceram um Mundial na história da Seleção. A convocação tem também marcas positivas — sete atletas de clubes brasileiros, o maior número desde 2002, quando Luiz Felipe Scolari levou 13 jogadores do futebol nacional ao pentacampeonato. O Flamengo, sozinho, fornece quatro convocados: Lucas Paquetá, Léo Pereira, Danilo e Alex Sandro, o que representa receita potencial de US$ 1 milhão (R$ 5 milhões) em compensação FIFA ao clube, caso o Brasil chegue às quartas de final.
A síntese honesta é esta: Ancelotti fez uma aposta calculada, não sentimental. Avaliou risco físico, pesou experiência de Copa, considerou o impacto do ambiente que Neymar gera no grupo — e escolheu. A pergunta que o Mundial vai responder não é se a escolha foi certa ou errada na teoria, mas se Neymar aguenta os 90 minutos que a Copa exige. O Brasil estreia no dia 13 de junho contra o Marrocos, com amistosos preparatórios contra o Panamá em 31 de maio e o Egito em 6 de junho. Tempo suficiente para a panturrilha cicatrizar — ou para a dúvida voltar.









